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QUANDO TERMINA UM TRATAMENTO PSICANALÍTICO?


Quando termina um tratamento psicanalítico? Tem mais de um tratamento psicanalítico? No episódio #65 de nosso podcast, o professor Daniel Omar Perez vai nos guiar na resposta para estas perguntas, perpassando as obras de Freud e de Lacan. O episódio está disponível nas plataformas YouTube e Spotify, no canal do ESPECast e também ao final dessa matéria.


 

Quando termina, ao final das contas, um tratamento psicanalítico? Tem mais de um tratamento psicanalítico? Para tentar responder a essas questões e estabelecer até onde podia ir uma análise, ou estabelecer se ela seria bem sucedida ou não, se tinha fim ou não, se estava completa – ou quando estaria completa -, ou não, em 1937 Freud escreve o texto Análise Terminável e Interminável. Neste texto, a discussão do problema nos leva a um outro questionamento: existe um fim natural para uma análise? É possível conduzir uma análise até esse fim?


Em nossa matéria sobre o episódio #64 (Quanto tempo dura um tratamento psicanalítico), foi estabelecida a distinção entre um efeito catártico e um efeito analítico, que seria, pensando lacanianamente, a promoção de uma mudança de posição subjetiva. Seja como for, Freud diz que uma análise termina quando analista e paciente não mais se encontram para a sessão de trabalho analítico e isso se sucede quando se tem satisfeitas pelo menos duas condições: a) que o paciente não sofra mais de seus sintomas e tenha superadas suas angústias e inibições e b) que o analista determine que tanto material inconsciente, foi tornado consciente.


“Então” – nos diz Daniel no episódio – “há um tipo de análise que podemos dar por terminada na medida em que o sofrimento do paciente em relação com o sintoma diminui, assim como suas angústias e inibições.”.


Inibição, sintoma e angústia. Título de outro texto fundamental de Freud para se entender o que seria um percurso de análise e quando é que este viria a terminar.


Enfatizando a palavra elaborar, o professor Daniel nos remete a outro texto fundamental de Freud: Recordar, Repetir e Elaborar. O professor argumenta que uma psicanálise ou um trecho de psicanálise termina quando o faz com uma certa elaboração. Elaboração de quê? “Elaboração de uma situação psíquica a partir da qual temos diferentes definições, tanto em Freud quanto em Lacan, do que poderia ser uma cura psicanalítica.” Vamos aos pontos apresentados:



A) TORNAR CONSCIENTE O INCONSCIENTE


Freud coloca que o processo psicanalítico deve permitir que o paciente torne consciente o inconsciente, ou seja, que faça com que aqueles elementos inconscientes que o colocam em uma posição de repetição, que como consequência lhe causa mal-estar, se tornem conscientes. Isso faria ele sair da posição de sofrimento, sendo assim uma forma de cura e traria um aspecto de elaboração, segundo o professor Daniel.



B) RECONHECIMENTO DO DESEJO


Reconhecer o próprio desejo, que de algum modo pode estar recalcado, reprimido. Não recuar diante do desejo, como coloca Lacan no Seminário 7 sobre a ética da Psicanálise.


Explica o professor Daniel: “Há uma espécie de imperativo ético na psicanálise que não é nem o imperativo kantiano nem o imperativo sadiano, o que implica então nesse reconhecimento do desejo enquanto tal, numa ideia de uma ética do desejo.”.


O processo analítico então seria concluído quando o sujeito conseguisse elaborar uma ética do desejo, uma ética do encontro com o Real, conseguisse se deparar com o Real como tal e articular simbólica e imaginariamente os elementos que o permitem dar conta dele. Por Real aqui deve se entender àquilo que é da ordem do incontável, do imprevisto, do incalculável, do corpo, da corporeidade enquanto tal, da sexualidade, da morte enquanto tal.


“Fazer uma ética do encontro com o Real, elaborar uma ética do encontro com o Real seria poder articular simbólica e imaginariamente elementos que nos permitam suportar a contingência.” – nos coloca o professor Daniel.


Outras definições para o fim de análise como “reforçar o Eu” e fazer cair as defesas são pontos de partida do que vai aparecer na psicanálise inglesa, onde, a partir de Anna Freud e um conjunto de outros psicanalistas, vai surgir um pensamento de que a doença psíquica estaria como que ligada a um Eu fraco, fragilizado e com muitas defesas e o objetivo da psicanálise seria promover um fortalecimento desse Eu e analisar essas defesas.


Freud coloca no texto “Análise Terminável e Interminável” que a diminuição do sofrimento e o processo de tornar consciente o inconsciente são as condições para que uma análise possa ser dada como terminada. Sem isso ela está incompleta, inacabada.

C) POSIÇÃO SUBJETIVA

Falar em mudança de posição subjetiva é uma linguagem mais lacaniana. Em análise é necessário promover uma mudança de posição subjetiva, uma mudança da posição na qual o sujeito vai se deparar com o gozo, com o Real do gozo, com o Real do Sintoma.


Ponto importante: no seminário 5 Lacan entendia que o sintoma era analisável. Já no seminário 23 ele vai postular que há uma parte do sintoma que é inanalisável. Entre esse percurso aparecem outros elementos e Lacan vai dizer que uma psicanálise se constitui na travessia do fantasma, da fantasia. Fazer psicanálise seria atravessar nossos processos de identificação e de idealização. Fazer psicanálise seria fazer cair essas identificações e idealizações atravessando o fantasma, por fantasma aqui se entendendo a relação entre elementos simbólicos e imaginários que, de algum modo, nos fazem perceber e entender a realidade como a percebemos e entendemos.


Em outras palavras: percebemos e entendemos a realidade a partir de uma articulação de elementos simbólicos e imaginários que se sustentam por ideais e por processos de identificação. A análise seria o atravessamento deste processo, que promoveria o encontro com o Real, com o contingente.

D) RECONHECIMENTO DA CASTRAÇÃO


Reconhecer a castração era um elemento importante para Freud. Uma psicanálise não era outra coisa senão o reconhecimento da castração. Lacan postula que também é importante reconhecer a castração do grande Outro, não sendo suficiente reconhecer a castração somente em nós mesmos, não sendo suficiente nos reconhecermos como sujeitos castrados, sujeitos falantes, sujeitos da falta.


Precisamos então reconhecer que somos sujeitos da falta, ou seja, sujeitos que não vão se completar com um objeto que nos preencha plenamente. É preciso, para Lacan, compreendermos que a própria constituição do sujeito apresenta sempre essa falha, essa fenda, essa abertura, que é o que faz produzir as diferentes atividades do sujeito. Nesse sentido a falta não é necessariamente entendida como carência, ela pode ser entendida como possibilidade de produção.


Portanto, um percurso analítico terminaria quando o sujeito reconhece a castração, não somente nele, mas também no grande Outro. Mas vejamos: um neurótico geralmente sabe que é alguém limitado, que não vai conseguir tudo que gostaria, mas ele assume que tem alguém que consegue, que tem um grande Outro que consegue e se ele consegue, ele é não castrado. Lacan então nos propõe pensar este esquema, essa ideia de que eu sou castrado, mas tem um grande Outro que não é e este goza plenamente.


“Talvez a análise avançaria não só no reconhecimento da castração, mas no reconhecimento da castração do Outro.” – nos diz o professor Daniel.



E) A ANGÚSTIA PARA ALÉM DA CASTRAÇÃO Daniel nos aponta no episódio que também podemos pensar uma psicanálise a partir do seminário 10 de Lacan, onde ele nos diz que a angústia não é sem objeto e que deve ser pensada para além da castração. Freud nos ensinava que a angústia era angústia de castração. Lacan vai postular que angústia é angústia para além da castração.


E o que há para além da castração? O objeto a, o objeto causa de desejo. A angústia então seria uma situação afetiva na qual o sujeito se colocaria diante do objeto a causa de desejo. Ela seria um sinal de um objeto de desejo.

F) RECONHECER O PRÓPRIO PERCURSO ANALÍTICO Um dos dispositivos que Lacan cria em sua escola é o dispositivo do passe. Nele um praticante de psicanálise dá conta do seu próprio percurso. Reconhecer o seu próprio percurso de análise seria um indicativo, para Lacan, de uma análise bem sucedida.

G) IDENTIFICAR COM O SINTOMA Há uma outra possibilidade levantada por Lacan já no final do seu ensino que nos propõe pensar que uma análise termina quando o analisando se identifica com seu sintoma. Neste ponto aparecem complicações como a psicanálise não ser a dissolução do sintoma, como propunha Freud, mas a identificação com ele. Essa identificação implicaria em suportar aquilo que de Real ele tem, que de certa forma não pode ser sublimado, que não pode ser dissolvido e que, de algum modo, é preciso suportar.


Daniel não faz menção no vídeo ao caso Katharina. “Esses cinco casos estão bem detalhados nos Estudos sobre a Histeria, de 1895, e mostram tanto o tipo de dor, de sofrimento, de mal-estar que cada uma dessas pacientes traz para a consulta com o médico, quanto também nos mostram os procedimentos técnicos do nascimento da psicanálise e também os procedimentos técnicos da prática psicanalítica durante todo o século XX.” – conta Daniel.



H) UM SABER FAZER COM O SINTOMA

Uma outra postulação de Lacan é a de um saber fazer com o sintoma. Uma seja, uma análise terminaria quando o sujeito se identificasse com o sintoma de tal forma que aquilo que seria da ordem do sintoma passasse a não funcionar como elemento de sofrimento e sim de produção. Isso implicaria em uma outra ética, que Lacan chegaria a chamar de uma ética do bem-dizer.


Todos esses fatores promoveriam o que, em alguns momentos de Lacan, podemos encontrar como uma desidentificação, uma desubjetivação, ou seja, todo o processo analítico em um percurso se definiria pela queda dos ideais e das identificações e passaria por uma desubjetivação e pelo reposicionamento do sujeito diante o Real do sintoma.


 


CONCLUSÃO Talvez essas sejam as formas de entender o final de um tratamento psicanalítico, ou de mais de um tratamento psicanalítico. Freud recomendava aos praticantes de psicanálise que retomassem a análise pelo menos a cada cinco anos.


“Se alguém entende que a psicanálise é um processo de uma cura final e absoluta, eu acho que está movido por um ideal, e nesse caso coincidiria com Freud.”


Nos diz Daniel acrescentando que a análise foi incompleta, justamente porque há um ideal que coloca o sujeito em uma posição onde ele vai continuar sofrendo.


“Não é que uma psicanálise termine com todos os sofrimentos mundanos, mas pelo menos vai nos ajudar a diminuir alguns, a poder elaborar outros e a nos identificar com aquilo que, no Real, é preciso que seja suportado.” – Daniel Omar Perez.



Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


quando-termina-um-tratamento-psicanalticoAutor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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