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A Dialética das Pulsões: a Voz no campo da Psicanálise

há 1 hora
4 min de leitura

Toda pulsão é parcial.

— Jacques Lacan, Seminário 11


É inevitável a comparação entre a escrita freudiana e a lacaniana quando iniciamos nosso percurso no campo da psicanálise.


São experiências distintas, e que bom que é assim. Mas a comparação entre esses dois modos de ler a psicanálise ultrapassa as barreiras textuais, alcançando os fundamentos e os desdobramentos de temas que atravessam, por assim dizer, o pensamento dos dois teóricos.


Quando falamos das pulsões, passamos fatalmente por 1915, ano em que Sigmund Freud escreve As pulsões e seus destinos, para depois chegarmos a 1964, quando Jacques Lacan retoma esse conceito em sua leitura de Freud.


A partir desse percurso, podemos investigar como a teoria das pulsões se desenvolve entre os dois autores e como Lacan amplia a discussão dos objetos pulsionais, incluindo a voz. Neste artigo, acompanharemos esse percurso, com atenção à relação entre demanda e desejo e à especificidade da voz como objeto pulsional.


A teoria das pulsões


Para compreender a especificidade do objeto voz, precisamos retomar o conceito de pulsão (Trieb), fundamental para a metapsicologia freudiana.


Situada na fronteira entre o somático e o psíquico, a pulsão se caracteriza por uma força constante, distinta de um estímulo externo momentâneo. Embora relacionada ao corpo, sua satisfação não se reduz à resposta a uma necessidade orgânica.


Em As pulsões e seus destinos, de 1915, Freud examina os elementos que constituem a dinâmica pulsional. Como escreve, “a meta de uma pulsão é sempre a satisfação”. O objeto, por sua vez, é aquilo por meio de que a pulsão alcança sua meta, sem que haja uma correspondência fixa entre ambos. Essa distinção evidencia a particularidade da satisfação pulsional e a variabilidade do objeto.


No Seminário 11, Lacan retoma a elaboração freudiana e enfatiza o caráter parcial das pulsões. Consideradas em relação à finalidade biológica da sexualidade, isto é, a reprodução, elas não constituem uma unidade orientada diretamente para esse fim. Cada pulsão percorre seu circuito, articulado às zonas erógenas e à relação do sujeito com o Outro.


Para abordar esse funcionamento, Lacan recorre à imagem do arco e da flecha. A imagem ilustra o circuito pulsional e a satisfação que se realiza em seu percurso, que insere a elaboração sobre os objetos pulsionais, entre os quais a voz, relacionada à pulsão invocante.


Os objetos pulsionais: demanda e desejo


Para compreender a distinção entre demanda e desejo, podemos começar pelas pulsões oral e anal, retomadas por Lacan a partir da elaboração freudiana. Na pulsão oral, o seio ocupa o lugar de objeto na relação da criança com o Outro, a quem ela dirige sua demanda.


Na pulsão anal, ocorre uma inversão: como Lacan desenvolve no Seminário 10: A angústia, é o Outro que passa a demandar o objeto, nesse caso, as fezes. Essa dinâmica pode ser observada nas situações em que os adultos solicitam que a criança faça suas necessidades em determinado momento e lugar. A comparação entre as duas pulsões mostra as diferentes posições do objeto na relação entre a criança e o Outro.


Lacan também desenvolve a pulsão escópica, relacionada ao olhar, e a pulsão invocante, relacionada à voz. Temos, assim, quatro objetos fundamentais em sua elaboração: o seio, as fezes, o olhar e a voz.


A distinção entre demanda e desejo oferece uma via para investigar a função desses objetos. O seio e as fezes permitem abordar a relação entre a pulsão e a demanda, enquanto o olhar e a voz conduzem à questão do desejo do Outro. Essa diferenciação não constitui uma separação absoluta: demanda e desejo se articulam, e os objetos pulsionais participam dessa relação de maneiras distintas.


No caso da voz, essa articulação assume uma particularidade. A relação com o desejo do Outro envolve tanto a posição do sujeito diante do desejo do Outro quanto o desejo que ele próprio dirige a esse Outro.


A voz como objeto pulsional


Ainda no Seminário 11, Lacan chama a atenção para uma particularidade da experiência auditiva ao afirmar que as orelhas são as únicas zonas que não podem ser fechadas.


Diferentemente dos olhos, que podem ser fechados para interromper a visão, os ouvidos não dispõem de um mecanismo anatômico equivalente. Essa característica evidencia a exposição do sujeito ao campo sonoro e a especificidade da pulsão invocante.


A voz, contudo, não se reduz ao fenômeno acústico nem ao som produzido pelo aparelho fonador. Na elaboração lacaniana, seu estatuto como objeto pulsional exige distinguir a materialidade sonora da função que a voz assume na relação do sujeito com o Outro.


Essa distinção também orienta a reflexão sobre as relações de endereçamento. A experiência de pessoas surdas evidencia que a constituição subjetiva e os laços com o Outro não dependem exclusivamente da audição: podem envolver diferentes formas de linguagem e expressão. Esse aspecto, embora não defina por si só o conceito psicanalítico de voz, ajuda a evitar sua redução à percepção de sons.


Jean-Michel Vives, em seu percurso A voz no campo da psicanálise, aborda a constituição do sujeito a partir das relações de endereçamento. Como sintetiza o autor, o sujeito ocupa tanto a posição daquele a quem uma demanda se dirige quanto a daquele que se dirige ao Outro.


A voz e o olhar também aparecem na reflexão lacaniana sobre fenômenos como as alucinações. A investigação da pulsão invocante, entretanto, não se restringe à psicopatologia: ela oferece elementos para pensar a relação do sujeito com o Outro e o lugar da voz na experiência psíquica.


Conclusão


Ao percorrermos a teoria das pulsões de Freud a Lacan, chegamos à voz como objeto pulsional e à sua relação com o desejo do Outro.


A pulsão invocante orienta a investigação sobre a participação da voz na constituição do sujeito e em sua relação com o Outro, considerando sua função no circuito pulsional.


Retomar a voz por essa perspectiva amplia a leitura da teoria das pulsões e abre caminhos para investigar a experiência da linguagem na psicanálise, considerando a singularidade da pulsão invocante e sua relação com o desejo.









Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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