A Questão da Análise Leiga, um século depois
- ESPEcast

- 6 de ago.
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Sigmund Freud era, também, um escritor. Talvez essa não fosse a classificação mais comum em sua época, mas basta ler sua obra hoje para perceber o rigor com que construía seus textos.
Há neles uma clareza argumentativa e um cuidado com a forma que tornam a leitura, ao mesmo tempo, didática e exigente. Isso não significa que seus escritos estejam acima da crítica — ao contrário, a formação psicanalítica pressupõe uma leitura permanente e rigorosamente crítica de Freud.
Logo nas primeiras páginas de A questão da análise leiga (1926), Freud estabelece o tom da discussão que pretende desenvolver. O próprio título da obra traz um complemento frequentemente deixado em segundo plano: Diálogo com um interlocutor imparcial.
Mas a proposta aqui é outra: levar adiante essas questões em seus pormenores. É justamente por esse caminho que vale retornar a esse escrito, um século depois.
A defesa freudiana da análise leiga
Ninguém melhor para definir este manuscrito, que tem cerca de 80 páginas na edição da Companhia das Letras, do que o próprio Freud. É ele quem assina como professor, em um apêndice sobre charlatanismo, para dizer que enviara ao editor esse livro, no qual:
“Nele procuro mostrar o que é uma psicanálise e o que exige ela do analista, discuto as relações nada simples entre psicanálise e medicina e concluo, a partir dessa exposição, que a aplicação mecânica do parágrafo sobre charlatanismo [do código penal austríaco] ao caso de um analista treinado está sujeita a sérios reparos.”
E por que Freud se ocupou desse tema? Em 1926, o psicanalista Theodor Reik foi denunciado em Viena por prática ilegal da medicina. Ele não era médico, mas praticante da psicanálise. Freud, que à época participava do Instituto Psicanalítico de Viena, escreveu a obra numa tentativa de esclarecer se a psicanálise seria um ramo da medicina ou uma prática de outra natureza.
Escrito em resposta a essa acusação, o texto é notavelmente bem construído. Freud dialoga com esse interlocutor fictício e, ao notar seu incômodo, escreve:
“Nosso interlocutor imparcial, que imagino aqui presente, deu sinais de impaciência enquanto expúnhamos os sintomas dos neuróticos.”
Ele percebe nessa figura uma crítica social à psicanálise e a registra ao longo da argumentação. O interlocutor, diz Freud, mostra-se curioso e comenta: “Agora vamos saber o que o analista faz com o paciente a quem o médico não pôde ajudar.”
Freud desenvolve a questão:
“O analista não usa instrumentos, nem sequer para um exame, e não prescreve medicamentos. Sempre que possível, deixa inclusive que o doente permaneça em seu ambiente e com suas relações habituais enquanto o trata.”
Podemos perceber, portanto, que Freud, ao responder à questão suscitada pelo caso Reik, evidencia a especificidade da psicanálise, diferenciando-a tanto da medicina quanto daquilo que chama de “psicologia oficial”.
Quem pode praticar a psicanálise?
De saída, Freud esclarece o próprio termo que dá título ao livro. Na introdução, observa que a palavra leiga talvez não fosse imediatamente compreensível e, por isso, a define: “leiga” significa “não praticada por médicos, e a questão seria se também aos não médicos deve ser permitido exercer a psicanálise.”
Curiosamente, ele escreve a esse interlocutor imparcial num tom por vezes irônico, o que fica evidente logo nas primeiras linhas ao afirmar que “até agora ninguém se preocupou com o fato de quem exerce a psicanálise”. Se interrompêssemos a leitura nesse ponto, poderíamos imaginar que a psicanálise seria um campo livre de disputas, interessado apenas em seus efeitos clínicos. Mas não é disso que se trata.
Freud logo completa:
“Sim, as pessoas preocuparam-se muito pouco em relação a isso — concordaram, isto sim, no desejo de que ninguém deveria praticá-la, justificando-se com razões diversas, todas baseadas na mesma aversão.”
Se a questão, colocada em 1926, estava centrada na relação entre psicanálise e medicina, hoje ela se amplia para outros campos, atravessada também pela lógica neoliberal que marca o nosso tempo — tempo do leitor contemporâneo. Cem anos depois, a pergunta sobre quem pode praticar a psicanálise continua exigindo atualização.
O próprio Freud observa que essa discussão assumia contornos distintos conforme o país. Ele compara a situação austríaca à de outras nações e mostra que a questão possuía implicações jurídicas bastante diferentes.
“Na Alemanha e na América é uma discussão puramente acadêmica (...). Mas na Áustria, país no qual e para o qual escrevo, a lei é preventiva, proíbe ao não médico realizar tratamentos (...). Portanto, aqui tem sentido prático a questão de os leigos (= não médicos) poderem ou não tratar doentes com a psicanálise.”
Ao final da introdução, Freud apresenta a tese que sustentará todo o livro:
“No entanto, há algumas complicações que a lei não considera (...). Pode suceder que os doentes, nesse caso, não sejam como outros doentes, que os leigos não sejam propriamente leigos e que os médicos não ofereçam exatamente aquilo que se espera dos médicos (...). Se isso for provado, será justo solicitar que a lei não seja aplicada sem modificações ao caso presente.”
A partir dessa formulação, ele passa a demonstrar a singularidade da psicanálise. Para isso, recorre a situações clínicas comuns: um paciente com oscilações de humor, uma pianista acometida por cãibras nos dedos e outros sujeitos que procuram a medicina em busca de alívio para seus transtornos nervosos.
Esses pacientes recebem diagnósticos conhecidos da época — neurastenia, psicastenia, fobias, neurose obsessiva, histeria —, mas não encontram, na medicina, a resposta esperada para seu sofrimento.
Freud então retoma a provocação de seu interlocutor fictício, interessado em saber o que, afinal, faz o analista diante daquele paciente que a medicina não conseguiu tratar. A resposta, contudo, é bastante simples: entre analista e paciente, “tudo o que acontece é que falam um com o outro.”
É nessa aparente simplicidade que reside a originalidade da psicanálise. Como escreve Freud: “O analista recebe o paciente em determinada hora do dia, deixa-o falar, escuta-o, fala com ele e faz com que o escute.”
A condução do tratamento permanece fundada nessa mesma lógica: a fala do analisando e a escuta do analista constituem a condição de possibilidade da experiência analítica.
Um século depois, os princípios apresentados em A questão da análise leiga continuam orientando a formação do psicanalista e sustentando a especificidade da clínica inaugurada por Freud.
Quem pode ser um analista? Um século depois, Freud oferece seus argumentos; a resposta cabe ao leitor.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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