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A HISTERIA ENTRE FREUD E CHARCOt


Onde começa a clínica psicanalítica? O que seria a "histeria entre Freud e Charcot?"

A clínica psicanalítica é uma clínica que se sustenta a partir de um dispositivo que acolhe os sofrimentos psíquicos. Mas onde começa a clínica psicanalítica, tanto do ponto de vista estrutural quanto teórico?


Onde começa a psicanálise? Podemos dizer que a psicanálise começa com a dor, com o sofrimento, com o mal-estar, que pode ser tanto físico quanto psíquico. Nossa vida cotidiana está atravessada por esses fatores e nós temos diferentes formas de acolher, de abordar, de tratar e de curar essa dor, esse sofrimento, que em certos momentos pode ser tanto físico quanto psíquico.


São essas as questões levantadas pelo professor Daniel Omar Perez neste episódio #35 do ESPECast, disponível nas plataformas YouTube e Spotify.



 

AS FORMAS DE SOFRIMENTO


As formas físicas do sofrimento podem ser tratadas, por exemplo, por terapias medicamentosas ou por intervenções cirúrgicas. Quando quebramos um pé, por exemplo, sentimos uma dor física e há a tentativa de reparação daquilo que foi danificado. Podemos utilizar também técnicas fisioterápicas, fisioterapêuticas, para aliviar essa dor, esse sofrimento, dentre outras coisas.


Há também acompanhamentos psicoterapêuticos de diferentes perspectivas – tanto teóricas quanto clínicas – que tentam, de alguma forma, restaurar a vida cotidiana do sujeito fazendo com que ele consiga retomar sua vida a partir dessa vivência de dor e de mal-estar, retomando comportamentos que são social e moralmente aceitos.


Em muitos casos podemos dizer que é possível encontrar uma melhora. Em vezes que temos uma dor de estômago, tomamos um antiácido. Em vezes que temos uma dor de cabeça, tomamos um analgésico. Quando temos uma contratura muscular, tomamos um anti-inflamatório. Podemos também levar adiante algumas terapias como a acupuntura, a fisioterapia, a ludoterapia, as terapias ocupacionais quando estamos, por exemplo, em uma situação de tristeza grave e profunda. Nesses procedimentos, há uma série de protocolos e processos a partir dos quais o terapeuta acompanha o paciente e o conduz, de algum modo, a sua reintegração na vida cotidiana.


O problema é que existem casos em que essas práticas, que de alguma forma exigem um esforço e uma dedicação por parte daquele que padece, não dão conta dessa dor, desse sofrimento, desse mal-estar e em sendo assim, não é possível amenizá-los. O sofrimento ou permanece ou, às vezes, retorna na forma de outro sintoma. A situação não se resolve mediante uma cura que ocorreria mediante um esforço pessoal. Citemos como exemplo os casos de consumo compulsivo de álcool ou drogas, ou os comportamentos compulsivos ligados à alimentação - comer em excesso ou não comer nada. Há ainda os casos de comportamentos compulsivos ligados ao trabalho, onde o sujeito que não pode parar de trabalhar sempre encontra uma boa justificativa para poder continuar trabalhando em excesso e repetindo um movimento que o conduz, cada vez mais, a um desgaste físico e psíquico, que, eventualmente, o leva à depressão, ao cansaço crônico, e a situações onde ele já não consegue funcionar nem física e nem psiquicamente.


Isto quer dizer que existem casos que não são resolvidos a partir da intervenção da causalidade natural, introduzindo-se um medicamento, ou a partir da intervenção de uma boa vontade, de uma predisposição, de um reconhecimento cognitivo, consciente, das experiências por parte daquele que padece. E não é porque isso lhe falte, mas sim porque os sintomas não são causados nem por questões naturais e nem por uma espécie de preguiça ou apatia. São conhecidos casos onde os comportamentos compulsivos de consumo, por exemplo, não ocorrem por falta de entendimento da situação. Simplesmente o sujeito não consegue parar de consumir algo compulsivamente, mesmo sabendo que isto está lhe custando a própria vida, afetando sua relação com os outros e causando dor nas pessoas que ele ama.


Em suma, existem condutas repetitivas e involuntárias que não são determinadas apenas por um mecanismo anátomo-fisiológico ou orgânico. Nesses casos, para abordar essas condutas e o sofrimento psíquico causado por elas, é preciso fazê-lo a partir do dispositivo clínico inventado por Sigmund Freud: a psicanálise.



O COMEÇO DE FREUD


Sigmund Freud nasceu no dia 6 de maio de 1856, na cidade de Freiberg, atualmente pertencente à República Tcheca. Mudou-se em 1860 com a família para Viena. Iniciou, em 1873, seus estudos universitários em medicina e em 1881 conseguiu seu título de doutor. Começou um noivado com Marta Bernays em 1882, com quem se casou posteriormente, tendo filhos – Matilde, Martin, Anne e Sofia -- e permaneceu junto com ela até os últimos dias de sua vida.


Freud estudava medicina para ser pesquisador, mas, naquela época, para poder seguir na pesquisa em medicina, era preciso ter sustento financeiro próprio e ele não tinha essa condição. Assim, ele teve que optar entre a pesquisa científica e a clínica, tendo optado pela segunda para então poder sustentar sua família.


Mas isso não o impediu de, por outras vias, realizar suas pesquisas científicas.


“Talvez possamos pensar que a necessidade econômica que conduziu Freud a fazer clínica fez com que ele conseguisse inventar uma nova ciência, inventar a psicanálise.” – nos ressalta Daniel no episódio.



FREUD COM FLIEβ


Em 1887 começou uma relação pessoal de amizade profissional com Wilhelm Flieβ. É preciso reter este nome: Wilhelm Flieβ. Um médico com quem Freud tem um contato pessoal, profissional e de amizade e que lhe permitiu desenvolver o início da prática clínica psicanalítica.


“Aqui nós encontramos um elemento importante na análise das condições de possibilidade da clínica psicanalítica.” – ressalta bem o professor Daniel. – “Esse vínculo está registrado em cartas e em manuscritos, que várias vezes temos citado, tratando de diferentes temas da psicanálise e da relação da psicanálise com a clínica e com a filosofia.”


Estes manuscritos datam do final do século XIX e início do século XX. Muitos pesquisadores consideram, e podemos dizer que até o próprio Freud, essa relação entre os dois como a autoanálise de Freud. Podemos dizer também que aí está a fundação dos pilares da psicanálise.


“Então, quando nos perguntamos pelos fundamentos, pela origem, pela fundação da clínica psicanalítica, um de dos pilares é a relação com Wilhelm Flieβ” – ressalta Daniel.


FREUD E CHARCOT

O outro pilar das condições de possibilidade da clínica psicanalítica é a residência de Freud com o doutor Jean-Martin Charcot.


Ao terminar a universidade em Viena, Freud vai para Paris, nos anos 1885 e 1886. Lá ele observa diferentes casos e tem contato com o funcionamento da hipnose. A partir dessas observações ele entende que existem sintomas naqueles pacientes que não podem ser subsumidos sob o princípio de causalidade natural. Quer dizer, ele observou pessoas quadriplégicas, que apresentavam uma rigidez muscular muito grande a ponto de não conseguirem mexer os membros, que perdiam a fala, que começavam a ter gestos estranhos e involuntários, porém sem apresentarem nenhuma causalidade orgânica para esses quadros.


O hospital Salpetrière, em Paris, era um lugar de reclusão, que encerrava prostitutas, moradores de rua, pessoas pobres andarilhas, pessoas que eram consideradas criminosas ou loucas. Foi neste local, de certa forma, que boa parte da neurologia da época se desenvolveu. E ali Freud realizou seus estudos e observações com Charcot.


Charcot se demorava bastante nos casos de histeria. De acordo com registros, havia centenas de casos de pacientes histéricos. Muitas dessas pessoas, portanto, eram moradores de rua, pessoas pobres, o que contradiz o mito popular que às vezes se faz circular que diz que os problemas psíquicos são para pessoas desocupadas, sem ofício, para a pequena burguesia. Contradiz a ideia de que um operário, um trabalhador, não teria tempo para ter problemas psíquicos. Fatos concretos, documentados pela história, contestam esse mito. A maioria dos casos de histeria de Salpetriére se davam em populares. Outro fato que o contradiz é que boa parte das pessoas que foram atendidas tanto por Freud quanto por outros psicanalistas, que iniciaram a psicanálise, eram operários, empregadas domésticas, e não membros da burguesia.


A clínica de Charcot se demora nos casos de histeria com sintomas como cegueira, ausências de consciência, gestos e movimentos musculares involuntários, delírios, alucinações, perdas de fala, entre outros. Ele descobre que os sintomas histéricos não apresentavam causa física, e sim causa psíquica. No hospital, se usava hipnose para poder trabalhar com os pacientes, mas também se usava energia elétrica, para poder tratar a histeria.


Os sintomas histéricos, de acordo com Charcot, estariam dentro da ordem da sugestão. Isso quer dizer que a sugestão podia ser reduzida ao fenômeno de alguém oferecer uma ideia e o outro aceitar tal ideia de modo não crítico e involuntário. É como se o sintoma histérico funcionasse a partir da aquisição de uma ideia involuntariamente aceita, que começa a funcionar no aparelho psíquico e a manifestar sintomas.


Freud então entendeu, com as experiências de Charcot, duas coisas:


a) os sintomas da histeria eram de origem psíquica:


Até o momento não era claro que os sintomas da histeria eram de ordem psíquica. Muitas vezes se entendia que a histeria era um problema de mulheres, e isso se dava por causa da origem da palavra histeria: útero. Por esse motivo se entendia que era um fenômeno estritamente feminino. Freud e seus colegas vão, porém, demonstrar que existe histeria masculina, questão hoje bastante óbvia e consensuada. Porém na época, como se tentava encontrar uma origem física ou anatômica para o fenômeno sintomático, se pensava que a histeria provinha do útero e que ele era, de alguma forma, a fonte dos sintomas histéricos, o que Freud comprovou não ser verdade. Os sintomas histéricos teriam uma origem psíquica.


b) A sugestão hipnótica era capaz de contribuir com a dissolução dos sintomas:


Naquela época, ou seja, naquele início de psicanálise, se entendia que, se o sintoma funcionava a partir de uma sugestão, era possível se utilizar dela para desfazê-lo. Charcot e, na origem da psicanálise, o próprio Freud, se utilizaram, dentre outras, a técnica da hipnose, que depois foi abandonada por diversas razões.



 


CONCLUSÃO


Ao final do episódio, o professor Daniel nos lê um fragmento do obituário de Charcot, escrito por Freud, em Viena, no mês de agosto de 1893.


“Considerando a histeria como um dos temas da neuropatologia, Charcot fez a descrição completa dos seus fenômenos. Demonstrou que os mesmos seguiam determinadas leis e normas e ensinou a conhecer os sintomas que permitiam diagnosticar a histeria. A ele, Charcot, e seus discípulos, devemos as profundas pesquisas acerca das perturbações sobre contraturas e paralisias histéricas, as perturbações das atrofias e os transtornos de nutrição. Depois de descrever as diferentes formas do ataque histérico, estabeleceu-se um esquema que apresentava quatro estádios, a estrutura típica do grande ataque histérico, e permitia referir o pequeno ataque corretamente observado.


Assim também foi realizado o estudo da situação e da frequência das chamadas zonas histerógenas e sua relação com os ataques,etc. Todos estes conhecimentos sobre o fenômeno da histeria conduziriam a novas descobertas. Assim, comprovou -se a existência da histeria em sujeitos masculinos, e aqui vai algo bem importante, especialmente em indivíduos da classe operária, e se chegou à conclusão de que determinados acidentes, acidentes de trabalho, atribuídos à intoxicação por álcool ou por chumbo, eram de natureza histérica. Aprendeu -se a incluir neste conceito afeições até então isoladas e incompreendidas, e a circunscrever a participação da histeria em aqueles casos em que a neurose tinha se ligado a outras doenças, formando complexos quadros patológicos.”*


Com Charcot, em Paris, Freud deu os primeiros passos em relação ao estudo da histeria. De volta a Viena, ele conseguiu estabelecer um trabalho com o Dr. Breuer e um diálogo com Flieβ, dando origem a sua criação: a psicanálise.


*como dito no episódio



Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.


Textos citados neste episódio:

  • A Questão da Análise Leiga - Sigmund Freud

  • Três Ensaios para uma teoria da Sexualidade – Sigmund Freud

  • A Filosofia do Como Se - Hans Vaihinger

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2 Comments


Não sei se é só comigo, talvez seja, mas tive dificuldade de ler com essa letra. Não tentei no celular, só no pc. Dando zoom ficou melhor. Parabéns pelo artigo! Obrigado! Gosto muito de seus artigos e seus vídeos.

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Que bom que as transcrições estão sendo úteis na sua formação.

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