O Grafo do Desejo, passo a passo
Jacques Lacan foi um dos psicanalistas que mais desenvolveram esquemas e formulações para representar o funcionamento do sujeito do inconsciente. Entre eles estão os Esquemas L, R e I, o Estádio do Espelho, os matemas e as fórmulas da sexuação, além do Grafo do Desejo.
Este último ocupa um lugar importante em seu ensino por articular questões fundamentais da investigação psicanalítica, entre elas uma pergunta: Che vuoi? — “O que você quer de mim?” ou “O que o Outro quer de mim?”.
Para compreender a construção desse esquema, vale começar pelo próprio conceito de grafo.
Na matemática, um grafo é uma estrutura que representa relações entre pontos, conectados por linhas ou arestas. Uma das referências clássicas para compreender esse tipo de estrutura é o problema das Sete Pontes de Königsberg, cidade que pertenceu à Prússia e hoje se chama Kaliningrado, na Rússia.
O problema consistia em encontrar um percurso que permitisse atravessar as sete pontes da cidade sem passar duas vezes pela mesma ponte. A questão levou ao desenvolvimento de uma forma de representar matematicamente as conexões entre diferentes pontos.
É a partir dessa formalização podemos começar a compreender a proposta de Lacan. Como explica o professor Daniel Omar Perez, psicanalista e doutor em Filosofia, “o grafo do desejo não é outra coisa que uma tentativa de formalização da constituição do sujeito de desejo”.
A cadeia significante e a retroação
Para compreender o Grafo do Desejo, podemos começar por sua construção progressiva, que Lacan desenvolve em diferentes etapas, acrescentando novos elementos até chegar à sua forma mais complexa.
No “primeiro andar”, encontramos duas linhas que se cruzam e representam movimentos distintos, mas articulados: o avanço da cadeia significante e a retroação, pela qual se produz a significação.
A linha que representa a cadeia significante avança da esquerda para a direita, acompanhando a direção convencional da escrita ocidental. Nesse movimento, os significantes se encadeiam: um remete a outro, que, por sua vez, pode remeter a um terceiro. Trata-se de uma cadeia, portanto, e não de um significante isolado.
Essa articulação permite pensar o “deslizamento metonímico”, no qual um significante conduz a outro sem que o sentido esteja definitivamente fixado em cada elemento.
Quem explica esses “andares do Grafo” é a professora e psicanalista Renata Wirthmann, no percurso Psicanálise e Contemporaneidade, na plataforma do ESPEcast.
A segunda linha realiza o movimento de retroação. Embora a cadeia avance, a significação não se estabelece necessariamente de maneira linear ou imediata. É a partir dos significantes que vêm depois que podemos atribuir sentido aos que vieram antes. Um elemento posterior pode modificar a maneira como compreendemos aquilo que já foi dito.
Assim, o grafo permite distinguir o encadeamento dos significantes da produção de significação: enquanto a cadeia avança, o sentido se constitui também retroativamente. Os dois movimentos se articulam, mostrando que a significação depende das relações estabelecidas ao longo da cadeia.
O sujeito se constitui na linguagem
No Grafo, Lacan demonstra a constituição do sujeito a partir de sua relação com o campo da linguagem. O ponto de partida é um sujeito ainda não constituído, representado pelo que ele chamou de libra de carne. O que Wirthmann chama de intenção mítica.
Para se constituir como sujeito, o ser humano precisa ser marcado pelos significantes que vêm do Outro. A mãe — ou quem exerce essa função — pode ocupar um lugar fundamental nessa relação, mas não é a proprietária de todos os significantes. Por meio dela, a criança entra em contato com uma linguagem que a antecede e que ultrapassa a relação entre as duas.
Para o professor Daniel, a relação com o Outro não se limita a uma troca em que a criança expressa algo e recebe uma resposta correspondente.
A entrada nesse campo tem uma consequência importante: o sujeito se constitui como sujeito dividido, representado por $, onde a barra indica a falta. Indicando que há sempre uma diferença entre o sujeito e os nomes pelos quais ele é reconhecido.
A partir de sua relação com o Outro, ele se insere no campo da demanda e do desejo. Esses dois termos, porém, não são equivalentes: a demanda passa pela linguagem e se dirige ao Outro, enquanto o desejo não se reduz ao pedido formulado nem encontra satisfação plena em uma resposta.
Assim, o esquema articula a relação com o Outro, a formação do Eu, a inscrição dos significantes e a divisão subjetiva — elementos fundamentais para compreender os movimentos que Lacan desenvolverá nos andares seguintes do grafo.
Da necessidade à demanda e ao desejo
Para compreender o desejo em Lacan, é preciso distingui-lo da necessidade e da demanda. A necessidade está ligada a uma exigência biológica, como a fome. Quando passa pela linguagem e se dirige ao Outro, porém, ela se transforma em demanda, que não se limita à satisfação de uma necessidade: envolve também amor e reconhecimento.
O desejo surge na diferença entre aquilo que se pede e aquilo que pode ser satisfeito pela resposta do Outro. Ele se articula a uma falta estrutural que nenhuma resposta consegue eliminar por completo.
No Grafo do Desejo, o caminho da demanda conduz à pergunta Che vuoi? — “O que você quer de mim?” ou “O que o Outro quer de mim?”. Como explica o professor Daniel, essa pergunta pode assumir diferentes formas: o que meus pais querem de mim? O que Deus, a pátria, meu parceiro ou meu filho esperam de mim?
Diante desse enigma, o sujeito procura responder ao desejo do Outro e encontrar um lugar para si: pode tentar ser aquilo que imagina que o Outro espera dele, colocando-se, por exemplo, na posição de objeto de amor ou de sacrifício. Mas a resposta não encerra a questão. O desejo não se resolve simplesmente em corresponder ao ideal do Outro.
A pergunta Che vuoi? marca esse ponto em que o sujeito se confronta não apenas com aquilo que pede, mas também com o enigma do desejo do Outro.
O grafo se complexifica: fantasia e objeto a
No segundo andar do Grafo do Desejo, Lacan introduz a fantasia como elemento que permite aprofundar a relação do sujeito com o desejo.
O caminho do desejo implica sustentar a falta que marca a divisão subjetiva. Em vez de tentar eliminá-la por meio da resposta às expectativas do Outro, o sujeito se depara com a possibilidade de construir uma relação singular com essa falta.
A fantasia organiza a relação do sujeito com o desejo e oferece uma maneira de lidar com aquilo que não pode ser inteiramente simbolizado. É uma estrutura que participa da maneira como o sujeito se relaciona com o Outro e com o objeto causa de seu desejo.
Alguém pode, por exemplo, tentar corresponder ao ideal dos pais, escolhendo uma profissão ou um modo de vida que acredita ser esperado. Mas pode também se confrontar com essas expectativas e construir outra relação com o próprio desejo.
A fantasia e o objeto a permitem formalizar a relação entre o sujeito dividido e a causa de seu desejo.
Ler o grafo é interrogar o desejo
Ao acompanhar os primeiros movimentos do Grafo, podemos observar como Lacan articula a constituição do sujeito na linguagem, a relação com o Outro, a demanda, a fantasia e o desejo.
Como propõe Daniel, observar o grafo é também interrogar a própria posição diante desses elementos: como nos relacionamos com os significantes que nos constituem? Que lugar procuramos ocupar diante das expectativas do Outro? Como sustentamos nosso desejo para além daquilo que nos é demandado?
Essas perguntas mostram que o grafo permite investigar a constituição do sujeito e sua relação com o desejo. Compreender seus elementos é um primeiro passo para acompanhar a complexidade do ensino de Lacan e as questões que ele abre para a experiência analítica.
Referências
PEREZ, Daniel Omar. O grafo do desejo em 5 minutos (ou mais). YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=D3TzHYzZKHU. Acesso em: 14 out. 2026.
ESPECAST. O Grafo do Desejo para a psicanálise. 7 jun. 2024. Disponível em: https://www.especast.com.br/post/o-grafo-do-desejo-para-a-psicanalise. Acesso em: 14 out. 2026.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.




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