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Uma introdução ao pensamento de Jacques Lacan

2 de out.
4 min de leitura

A psicanálise é, entre muitas coisas, um campo de investigação do inconsciente. Sendo mais específica, do sujeito do inconsciente. A emergência das palavras no setting analítico é a demonstração mais clara desse movimento, de que algo que estava oculto pode ser revelado.


Embora Sigmund Freud e Jacques Lacan façam movimentos distintos acerca do inconsciente, ambos formalizam suas teses considerando esse “objeto” de investigação.


Em Freud, o inconsciente é pensado a partir do recalque e do retorno de conteúdos que permanecem ativos, porém fora da consciência. Lacan retoma essa descoberta e enfatiza que o inconsciente funciona segundo uma lógica própria da linguagem: ele aparece nos significantes, nos equívocos, nas repetições e naquilo que o sujeito diz para além do que pretendia dizer.


A partir do seu retorno a Freud, Lacan pode fazer uma releitura do inconsciente freudiano, ampliando as possibilidades do tratamento psicanalítico, ao formular que “o inconsciente se estrutura como uma linguagem”.


Lacan e o retorno a Freud


Quem explica em detalhes essa formulação é o psicanalista e professor Dr. Christian Dunker, em seu texto O Estilo de Lacan, publicado pela editora Zahar.


“Quando Lacan afirma que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, isso implica que o inconsciente é tanto uma estrutura de língua (metáfora e metonímia, sincronia e diacronia) quanto uma estrutura de fala (pela qual o sujeito recebe sua própria mensagem invertida desde o Outro).”


Outra formulação interessante sobre esse movimento é a de Alfredo Eidelsztein, psicanalista, pesquisador e escritor argentino. Ele argumenta que a retomada de Freud por Lacan não foi uma aceitação cega, mas um questionamento crítico das bases freudianas, a partir de uma perspectiva estrutural e conceitual.


Para o escritor, enquanto Freud apoiava a psicanálise em bases empíricas e biológicas, Lacan priorizava a primazia das ideias e utilizava conceitos complexos como a topologia para explicar a psique.


Ele não retornou a Freud para ouvir o que já havia sido dito, nem para ler o que já havia sido escrito. Seu movimento buscou, sim, reler, mas também interrogar os conceitos e recuperar questões que, com o tempo, poderiam ter se tornado conhecidas demais — e, justamente por isso, deixado de ser problematizadas.


Com qual Lacan a gente se relaciona quando começa a acompanhar seus textos? Alguns psicanalistas insistem na tese de primeiro e segundo Lacan. Ou, mais precisamente, primeiro e segundo ensino, respectivamente: Foraclusão e Metáfora Paterna e Do Significante ao Sinthoma.


Para compreender essas diferentes formulações e acompanhar as transformações de seu pensamento, é preciso também considerar o percurso intelectual de Lacan.


Jacques Lacan em perspectiva


Jacques Lacan nasceu em 13 de abril de 1901, em Paris, em uma família da alta burguesia, e morreu em 9 de setembro de 1981. Sua trajetória intelectual começou pela Medicina, passou pela Neurologia e pela Psiquiatria e encontrou na psicanálise o campo de uma elaboração teórica própria.

Desde a juventude, interessou-se pela filosofia, especialmente pelas obras de Nietzsche e Spinoza, e manteve vínculos com a arte e a cultura de seu tempo, aspectos explorados por sua biógrafa, Élisabeth Roudinesco.


1923, Lacan ouve falar de Freud 


Após cerca de dez anos de prática médica, aproximou-se progressivamente da psicanálise, abandonando os referenciais da Neurologia e da Psiquiatria para se dedicar à invenção freudiana.

Na década de 1930, seu diálogo com a antropologia e a linguística ampliou o horizonte de suas investigações e contribuiu para a construção de um pensamento que buscava reformular os fundamentos da psicanálise.


Um dos traços mais marcantes de seu percurso foi a decisão de não recuar diante das psicoses. Inclusive, sua tese de doutorado, Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade, já expressava esse interesse. Lacan enviou o trabalho a Freud, mas não obteve a atenção que esperava, relata o psicanalista e professor Dr. Daniel Perez. Ainda assim, prosseguiu em seu projeto de releitura e reformulação da teoria psicanalítica.


Em 1938, publicou Os complexos familiares na formação do indivíduo, na Enciclopédia Francesa, texto posteriormente reunido em Outros escritos. Outro ponto de entrada importante em seu pensamento é O seminário sobre “A carta roubada”, que abre a coletânea Escritos.


Paralelamente à produção escrita, Lacan desenvolveu, ao longo de 26 anos de seminários, um modo próprio de compreender a constituição do sujeito, sua relação com os sintomas e o percurso de uma análise, do início ao fim.


Para (não) entender Lacan


Se acompanhar o pensamento de Lacan exige considerar seus diferentes momentos e conceitos, talvez uma das melhores formas de começar seja justamente escolher um percurso de leitura.


No ESPEcast, duas trilhas permitem se aproximar de questões fundamentais da clínica lacaniana, partindo de Freud e avançando pelas formulações de Lacan.


As Psicoses em Psicanálise, com Francis Juliana Fontana


Francis Juliana parte da premissa de que ainda há poucos analistas preparados para sustentar uma clínica com psicóticos. Seus percursos nascem dessa lacuna e recolocam a psicose no centro da prática psicanalítica.


Em As Psicoses em Psicanálise, retoma Freud e a diferenciação estrutural entre neurose e psicose, revisitando o caso Schreber como laboratório para pensar o delírio como esforço de reconstrução simbólica diante da falha do laço com o Outro.


Já em Borderline: psicoses não desencadeadas, aprofunda um ponto crucial da clínica atual: as chamadas psicoses não desencadeadas, frequentemente nomeadas como “borderline” no discurso psiquiátrico.


O percurso se organiza em três eixos: o que caracteriza uma psicose não desencadeada, como ler sua sintomatologia a partir da psicanálise e quais são as orientações possíveis para o tratamento.


Este mês, o ESPEcast retorna ao ensino de Jacques Lacan. Um convite para retomar Freud, acompanhar as formulações de Lacan e seguir conosco por alguns dos caminhos que atravessam seu ensino.


Saiba mais sobre os percursos no nosso site.





Referência Bibliográfica

CESAROTTO, Oscar; SOUZA LEITE, Marcio Peter de. Jacques Lacan: uma biografia intelectual. São Paulo: Iluminuras, 2000.


DUNKER, Christian. O estilo de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2025.


EIDELSZTEIN, Alfredo; STARNINO, Alexandre. A formalização de Lacan I. YouTube.



Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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