A Interpretação do Sonho: tradução e leitura à brasileirA
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Existe no fundamento da psicanálise a ideia de uma não completude — presente nos termos, nas interpretações e até naquilo que se pretende como fim.
Partindo dessa premissa, podemos tomá-la como base para tensionar sua própria fundação: se há algo que é incompleto por natureza, isso só se sustenta em relação a um outro que, de algum modo, esboça ou supõe uma completude.
Houve, afinal, algo na psicanálise freudiana que se organizasse com começo, meio e fim? E, mais ainda, é pertinente interrogar o passado? A partir de sua obra fundadora de 1900, buscaremos nos aproximar dessas questões.
O problema da tradução
A psicanálise nasce na língua alemã — o Deutsch. Isso implica reconhecer que certas características estruturais do alemão incidem diretamente sobre o processo de tradução, com seus prejuízos e ganhos.
A língua germânica permite formar palavras longas, pela junção de termos menores, criando conceitos bastante precisos. Ao mesmo tempo, muitas palavras carregam campos de sentido amplos, que o português tende a separar.
Por isso, ao se falar em tradução, há um limite inerente ao próprio processo: cada leitura implica uma forma de apreender e interpretar o objeto, atravessado por uma determinada memória discursiva.
Exemplificando esse ponto no campo da psicanálise, alguns termos utilizados por Sigmund Freud foram, em certos casos, elevados ao estatuto de conceito — ainda que o próprio Freud nem sempre os tenha formalizado desse modo.
Interessa, então, localizar o que, desse passado original da escrita freudiana, permanece nas traduções em português — sobretudo em sua obra fundadora, A Interpretação do Sonho — e o que dela se reinscreve à luz da contemporaneidade, a partir de traduções diretas do alemão, inevitavelmente marcadas por traços de equívoco, como todo movimento de tradução deixa entrever.
Obras completas e incompletas
É, em certa medida, um ato de ficção considerar a existência de uma coleção completa das obras de Sigmund Freud.
Esse argumento se sustenta quando observamos o movimento de sua escrita, majoritariamente disperso, publicado em jornais, revistas — sobretudo científicas — e em correspondências trocadas com seus interlocutores.
Dito isso, cabe compreender como se deu o movimento de tradução dessas obras e quem são os responsáveis por esse Arbeit (trabalho).
A primeira grande sistematização da obra freudiana se deu em inglês, com a publicação da The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, organizada em 24 volumes e traduzida por James Strachey ao longo de mais de duas décadas, com a participação do próprio Freud por um período.
Uma leitura à brasileira
No Brasil, por muitos anos, o acesso à obra de Sigmund Freud se deu por traduções indiretas, nas quais conceitos fundamentais chegavam ao português atravessados por escolhas teóricas previamente estabelecidas.
Antes do domínio público, destacou-se a Editora Imago, com sua tradução indireta (do inglês da Standard Edition), publicada a partir da década de 1970 sob o título Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
Um exemplo de forte intervenção editorial é o termo Trieb, traduzido por instinct, quando se aproximaria mais de “drive” ou “pulsão” nas tradições latinas. Apesar disso, durante muito tempo essa edição moldou a leitura de Freud, inclusive na psicanálise brasileira.
Com a entrada da escrita freudiana em domínio público, em 2010, abre-se um novo campo. A partir desse momento, surgem iniciativas de tradução direta do alemão.
Depois do Domínio Público
No período que antecede o domínio público, havia um debate importante na comunidade psicanalítica brasileira acerca dessas traduções e dos equívocos a partir dos termos — o que, paradoxalmente, pode ser considerado também como um efeito produtivo dessas limitações.
Com a queda dos direitos autorais, diferentes projetos editoriais passaram a disputar as formas de leitura de Freud no Brasil.
Entre eles, a Companhia das Letras, com a tradução de Paulo César de Souza — primeiro grande projeto de “obras completas” traduzidas diretamente do alemão. Ainda assim, recebeu críticas por, em alguns casos, desconsiderar debates conceituais consolidados, mantendo termos como “instinto”.
Em 2013, com a publicação de As pulsões e seus destinos, a Editora Autêntica inaugura sua coleção Obras Incompletas, sob a coordenação de Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares. Um dos elementos distintivos dessa edição são os paratextos — ensaios e notas escritos por especialistas de diferentes regiões do Brasil — que discutem a recepção da obra freudiana no país.
Entre seus trabalhos mais recentes, nota-se a edição de luxo de A Interpretação do Sonho (no singular), que recoloca em primeiro plano o texto de Freud, frequentemente tomado como a carta de fundação da psicanálise.
Cabe ainda mencionar a L&PM Editores, com traduções de Renato Zwick, reconhecidas como uma alternativa consistente de tradução direta do alemão.
Traumdeutung, tradução (no) singular
É possível manter o estilo de um autor ao traduzir um texto?
Para responder a essa pergunta, recorremos novamente a Freud, em sua forma e conteúdo. Quando o autor nos apresenta a questão da negação, por exemplo, como observa Pedro Heliodoro, trata-se de um movimento em que negar, contestar e afirmar se articulam simultaneamente.
Para Heliodoro, a tradução se inscreve na ordem do impossível: é um trabalho que exige estar em constante diálogo com o autor, produzindo inevitavelmente restos.
Essa edição de A Interpretação do Sonho, traduzida diretamente do alemão, levou cinco anos para ser concluída. Consiste em um trabalho de caráter quase arqueológico, ao buscar, por exemplo, a identificação de cada uma das pessoas mencionadas por Freud no texto original — quem eram, afinal, os sonhadores.
Durante cerca de quinze anos, esse texto funcionou como um manual técnico de como se faz psicanálise. Para nós, que pesquisamos, nos debruçamos sobre textos e sustentamos uma escuta analítica, torna-se fundamental interrogar o que Freud pretendia — mesmo sem o domínio da língua alemã.
Conclusão
Se a psicanálise se funda sob o signo da não completude, sua transmissão não poderia se dar senão por meio de deslocamentos. Traduzir Sigmund Freud é, portanto, operar uma leitura situada, atravessada por uma língua, uma tradição e um tempo.
A Interpretação do Sonho permanece como um campo aberto, que se reconfigura a cada nova leitura — e, por que não, também à brasileira, entre tantas outras possíveis.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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