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O que é um sintoma para a psicanálise?

Atualizado: 19 de mar.


A pergunta deste episódio é: O que é um sintoma para a psicanálise? O que é entendido por sintoma na obra de Freud?



No episódio #89 do ESPECast, o professor Daniel Omar Perez nos leva a um percurso que vai tratar deste importante conceito da psicanálise, passando desde as suas origens, até o que é entendido por sintoma na obra de Freud e, posteriormente, de Lacan. Neste texto você encontra a transcrição dos pontos abordados, e você pode ver o vídeo ao final dessa matéria, no canal do ESPECast no YouTube ou ouvi-lo pelo Spotify. Vamos a ele!



 

Hoje a questão que nós vamos tratar é a do sintoma em psicanálise.


A palavra sintoma é uma palavra de origem grega. Para se entender mais rapidamente a ideia de sintoma, podemos indicá-lo como sendo um “signo de”. O sintoma seria algo que se manifesta no lugar de alguma outra coisa.


Existe uma história do sintoma desde a Grécia até o desenvolvimento da medicina como ciência europeia moderna nos séculos XVIII e XIX. Há uma ideia, neste período, de um sintoma clínico, com o qual a medicina vai trabalhar. Para verificar essa ideia, é interessante que nos aproximemos de vários textos que tratam da história da medicina em si, mas também de um texto escrito pelo filósofo francês Michel Foucault que se chama O Nascimento da Clínica, onde ele vai abordar a ideia de sintoma no início dessa medicina como ciência moderna.



O SINTOMA EM PSICANÁLISE


No caso específico da psicanálise, o sintoma é nomeado em vários momentos da obra de Freud. Em um primeiro momento ele entende que o sintoma histérico deve ser dissolvido, eliminado. Em outros momentos ele diz que deve ser tratado. E há ainda outros momentos onde afirma que o sujeito, ou seja, o paciente, deve ser tratado para poder lidar com o sintoma.  

NA LITERATURA PSICANALÍTICA


“Existem vários livros que fazem esse percurso do que seria o sintoma, do que seria a cura e do que seria o método da cura em relação a um sintoma em psicanálise.” – nos aponta Daniel no episódio.


Os sintomas histéricos aparecem nos casos do Hospital Salpetrière, onde Freud trabalha com Charcot no século XIX. Aparecem também nos casos que ele trabalhou com Joseph Breuer entre 1880 e 1895, data em que publicou os Estudos sobre a Histeria. Aparece a ideia de sintoma nas cartas de Freud a Flieβ, que é um médico com quem Freud estabelece uma relação e um debate após Breuer, com quem ele interroga acerca então do que seria propriamente um sintoma.


Já na maturidade freudiana, há um texto de 1915, que faz parte dos denominados escritos metapsicológicos, chamado "A Pulsão e suas Vicissitudes" ou "O Instinto e seus destinos", ou até mesmo "A Pulsão e seus Destinos", dependendo muito da tradução que tenhamos em mãos em português do título original <Triebe und Triebschicksale.> Nele Freud mostra que o processo de repressão da pulsão sexual – a pulsão sendo uma carga afetiva vinculada a um representante dessa mesma carga que, de algum modo, procura, como meta, se descarregar, encontrando ou não objeto para realizá-lo – é um dos destinos da pulsão e criaria o sintoma. O sintoma seria, portanto, em psicanálise, uma formação substitutiva dessa pulsão sexual.


Explica professor Daniel dizendo:


“Quando não encontra esse objeto no qual descarregar, aí a pulsão tem diferentes destinos. Quer dizer, o destino da pulsão nem sempre é descarregar naquele objeto para o qual essa energia é direcionada, segundo o representante da pulsão. Então, a pulsão sexual, de algum modo, encontra no caminho de sua realização, de sua satisfação, um obstáculo e, de alguma forma, um desses destinos é o sintoma.”.


Assim, então poderíamos definir, em poucas palavras, o sintoma: uma formação substitutiva que aparece por ocasião da repressão de um impulso sexual. Se reprime esse impulso e aparece em seu lugar a carga dessa energia, que deveria por si ser descarregar em algum objeto, mas não é, e ela aparece sustentando um sintoma. Assim podemos ter sintomas psíquicos, conversões histéricas, somatizações, sintomas psicossomáticos.


Quanto a esses últimos, nos alerta Daniel que existe toda uma discussão acerca se existem ou não esses sintomas que podem ser classificados como psicossomáticos, qual seria o estatuto desses sintomas, como poderíamos identificar um sintoma.


Daniel nos coloca em pauta, então, a questão da relação causal. Como é que uma determinada repressão da ordem do Supereu, ou da ordem social, cultural, familiar, causa um determinado sintoma.


“Como é que uma repressão sexual pode causar uma dor de cabeça?” – nos pergunta ele no episódio, apresentando então a noção de causa.



A NOÇÃO DE CAUSA


Neste ponto podemos começar a dividir os sintomas entre sintomas que podem ser definidos clinicamente:


a) a partir da observação – no caso da medicina – aonde a partir das manifestações somáticas do paciente podem ser definidos algum tipo de diagnóstico ou de tratamento


b) como sintomas que se manifestam e se apresentam como causa de um elemento orgânico, que pode ser identificado como um marcador biológico.


“Hoje nós podemos dizer que a palavra doença, com todo o peso semântico que essa palavra tem, poderíamos dizer que é destinada a situações nas quais nós temos um marcador biológico. Temos uma doença quando temos um marcador biológico que de algum modo determina que um certo padrão de normalidade foi alterado.” – cita Daniel dando o exemplo da diabete.


Ou seja, um certo padrão de normalidade é alterado e aí dizemos que o sujeito está doente. A partir disso temos toda uma farmacologia, um tratamento, uma dietética para poder tratar a causa desse sintoma e fazê-lo desaparecer.


Temos então doenças quando temos estes marcadores biológicos. No âmbito da psique, o DSM-5 substitui a palavra doença por distúrbio, que implica em uma certa desordem. Em português foi traduzida por transtorno. O DSM-5 então entende que existem determinadas desordens psíquicas, psicológicas e mentais que fogem de um certo padrão.


Em psicanálise nós não lidamos com padrão. A psicanálise não oferece um padrão de normalidade, nem assume um padrão de normalidade. Sendo assim o sintoma deve ser lido e interpretado de uma outra forma, ou seja, a partir do que o paciente relata como sendo seu mal-estar, sua dor, sua desconformidade, enfim, como sendo seu sintoma.



INIBIÇÃO, SINTOMA E ANGÚSTIA


Mais adiante, Freud vai escrever um texto chamado Inibição, Sintoma e Angústia em 1926 onde ele vai definir a inibição como uma questão motora, a angústia como uma relação com a castração e sintoma como uma formação substitutiva diferente.


A angústia pode vir a ser um sintoma, mas aqui, neste período, ela já vai ocupar um lugar diferente.


“Estes são os primeiros elementos que nós temos, em psicanálise, para poder trabalhar a ideia de sintoma.” – nos orienta Daniel. Isso porque Jacques Lacan vai avançar em outro sentido na questão, em um outro tipo de clínica.



COM JACQUES LACAN


Em seu primeiro ensino, Lacan vai entender que o sintoma pode ser interpretado e de algum modo dissolvido quando encontra o seu sentido. Uma ideia que converge muito bem com o que seria o sintoma freudiano. Muitos dos pacientes de Freud se reconheciam como curados quando encontravam, de algum modo, o sentido, a causa de seus sintomas e assim ele se dissolveria.


Mais adiante em seu ensino, nas décadas de 60 e 70, encontramos em Lacan outras formas para o sintoma. Já encontramos ali, por exemplo, que o sintoma não é totalmente analisável, que ele não faz sentido, que há um resto dele que não se dissolve, que não se sublima e com o qual nada pode ser feito. Surgiu então uma outra clínica de psicanálise, nos anos 70, com Jacques Lacan.



A CLÍNICA DOS NÓS


Essa clínica seria sustentada através da topologia e da teoria dos enodamentos. Aí o sintoma apareceria como algo já não apenas referido à formação substitutiva de uma representação sexual, mas como sendo um elemento articulador, responsável por fazer laço entre o que é da ordem do Real, do Simbólico e do Imaginário que produz.


“algo assim como a posição de um sujeito diante do prazer do desprazer, do bem-estar e do mal-estar, do gozo e do desejo.” – nos aponta Daniel.



SEMINÁRIO 23 - O SINTHOMA


Nos centremos no que podemos observar, por exemplo, no seminário 23 de Lacan, intitulado justamente do O Sinthoma. Neste seminário Lacan nos diz que é preciso se identificar com esse elemento do sintoma e de alguma forma produzir um saber-fazer com ele.


Já não se trata mais então da noção de sintoma vista na origem da psicanálise, mas de um outro tipo de noção sintomática. Da mesma forma como que na medicina a concepção de sintoma vai mudando, também em psicanálise isso ocorre.



CONCLUSÃO Em várias ciências humanas e sociais a palavra sintoma é utilizada - sintoma social, sintoma de uma época por exemplo – e é evidente que em cada área do saber a sua significação vai adquirindo um peso diferenciado e uma noção mais específica. Assim, mesmo quando utilizamos a mesma palavra – sintoma – não estamos nos referindo à mesma categoria “sintoma”. Isso não acontece na história da medicina, não acontece na história da psicanálise, não acontece na história das ciências humanas e sociais e é claro que essa questão continua até os dias de hoje pois há vários trabalhos, em várias línguas dentro da psicanálise, investigando essa questão.


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Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação: Gustavo Espeschit: Psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


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