Viena, Freud e a Psicanálise
- ESPEcast
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Não é possível hoje se aproximar da psicanálise sem, de algum modo, passar por Viena. Frequentemente retratada como cidade-cenário, ela pode ser lida, no entanto, como condição de possibilidade da circulação de ideias e das articulações que Sigmund Freud sustenta ao longo de sua vida.
Vale dizer que, durante 47 anos, Freud manteve sua residência e consultório no mesmo endereço, na Berggasse, 19. Transformado em museu, hoje se mantém como um ponto fixo em uma cidade atravessada por intensas transformações culturais, científicas e políticas no final do século XIX e início do XX.
Mas é também essa mesma cidade, que assiste à fundação da psicanálise e ao desenvolvimento de um novo campo científico, que expulsa seu fundador. Falamos da política de perseguição aos judeus na Europa, que força Freud a deixar Viena e abre um novo capítulo nessa história.
Memória da Viena imperial
Viena, capital da Áustria, é considerada um centro de referência em diversas áreas, da música à filosofia. Nomes como Gustav Klimt e Wolfgang Amadeus Mozart coexistiam em um mesmo horizonte de transformações.
A cidade de Sigmund Freud é frequentemente descrita como um “museu ao ar livre”, onde a arquitetura apresenta os registros desse passado imponente. No coração da cidade, a Catedral de São Estevão (Stephansdom) e o complexo de Hofburg — residência de inverno da dinastia dos Habsburg — registram esse tempo.
Freud habita uma Viena em espécie de canteiro de obras e presencia, no final do século XIX, a construção da avenida Ringstrasse, que reorganiza a cidade e passa a concentrar edifícios enormes, como a Ópera Estatal, a Prefeitura (Rathaus) e o Teatro Municipal.
Com a Primeira Guerra Mundial e o colapso do Império Austro-Húngaro, seguidos, décadas depois, pela anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938 (Anschluss), Viena é inscrita em uma ruptura política e social.
A Viena de Sigmund Freud
Castelos, cafés e museus. O jovem Freud passou a maior parte de sua vida nessa Viena em construção, o cenário fundamental para o surgimento da psicanálise.
Sua formação médica teve início no Hospital Geral de Viena (AKH), um complexo com mais de três séculos de história, que hoje abriga o hospital universitário da cidade e a Universidade de Medicina.
Freud também atuou como professor de neurologia na Universidade de Viena. Inserido em um ambiente que valorizava o estatuto acadêmico, atribuía importância ao título de professor, ainda que mantivesse certa distância da atividade docente, organizando suas aulas de modo a reduzir a frequência de alunos.
Na Berggasse, 19, endereço em que viveu e trabalhou por 47 anos, concentra-se um dos pontos marcantes de sua trajetória. Foi ali que, em julho de 1895, situou a formulação do sonho como realização de desejo — momento que ele próprio reconheceu como inaugural.
Para além das instituições, a circulação de suas ideias encontrou nos cafés vienenses um espaço privilegiado. Frequentador do Café Landtmann e do Café Central, Freud participava de uma cultura de debate que atravessava a vida intelectual da cidade.
O ano de 1938
Em 1938, com a ascensão do regime nazista na Áustria, Sigmund Freud torna-se alvo direto de perseguição. Judeu, é forçado ao exílio e deixa Viena rumo a Londres, acompanhado de parte de sua família.
Com o apoio de Marie Bonaparte e de sua filha mais nova, Anna Freud, consegue levar consigo a maior parte de seus pertences, incluindo seus móveis e o divã. O espaço vazio que permanece em seu antigo consultório, na Berggasse 19, é hoje mantido como marca desse episódio.
Após sua partida, o edifício é apropriado pelo regime nazista. Os apartamentos passam a funcionar como locais de detenção provisória — os chamados Sammelwohnungen — onde cerca de 80 judeus foram mantidos antes da deportação para campos de concentração.
No atual museu, permanecem vestígios discretos desse passado. Se Viena foi, por décadas, o lugar de elaboração de uma obra, é também o ponto em que essa trajetória é abruptamente interrompida.
Inscrições de uma cidade
Apesar de a cidade apresentar camadas culturais sobrepostas ao longo do tempo, Viena passou por transformações e se modernizou. Hoje, prioriza a qualidade de vida e foi eleita, pela revista The Economist, uma das cidades mais habitáveis do mundo. Possui um sistema de transporte público eficiente, além de vastos espaços verdes, como o Prater, onde se encontra uma das rodas-gigantes mais antigas ainda em funcionamento.
Os cafés, que sustentaram a vida intelectual da cidade no final do século XIX, tornaram-se uma espécie de “sala de estar” compartilhada por moradores e visitantes. Ao mesmo tempo, Viena se organiza em torno de uma lógica contemporânea de mobilidade, sustentabilidade e uso do espaço público.
Esse convívio entre permanência e transformação também se inscreve na forma como a cidade lida com sua própria história. Em Berggasse, 19, o vazio deixado por Sigmund Freud é mantido. A ausência, ali, é apresentada como parte constitutiva da memória.
Arquitetura imperial, vestígios do século XX e as formas atuais de vida urbana. Assim, Viena se configura como um espaço em que a história é sempre digna de ser reescrita.
Referências:
DW TRAVEL. Inside Freud’s Vienna: Where Psychoanalysis Was Born. YouTube, s.d.
DW TRAVEL. Why Vienna is the World's Most Livable City | Must-sees in Austria's Capital. YouTube, s.d.
LOUCO POR VIAGENS. ÁUSTRIA - EP.1 | Viena e seus principais pontos de visita no centro histórico. YouTube, s.d.
SIGMUND FREUD MUSEUM. Walk through Berggasse 19 with our director. Apresentação de Monika Pessler. YouTube, s.d.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.