O Estrangeiro: Notas sobre As Viagens de Freud
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“Conforme o testemunho dos meus sentidos eu me acho agora na Acrópole, mas não consigo acreditar.”
Sigmund Freud, Um distúrbio de memória na Acrópole (1936)
Quando lemos as cartas de Sigmund Freud, estamos diante de qual Freud?
O fundador da psicanálise, o homem vitoriano de família judaica, o esposo de Martha, o pai de seis filhos, o amigo de Fliess e Ferenczi, o professor da Universidade de Viena que não apreciava lecionar? Difícil decidir.
Freud era plural — e isso fica evidente nas cartas. Foram mais de 20 mil, segundo historiadores: papel, lápis, selos e um insistente desejo de se corresponder. O que podemos também observar é que existe algo implícito nessas páginas: um Freud que viajava e que fez disso um hábito, que podemos hoje rastrear.
Freud “Wanderlust”, poderíamos dizer. A partir de alguns trechos e percursos, interessa-nos deslocá-lo da cena analítica para situá-lo, ainda que momentaneamente, na esteira do homem comum — aquele que parte, observa, se espanta e, por vezes, não acredita no que vê.
Verão: é tempo de partir
Basta uma aproximação inicial da vida de Freud para que surja o traçado de suas viagens — muitas delas realizadas no verão.
O sul da Itália aparece como destino recorrente. Ainda assim, seus percursos foram mais amplos: esteve na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, além de circular pela Suíça e por Roma, cidade que visitou sete vezes. Em uma dessas travessias, por mar, registrou a experiência em um diário de bordo.
Embora demonstrasse certo entusiasmo por viajar, o motivo dessas partidas nem sempre se reduzia ao descanso. Em cartas e textos, percebe-se que esses períodos estavam atravessados por observação, curiosidade e, inevitavelmente, elaboração.
Em uma excursão aos Alpes de Hohe Tauern, por exemplo, o objetivo declarado era “esquecer por um momento a medicina e as neuroses”. O efeito foi outro. Katharina — nome que atribuiu à jovem que o reconheceu como médico — acaba por recolocá-lo no lugar do qual tentava se afastar.
Nos vestígios dessas viagens — mapas, fotografias, cartões-postais, objetos e anotações — desenha-se um Freud que se aproxima do homem comum, com seus modos próprios de se relacionar com o mundo.
Alguém disposto a sair da rotina doméstica, a enfrentar os imprevistos do trajeto e a ceder ao desejo de deslocamento.
O estrangeiro diante da Acrópole
Em 1904, ao visitar a Acrópole com seu irmão mais novo, Alexander, Freud viveu uma sensação de espanto que só seria elaborada anos depois, no texto “Um distúrbio de memória na Acrópole” (1936).
“Conforme o testemunho dos meus sentidos, eu me acho agora na Acrópole, mas não consigo acreditar”, escreve Freud.
Situada em uma colina acima da cidade, a Acrópole de Atenas é um dos locais arqueológicos mais importantes do mundo. Carrega uma densidade simbólica difícil de ignorar: ali se condensam, ao menos, ideias como o auge da civilização grega, a democracia e a sabedoria.
Estar ali, diante disso, não é uma experiência qualquer. Talvez por isso Freud só tenha conseguido retornar a esse momento três décadas depois, quando finalmente o inscreve em palavras. Há que se pensar.
Há, nesse episódio, algo da ordem do estrangeiro. Não apenas no sentido geográfico, mas naquilo que, mesmo sendo visto e vivido, não se deixa reconhecer de imediato. Freud está lá — e, ao mesmo tempo, não está. Vê — mas não acredita. É como se a experiência superasse o sujeito.
Observador atento dos costumes e das relações humanas, Freud deixa entrever suas motivações ao descrever, em suas anotações de viagem, aspectos sensíveis das paisagens que percorre.
Em suas passagens pelo Mediterrâneo, por exemplo, destaca uma busca por autenticidade cultural e estética: “tudo aqui é autêntico: montanhas, olivais, ciprestes, céu azul profundo…” (Cartas de Freud a sua filha: correspondência de viagem, 1895–1923).
Ele descreve o ambiente, o clima — sensorial e emocional — e observa as pessoas. Não raro, suas anotações são enviesadas por um humor fino, por vezes ácido.
De estrangeiro a refugiado
Ao final de sua vida, em 1938, Freud deixa Viena como refugiado e segue para Londres. A partida não foi imediata. Desde 1933, havia recomendações para que emigrasse, mas ele permaneceu em Viena até o Anschluss, em março de 1938. A partir daí, a situação se agravou: sua casa foi revistada e Anna Freud chegou a ser detida pela Gestapo.
Foi um longo processo. Após meses de espera, os Freud finalmente partiram em 4 de junho de 1938. Ao cruzar a fronteira, Freud teria dito: “Agora somos livres”.
Instalado em Londres, no número 20 da Maresfield Gardens, Freud recompõe seu ambiente de trabalho, levando consigo sua biblioteca e sua coleção de antiguidades. A grande responsável por garantir que a maior parte desses pertences, incluindo o divã, chegasse ao novo lar foi sua filha Anna.
Em uma transmissão para a BBC, Sigmund Freud resumiu sua experiência: “Aos 82 anos, em consequência da invasão alemã, deixei minha casa em Viena e vim para a Inglaterra, onde espero terminar meus dias em liberdade.”
Ao longo de suas viagens, Freud — o estrangeiro — pôde ocupar a posição daquele que parte, observa e, por vezes, se estranha diante do que vê. Entre o verão e a fuga, entre a curiosidade e a necessidade, permanece um Freud em movimento.
REFERÊNCIA:
ARTIGO disponível em: PePSIC – Periódicos Eletrônicos em Psicologia. Revista Brasileira de Psicanálise. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0486-641X2016000200016&script=sci_arttext. Acesso em: 28 mar. 2026.
FREUD MUSEUM LONDON. Freud’s Wanderlust & Freud’s Exiles. Londres, 2009. Disponível em: https://www.freud.org.uk/exhibitions/freuds-wanderlust-freuds-exiles/. Acesso em: 28 mar. 2026.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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