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Anna Freud: entre a herança freudiana e a psicanálise infantil

À primeira vista, seu notável sobrenome poderia dispensar apresentações biográficas. Contudo, a proposta deste artigo é justamente demarcar o espaço que Anna Freud abriu, ao lado de outras mulheres fundamentais, na cena da psicanálise.


Serão destacados aspectos de sua vida que dialogam, sobretudo, com o pai e também com outras mulheres, articulando pontos importantes na sustentação da teoria psicanalítica. Não é por ser classicamente (re)conhecida na história como filha e também continuadora dos estudos teóricos e clínicos do campo que suas construções demandem menor espaço.


Ao contrário, quanto mais se fala de Anna, Spielrein, Salomé, Klein, Dolto etc., mais se areja o pensamento psicanalítico e se inaugura uma transmissão autêntica da história das mulheres, bem como da própria psicanálise, sob novas perspectivas.


Eine kurze Biografie (Uma pequena biografia)


Anna Freud (1895–1982), filha caçula de Sigmund Freud (1856–1939) e Martha Bernays (1861–1951), nasceu em Viena, Áustria-Hungria, quando seu pai tinha 39 anos e estava concluindo, junto com Josef Breuer, a elaboração do livro "Estudos sobre a Histeria", publicado naquele mesmo ano.


A família vivia nessa época no famoso endereço Berggasse 19, em Viena — hoje o Museu Freud. Anna concluiu seus estudos no Liceu Cottage, em Viena, em 1912, e passou alguns anos trabalhando como professora assistente nessa escola.


Em junho de 1938, a família mudou-se para Londres, fugindo da ocupação nazista. Anna, única dos seis filhos a seguir os passos do pai na psicanálise, é considerada, ao lado de Hermine von Hug-Hellmuth e Melanie Klein, uma das fundadoras da psicanálise infantil como disciplina própria.


Anna morou em Hampstead, bairro londrino onde se localizou a última residência da família Freud em Londres, por mais de 40 anos. Segundo o Freud Museum London, quando Anna não estava em atendimento no consultório, era frequentemente encontrada em seu tear. “Para Anna, tecer era útil e terapêutico, pois a acalmava e a ajudava a se concentrar, talvez da mesma forma que seu pai precisava de charutos para trabalhar.”


Anna praticou psicanálise e estabeleceu uma sólida reputação na psicanálise infantil. Pai e filha eram próximos e mantiveram correspondência frequente ao longo da vida.


Contribuições teóricas principais


Quando se pesquisa Anna Freud, é possível notar que ela está para além das demarcações comuns que lhe são atribuídas. Chamamos de comuns os temas ligados a "O ego e os mecanismos de defesa", texto publicado em 1936, bem como à sistematização da psicanálise infantil, da qual falaremos mais adiante.


Há que se notar sua atuação fundamental em ambas as perspectivas teórico-clínicas mencionadas. No entanto, o restante de sua obra recebeu menor atenção, como, por exemplo, sua contribuição à teoria psicanalítica do desenvolvimento. Sua técnica envolvia o uso de linhas de desenvolvimento que mostravam como as habilidades e funções mentais se organizam da infância à adolescência.


Voltando à chamada Psicologia do Ego, Anna aprofundou a compreensão de como o ego lida com impulsos e ansiedades inconscientes e sistematizou os mecanismos de defesa, como repressão, negação, projeção, regressão e identificação com o agressor, entre outros. Ela enfatizou que o ego não é apenas um mediador passivo, mas uma entidade ativa de adaptação à realidade.


Psicanálise Infantil


Já quando o tema é a psicanálise infantil, é importante dizer que outras psicanalistas já haviam experimentado a análise infantil antes de Anna Freud. A primeira a atuar na clínica com crianças foi Hermine von Hug-Hellmuth (1871–1924).


Segundo Fátima Caropreso, “ela foi a primeira a aplicar a psicanálise ao tratamento de crianças, a usar e desenvolver o brincar na terapia e a fazer uso da observação sistemática de crianças do ponto de vista psicanalítico”.


Inclusive, quando Hellmuth apresentou seu artigo “Sobre a técnica da psicanálise infantil”, em 1921, no Congresso Internacional de Psicanálise, em Haia, Anna Freud estava presente, bem como Melanie Klein, Sabina Spielrein, Eugénie Sokolnicka e outras figuras centrais da psicanálise infantil.


Feita essa consideração, ainda assim foi Anna Freud quem primeiro sistematizou e refinou a psicanálise infantil, dentro da tradição vienense, em contraposição técnica à escola kleiniana, criando métodos específicos para trabalhar com crianças.


Anna sustentava que crianças pequenas não poderiam fazer associação livre como os adultos; assim, utilizava o jogo, o desenho e a observação direta como modos de expressão terapêutica.


Um ponto que a diferencia de outras abordagens da psicanálise com crianças é sua insistência em afirmar que a análise infantil deve respeitar o desenvolvimento natural da criança, focando muitas vezes na educação e no ambiente antes da interpretação formal.


Bate-se numa criança, os bastidores


No texto organizado por Marco Antonio Coutinho Jorge, Dois ensaios sobre fantasias de surra, editora Zahar, que reúne o ensaio “Bate-se numa criança”, de Freud, e “Fantasias de surra e devaneios”, de Anna Freud, o autor narra acontecimentos significativos da vida de Anna.


Coutinho afirma que o texto “Fantasias de surra e devaneios”, de Anna, teria sido escrito a partir de seu primeiro período de análise com o pai, datado de 1918 a 1922, e fortemente incentivado após seu encontro com Lou Andreas-Salomé, em Göttingen, em 1922 — Anna com 27 anos e Salomé com 61.


Desse encontro, unido ao desejo de Anna de se tornar membro da Sociedade Psicanalítica de Viena, articula-se também a figura de Max Eitingon (1881–1943). "Psicologia dos devaneios" foi o livro de Juliaan Varendonck que Anna fez tradução, e tentou inicialmente utilizá-lo para o ingresso na Sociedade. No entanto, foi desencorajada por Eitingon, que indicou que a filha de Freud apresentasse um trabalho próprio para admissão.


Estimulada por Salomé, Anna concluiu sua primeira produção teórica e finalmente ingressou na Sociedade. A longa amizade entre as duas, incentivada por Freud, diga-se de passagem, pode ser atestada pela intensa troca de correspondências, que somam mais de 430 cartas.


A herdeira e sua obra


Ao examinar as fantasias de surra e sua transformação em devaneios e, destes, em produção escrita, Anna Freud amplia a investigação freudiana sobre a sexualidade infantil e indica a direção de sua obra futura: o interesse pelo trabalho do eu e seus arranjos defensivos, bem como por suas formas de mediação com a realidade.


Entre a fantasia privada e a comunicação dirigida ao outro, ela localiza um movimento importante de passagem do íntimo ao social, da cena imaginária ao laço.


Anna Freud faleceu em Londres, no dia 9 de outubro de 1982, deixando como legado a institucionalização da psicanálise infantil e uma elaboração própria e rigorosa do campo psicanalítico.




Referência Bibliográfica:


FREUD MUSEUM LONDON. The House — Anna Freud’s Story. Londres: Freud Museum London. Disponível em: https://www.freud.org.uk/. Acesso em: 1 mar. 2026.


JORGE, Marco Antonio Coutinho (org.). Bate-se numa criança: Freud e seus interlocutores. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.


CAROPRESO, Fátima; CROMBERG, Renata. Mulheres pioneiras da psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.


Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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