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O que é a neurose na psicanálise?

Atualizado: 11 de abr.


O que seriam as neuroses, basicamente as neuroses histéricas? O que seriam as angústias? O que é a neurose na psicanálise? Uma das preocupações fundamentais de Sigmund Freud, desde as origens da psicanálise e durante todo o seu percurso clínico/teórico, foi entender o que seria a neurose. De certa forma essa preocupação se repete, até nossos dias, em outros psicanalistas. Neste texto você encontra a transcrição dos pontos abordados no episódio #40 de nosso podcast, e você pode ver o vídeo ao final dessa matéria, no canal do ESPECast no YouTube ou ouvi-lo pelo Spotify. Vamos a ele!


 

Em episódios anteriores, disponíveis no canal do YouTube e no Spotify, foi mencionada e trabalhada o quanto foi representativa a relação que, nos primórdios da psicanálise e no início de sua carreira de médico, Sigmund Freud manteve com nomes como Charcot e Breuer. Analisou-se que Freud, após fazer sua faculdade de medicina em Viena, foi para Paris trabalhar com Charcot, um grande nome ao qual o dele deve ser associado, para começar a trabalhar questões como: “o que seriam as neuroses, basicamente as neuroses histéricas?”, “o que seriam as angústias?”


No seu retorno a Viena após sua residência com Charcot em Paris, Freud estabelece um vínculo bastante estreito com Joseph Breuer e assim ele avança em uma clínica das histerias, como também já mencionado em episódios anteriores.


Existe um outro nome bastante importante deste período de início da psicanálise que não pode ser esquecido que é o de Wilhelm Flieβ, um médico com o qual Freud estabelece uma relação de amizade e um vínculo muito importante entre 1887 e 1906. Flieβ era especialista em otorrinolaringologia e trabalhava em Berlim. Às vezes ia para Viena por causa de uma namorada que tinha lá. Freud, ao desfazer de certa forma sua amizade com Breuer, foi reforçando seus laços de amizade com ele, que acabou se tornando o amigo interlocutor que Freud tanto precisava para então ir elaborando sua etiologia da histeria, sua teoria dos sonhos, da sexualidade infantil, para elaborar suas ideias acerca da bissexualidade física e psíquica e para desenvolver, também, a sua primeira teoria da angústia.


Todos esses elementos, e outros mais, são elaborados no período dessa relação entre Freud e Flieβ, através de encontros presenciais, mas principalmente através de encontros à distância, propiciados pela correspondência e por alguns manuscritos endereçados a ele.


“É interessante notar como hoje nós dedicamos boa parte do nosso tempo às redes sociais e como, a partir dessas redes, estabelecemos vínculos com as pessoas. Os autores científicos, artistas, filósofos, escritores, que geralmente conhecemos em nossa tradição, dedicavam boa parte, antes das redes sociais, de seu tempo à correspondência. Tanto é assim que, aparentemente, segundo conta a lenda, o próprio Nietzsche procura um lugar perto do correio para mandar sua correspondência. É como se hoje dedicássemos um momento do nosso tempo a estar perto de um ponto de Internet ou de Wi-Fi.” – nos aponta Daniel neste episódio, ressaltando a importância das correspondências trocadas entre os teóricos e filósofos da época.


Dentro deste contexto, as cartas e os manuscritos de Freud- Flieβ são extremamente importantes para o entendimento do funcionamento da psicanálise em seus fundamentos.



MANUSCRITO A


O manuscrito A, dessa época, onde Freud coloca uma série de problemas clínicos, teses e observações acerca de fatores etiológicos.


“Freud, então, escreve para Flieβ num manuscrito, uma série de problemas” – nos aponta Daniel, apresentando as questões deste manuscrito.


  1. A angústia das neuroses de angústia se origina na inibição da função sexual ou da angústia vinculada à sua etiologia?

  2. Em que medida uma pessoa saudável reage aos traumas sexuais tardios de distinta maneira que uma pessoa com predisposição à masturbação? A diferença é apenas quantitativa ou também qualitativa?

  3. Pode o coitus reservatus simples (condom) {preservativo}, ter algum efeito danoso?

  4. Existe uma neurastenia inata, com fragilidade sexual inata, ou ela é adquirida sempre na idade prematura (babás, masturbação por outra pessoa?)

  5. Pode ser a hereditariedade algo a mais que um fator multiplicador?

  6. O que é que participa da etiologia da distimia periódica?

  7. Será a anestesia sexual nas mulheres outra coisa que não um resultado da impotência do homem? Poderá ela causar, por si mesma, uma neurose?

Essas eram as perguntas que Freud se fazia enquanto atendia seus pacientes. Ele entendia então que os sintomas histéricos estavam associados a traumas infantis, mas que era possível, de algum modo, que esses sintomas surgissem de um mecanismo de funcionamento da própria sexualidade do paciente.O manuscrito A, dessa época, onde Freud coloca uma série de problemas clínicos, teses e observações acerca de fatores etiológicos.


As teses decorrentes dessas perguntas foram as seguintes:


  1. Não existe nenhuma neurastenia ou neurose análoga sem transtorno da função sexual.

  2. Isto poderia originar um efeito causal, direto, ou predispor à ação de outros fatores, mas sempre de maneira tal que sem sua intervenção os outros fatores não poderiam provocar a neurastenia.

  3. A neurastenia nos homens, dada sua etiologia, é acompanhada sempre de uma impotência relativa.

  4. A neurastenia nas mulheres é uma consequência direta da neurastenia nos homens, por meio da redução da potência deles.

  5. A distimia periódica é uma forma da neurose de angústia que, fora desta, manifesta-se em fobias e ataques de angústia.

  6. A neurose de angústia é, em parte, uma consequência da inibição da função sexual.

  7. O simples excesso e o esgotamento por trabalho não constituem fatores etiológicos.

  8. A histeria, nas neuroses neurastênicas, traduz a repressão dos afetos concomitantes.


Isso mostra como Freud vai se questionando e respondendo aos seus questionamentos no que se refere aos sintomas histéricos, a partir do funcionamento da vida sexual do paciente. Ele entende que os fenômenos histéricos estão diretamente vinculados à vida sexual do paciente. Ele chega a essas conclusões através da observação empírica.


O manuscrito continua com uma série de observações clínicas a serem realizadas:


  1. Homens e Mulheres traumatizados que permanecem saudáveis.

  2. Mulheres estéreis em que há ausência de traumas pela prevenção da gravidez no casamento.

  3. Mulheres infectadas por gonorreia.

  4. Homens de vida promíscua que têm gonorreia e que, por esse motivo, estão protegidos em todos os sentidos, tendo conhecimento de sua hipospermia.

  5. Membros que permaneceram sadios em famílias gravemente afetadas.

  6. Observações de países em que são endêmicas certas anormalidades sexuais específicas.

Essas são as observações que Freud se propõe a fazer, neste manuscrito, para ser se suas teses se sustentam ou não.



MANUSCRITO B


Este é outro manuscrito escrito à Flieβ. Nele, Freud diz o seguinte, como citado por Daniel no episódio.


“A neurose de angústia se manifesta de duas formas, como estado crônico e como ataque de angústia. Ambos podem se combinar facilmente e o acesso ansioso não aparece sem sintomas concomitantes. Os paroxismos se apresentam preferentemente nas formas combinadas com a histeria, ou seja, que predominam no sexo feminino, enquanto que os sintomas crônicos ocorrem com preferência em homens neurastênicos. Tais sintomas crônicos são os seguintes: (1) ansiedade relacionada com o corpo (hipocondria); (2) ansiedade relativa às suas funções corporais (agorafobia, claustrofobia, vertigem nas alturas); (3) ansiedade relativa às suas decisões e à memória, quer dizer, relacionadas com as representações que têm das suas próprias funções psíquicas (a loucura da dúvida, a cavilação obsessiva, etc)”

MANUSCRITO E

Nestes manuscritos de Freud, nestes textos que foram deixados na gaveta, esta é uma preocupação sobre a qual podemos nos debruçar: qual é a teoria freudiana da angústia naquela época? Vejamos o que nos diz o Manuscrito E, intitulado “Como se origina a angústia.”


Freud entende, nesta época, que a angústia teria origem em algum fator físico da vida sexual e lista uma série de tipos:


a) a angústia em pessoas virgens; em pessoas com abstinência deliberada; em abstinentes obrigados.

b) angústia em mulheres submetidas ao coito interrompido;

c) angústia em homens que excedem, à medida do seu desejo, de suas forças, obrigando-se a realizar o coito;

d) angústia em homens ocasionalmente abstinentes.


O elemento que Freud nota é: há acumulação física de excitação, ou seja, há uma acumulação física de tensão sexual. Essa acumulação é devida ao impedimento de descarga, de modo que, a neurose de angústia viria a ser, como a histeria, uma neurose por estancamento e isso explica sua semelhança.


Então, neste momento, a neurose de angústia e a histeria para Freud seriam causadas por um estancamento da própria energia do corpo. Freud vai dizer, no Manuscrito E, que dado que no acúmulo não se encontra angústia alguma, a condição real pode se expressar melhor dizendo que a angústia surgiu pela transformação da tensão acumulada.


Daniel nos aponta que neste Manuscrito E há uma distinção interessante que devemos levar em consideração: a acumulação da tensão sexual física produz neurose de angústia e a acumulação da tensão sexual psíquica produz a melancolia. Vamos considerar a melancolia em um outro momento, desde que ela vai estar associada a outros elementos, em psicanálise.


Precisamos destacar aqui que na angústia, Freud aponta para a impossibilidade de elaboração psíquica do acúmulo de excitação corporal. A angústia seria então a sensação, o afeto correspondente a esse acúmulo de um estímulo endógeno: a respiração. Freud observa que os sintomas da angústia aparecem como: dispneia, aumento momentâneo dos batimentos cardíacos, ansiedade e a concomitância de todos eles, sublinhando também que são sintomas concomitantes com o coito. A neurose de angústia seria, então, uma espécie de conversão. Na histeria, porém, haveria uma excitação psíquica, enquanto que na angústia, essa excitação seria física.


Boa parte deste texto foi retomada por Freud no texto de 1984 “Sobre a Justificação para Separar Neurastenia de um Determinado Complexo de Sintomas Nomeados como Neurose de Angústia.” Isso mostra que estes manuscritos, essas cartas redigidas a Flieβ nos dão os elementos que ele iria utilizar depois em suas publicações. Por isso é muito importante ler estes textos, estas correspondências.


Mais tarde, Freud avançou dos casos de histeria para os casos de neurose obsessiva, como no Homem dos Ratos e no Homem dos Lobos, dois casos emblemáticos da literatura psicanalítica freudiana. Porém, a base estaria estabelecida, e Daniel nos ensina que essa base seria: Um mecanismo inconsciente do psiquismo humano reprimiria um desejo e, em seu lugar, produziria um sintoma. O estabelecimento deste sintoma é o que gera dor, sofrimento e mal-estar no sujeito.


 


CONCLUSÃO Para encerrar este episódio, Daniel cita o seguinte trecho do texto “Cinco Lições de Psicanálise”, de 1910, transcrito abaixo como lido no episódio:


“Se agora, senhores, reunirem todos os meios que possuímos para o desvelamento do que se acha oculto, esquecido, reprimido na psiquê - o estudo dos pensamentos do paciente, evocados pela associação livre, dos seus sonhos, dos seus atos falhos e sintomáticos – e juntarem a isso a utilização de outros fenômenos que ocorrem durante o tratamento psicanalítico, sobre os quais farei, depois, algumas observações, ao abordar a transferência, chegarão comigo à conclusão de que nossa técnica já tem eficácia bastante para realizar sua tarefa: para levar à consciência o material psíquico patogênico e assim eliminar o sofrimento ocasionado pela formação de sintomas substitutivos.”


Freud então, nos ressalta Daniel, avança em 1910, com uma ideia que já estava posta no fim dos anos 1890: o sintoma histérico, o sintoma da neurose histérica ou da neurose obsessiva, se origina em um trauma que, de algum modo, é veiculado por um mecanismo de repressão psíquica na vida sexual do sujeito que faz, outrora, com que esse sintoma apareça.


O tratamento dessa situação consistiria, pelo menos nessa época, em tornar consciente o inconsciente, ou seja, fazer aparecer aquilo que estava esquecido, reprimido, guardado na memória e que aparece, de certo modo, como sintoma.


“A emergência do inconsciente no consciente dissolve, aparentemente, o sintoma e o tratamento psicanalítico tem sua eficácia neste ponto.” – conclui Daniel Omar Perez.



Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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