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Nos corredores da Universidade de Viena, Freud

“Se a psicanálise deve ou não ser ensinada nas universidades é uma questão a ser considerada de dois pontos de vista, o da psicanálise e o das universidades.”

Sigmund Freud, 1919


O que Josef Breuer (1842–1925), médico e fisiologista austríaco, Julius Wagner-Jauregg (1857–1940), Nobel de Medicina em 1927, e o psiquiatra austro-alemão Theodor Meynert (1833–1892) têm em comum, para além da medicina, com Sigmund Freud? Todos eles passaram pela Universidade de Viena.


Fundada em 1365 e localizada no centro da cidade, a universidade é reconhecida como uma das mais antigas da Europa — e, sobretudo, como um marco fundamental na trajetória de Freud, que parece circular por seus corredores, sem lugar fixo.


A rotina docente de Freud e os vestígios dessa história permanecem até hoje no ambiente universitário, configurando esse espaço como um ponto de inflexão em sua trajetória.


Vamos percorrer o passado e o presente desse local que é, ao mesmo tempo, cenário de formação e limite para o surgimento de uma nova prática.


Perspectiva histórica e urbana


A Universidade de Viena, fundada no século XIV, integra a rede pública de universidades da Áustria e figura entre as maiores da Europa de língua alemã, com aproximadamente 90 mil estudantes — número comparável ao da Universidade de São Paulo, aqui no Brasil.


A instituição é organizada em faculdades e centros que abrangem desde as ciências humanas até as ciências exatas e naturais, distribuídos em um conjunto de edifícios espalhados pela cidade.


Ela mantém ainda uma ligação histórica profunda com a Igreja dos Jesuítas de Viena (Universitätskirche), local tradicional para a realização de grandes cerimônias acadêmicas. Isso faz com que o cenário institucional da universidade seja simbolicamente marcado pela convivência entre tradição acadêmica, arquitetura histórica e a dinâmica contemporânea de Viena.


A universidade — em seu sentido mais amplo na cidade — transita entre a grandiosidade barroca e a vanguarda arquitetônica, consolidando-se como um espaço de saber que habita, simultaneamente, o clássico e o contemporâneo. Foi nesse espaço que Freud se formou médico, embora sem jamais se fixar plenamente nele.


Edifício da Universidade de Viena, Áustria, Maio/2025. Foto: Emília Ferrari.
Edifício da Universidade de Viena, Áustria, Maio/2025. Foto: Emília Ferrari.

O início da carreira de Freud


Sigmund Freud cursou Medicina na Universidade de Viena.


Quando iniciava seus estudos na instituição, a região onde hoje se encontra a universidade era muito diferente: grande parte dos edifícios monumentais que cercam a instituição ainda não existia, e ele cresceu caminhando por um gigantesco canteiro de obras enquanto a Ringstrasse era construída sobre os antigos muros da cidade.


Embora sua formação tenha ocorrido na universidade, foi no Hospital Geral de Viena (AKH) que o jovem Freud iniciou sua carreira prática. Ao trabalhar na ala psiquiátrica e observar tratamentos da época — como eletrochoques e banhos gelados —, começou a transferir a leitura dos sintomas do plano orgânico para o psíquico


Essa experiência foi fundamental para a “transição” que, posteriormente, levaria ao desenvolvimento da psicanálise. Foi também fora desses espaços formais que seu pensamento pôde se mover em direção ao que viria a se constituir como a chamada “talking cure”.


Freud, um professor “ambivalente”


Dr.Freud se torna professor de neurologia na Universidade de Viena. Embora não fosse particularmente apaixonado pelo ato de ensinar, valorizava o título de “Professor”, um traço descrito como tipicamente vienense, dado o peso social e o respeito que o cargo conferia.


Suas palestras semanais eram realizadas aos sábados, entre 19h e 20h. O horário foi escolhido de forma estratégica, na expectativa de que poucos estudantes comparecessem, permitindo-lhe manter o cargo acadêmico com o mínimo de envolvimento pedagógico.


É o que nos conta Claudia Muchitsch, da Alpine Foxes, em Viena, completando que Freud não demonstrava entusiasmo pela rotina de ensino, mantendo com a universidade uma relação mais ligada ao reconhecimento institucional do que ao investimento efetivo na sala de aula.


Essa posição encontra ressonância no texto de 1909, quando o próprio Freud observa que a psicanálise pode até ser ensinada na universidade, mas não é ali que se aprende, indicando uma distinção entre o ensino formal e a formação propriamente dita. Sua presença na universidade se dá, assim, mais como circulação do que pertencimento.


Corredores da Universidade de Viena, Áustria, Maio/2025. Foto: Emília Ferrari.
Corredores da Universidade de Viena, Áustria, Maio/2025. Foto: Emília Ferrari.

Universidade e legado


A Universidade de Viena mantém a memória de Sigmund Freud por meio de um busto comemorativo instalado em suas dependências. O objeto marca o período em que Freud atuou como professor e permanece como um elemento de memória ligado à sua trajetória.


A homenagem foi realizada em 1931, por ocasião de seu 75º aniversário. A iniciativa partiu de Paul Federn, que convidou o escultor Oscar Nemon para realizar o retrato. Nemon produziu versões do busto em madeira, bronze e gesso.


Curiosamente, Freud escolheu manter consigo o retrato em madeira, hoje preservado no museu dedicado a ele em Viena, na Berggasse 19. Já as demais versões foram utilizadas em homenagens institucionais.


Busto em homenagem ao Professor Dr. Sigmund Freud, na Universidade de Viena. Maio/2025. Foto Emília Ferrari.
Busto em homenagem ao Professor Dr. Sigmund Freud, na Universidade de Viena. Maio/2025. Foto Emília Ferrari.

O lugar da psicanálise


Se, como indicava Sigmund Freud, a psicanálise pode ser ensinada na universidade, mas não é ali que ela se aprende, sua própria trajetória em Viena parece sustentar essa afirmação.


Inserido em uma instituição marcada pela tradição da chamada “ciência oficial”, Freud encontrou reconhecimento formal, mas não o espaço para o desenvolvimento pleno de suas ideias.


Durante anos, a psicanálise permaneceu à margem do meio acadêmico, sendo recebida com resistência ou, por vezes, ignorada. Foi fora da universidade — no consultório, nas reuniões informais entre pares, na escuta clínica — que esse saber pôde se constituir.


Hoje, ao inscrever Freud em sua memória institucional por meio de bustos, arquivos e circuitos de visitação, a Universidade de Viena permite entrever um movimento: o de incorporar, retrospectivamente, aquilo que só pôde surgir fora de seus próprios limites.




Referências:

DW TRAVEL. Inside Freud’s Vienna: Where Psychoanalysis Was Born. Disponível em: YouTube. Acesso em: 14 abr. 2026.


LOUCO POR VIAGENS. Lugares imperdíveis em Viena, Salzburg e Innsbruck | Áustria. Disponível em: YouTube. Acesso em: 14 abr. 2026.


DW TRAVEL. Why Vienna is the world's most livable city: must-sees in Austria's capital. Disponível em: YouTube. Acesso em: 14 abr. 2026.


Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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