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QUANTO TEMPO DURA UM TRATAMENTO PSICANALÍTICO?

Atualizado: 24 de fev.


A pergunta deste episódio é: quanto demora um tratamento psicanalítico? Uma pergunta que aparece reiteradamente nas redes sociais, nas discussões e conversas.



Há uma espécie de vulgata que acha que a psicanálise é mais demorada do que outros tipos de tratamentos. Há trabalhos clínicos, tratamentos terapêuticos, que propõem uma terapia rápida, breve, com eficácia e resultados mais imediatos. Afinal, quanto tempo demora um tratamento psicanalítico? Vamos descobrir com o professor Daniel Omar Perez no episódio #64 do ESPECast.


 

A pergunta não é fácil de responder, como não seria também fácil de responder se fosse feita com relação a qualquer outro tratamento, seja médico, seja da respiração, seja um tratamento muscular. A resposta seria depende. Depende da situação. Depende do caso. Um tratamento psicanalítico está pautado por uma série de questões que têm a ver com o problema, com a contingência.


Um tratamento psicanalítico na época de Freud era caracterizado por sessões de 50 a 55 minutos diários, de segunda a sexta, e podia durar de seis meses a dois anos e meio, dependendo da situação abordada. Alguns psicanalistas hoje continuam trabalhando com sessões diárias, outros com três sessões por semana, ou duas, ou até somente uma, tudo dependendo do caso, da situação. A demora do tratamento psicanalítico depende da questão que é levada pelo analisante.


EFEITO TERAPÊUTICO E EFEITO DE ANÁLISE



“Acho que há uma questão que me parece fundamental:” – nos diz Daniel no episódio – “observar o que é, em um tratamento psicanalítico, um efeito terapêutico e o que é um processo de análise.”


O que quer dizer isso?


Muitas vezes nós vamos para o analista porque nos sentimos mal, porque estamos com um mal-estar, em uma situação desconfortável, seja emocionalmente, afetivamente, sentimentalmente. Outras vezes vamos para o analista por questões de dores no próprio corpo que não encontram causa na clínica médica. É provável então que, nas primeiras sessões, nos primeiros encontros com esse alguém que sustenta o lugar de analista, já possamos experimentar um certo alívio para esse mal-estar, para esse sofrimento, para essa dor. Isso é o chamado efeito terapêutico.


Explicando: se há uma intensidade de um mal-estar, de uma dor, de um sofrimento que com quatro ou cinco sessões diminui e nos sentimos melhor, isso se dá por causa de um efeito catártico e há terapias breves que têm como objetivo produzir esse efeito terapêutico de catarse, esse alívio, essa descarga, que é fruto do encontro, do reconhecimento e da relação com o outro. A catarse é algo que se pode produzir como um desabafo, uma forma de alívio que se dá quando se conta a outro algo que diz respeito a uma culpa, a um sofrimento muito íntimo, a algo que nem sabíamos que queríamos contar e acabamos contando a esse alguém. Em tratamento psicanalítico pode-se produzir esse efeito terapêutico como resultado de um processo catártico.


Isso poderia ser o início do que poderíamos chamar também de psicanálise, ou, em alguns modos de se fazer psicanálise, de entrevistas preliminares.


“Esse efeito pode ser produzido com um analista, mas também com um terapeuta de qualquer linha, em um encontro com um pastor, com um padre, com um rabino, com uma mãe de santo, com um conselheiro, ou seja, com qualquer um que propicie este escoamento.” no diz Daniel.


Para a psicanálise isso não é propriamente uma análise. Apesar de descomprimir uma certa intensidade, ele não produz propriamente uma análise. Uma análise em si não busca apenas um alívio com relação a um sintoma, mas também uma mudança de posição subjetiva que faça com que o sujeito não se recoloque, por outros meios, em um mesmo lugar, de outra forma, fazendo com que ele volte a sofrer por ser reiterativo e insistente. Em suma, um tratamento psicanalítico não é apenas o alívio, mas a mudança de posição do sujeito que produz um outro sujeito, como chega a dizer Lacan em seu último ensino.  

ENTÃO, AO FINAL, QUANTO TEMPO DEMORA UM TRATAMENTO PSICANALÍTICO?

“Pode demorar seis meses, dois anos, dois anos e meio, dependendo do tipo de trabalho que se faça.”, nos responde Daniel mencionando que há tratamentos que são feitos uma vez por semana e demoram anos, por exemplo. “Tem gente que faz análise durante 20 anos ou mais, mas a ideia é que, de alguma forma, esse tratamento chegue ao seu fim”


Daniel cita um texto de Freud de 1913, “Sobre o Início do Tratamento”, onde alguns elementos que elucidariam qual seria a duração de uma análise podem ser encontrados. Referencia também o texto, já do último período de Freud, “Análise Terminável e Interminável”, de 1937, onde então, anos mais tarde, outros elementos que poderiam dar alguma ideia do que seria um tratamento psicanalítico são encontrados.


O professor nos ressalta também que existem psicanálises com crianças que são levadas adiante desde a época de Anna Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto e que são psicanálises que possuem uma outra dinâmica, com outros desfechos. Em Lacan muda-se o tipo de sessão, o tipo de intervenção, muda a clínica. O próprio Freud, em diferentes momentos, vai mudando o método e vai mudando, no percurso, o que ele entende por cura psicanalítica e tudo isso vai então se refletir na duração de um tratamento.


Daniel referencia então no episódio o texto de Lacan publicado nos Escritos “Variantes de um tratamento padrão”, salientando que o que é interessante é que não há um tratamento padrão, somente as variantes, o que mostra a singularidade do caso. Menciona também o texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, também de Lacan, que é sobre o que se sucede na duração, na demora de um tratamento analítico. Nele, Lacan propõe que o tempo de duração de uma sessão de análise não seja o tempo pautado pelo relógio, porque o movimento do relógio, de algum modo seria pautado por uma relação com a Terra e com a velocidade que ela gira sobre seu próprio eixo e isso seria, de algum modo arbitrário em relação com a duração de uma sessão.


Podemos nos perguntar o que tem a ver a velocidade da Terra girando sobre seu próprio eixo com a temporalidade que se experimenta em uma sessão psicanalítica? Lacan então tenta pensar a temporalidade do tempo da sessão e do tempo da própria análise. Então, podem haver sessões que possam durar 50 minutos e podem haver sessões que podem ser muito mais breves, assim como também sessões que podem ser mais compridas. Tudo isso vai depender do lugar de corte.


“Uma sessão tem um movimento que lhe é próprio, pelo menos na lógica do significante, a partir da qual, digamos, é possível chegar a um corte e a partir daí determinar o tempo de uma sessão e também a duração da própria análise.” – nos explica o professor Daniel.


Quanto tempo demora um tratamento psicanalítico, então? Vai demorar, dependendo do caso. Se o que se busca são efeitos terapêuticos, é muito provável que isso seja conseguido nas chamadas entrevistas preliminares. Mas, adverte o professor, isso não é o próprio tratamento psicanalítico, já que este consiste em poder, de algum modo, descobrir uma outra posição, ou seja, encontrar, inventar uma outra posição para o sujeito que permita fazer com que ele saia da repetição que o coloca na situação de mal-estar. Assim sendo, podem haver análises muito extensas, que duram anos e podem haver também trechos de análises, feitos com o mesmo analista ou com diferentes analistas, dependendo de qual é a própria temporalidade daquilo que se leva para a análise e que se tenta elaborar.



CONCLUSÃO A demora de um tratamento psicanalítico depende da capacidade que o sujeito tem de poder elaborar as questões que o dizem respeito e que o colocam em uma posição de repetição a partir da qual ele sofre, ele se sente mal, ele experimenta uma dor que chega a ser difícil de sustentar. A questão da análise não passa apenas pela questão do alívio do sintoma, mas pela questão da possibilidade de elaboração em relação a esse próprio sintoma, e isso depende do caso a caso.


Quer saber mais? Acesse a plataforma do ESPECast e acompanhe os resultados das pesquisas de outros psicanalistas e de outros praticantes e teóricos da psicanálise.

Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação: Gustavo Espeschit: Psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


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