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Lacan e a Ilusão de Compreensão: Notas do Seminário 3

“Comecem por não crer que vocês compreendem.

Partam da ideia do mal-entendido fundamental.”

— Jacques Lacan, 1955-1956


O que será que Lacan quis dizer ao apontar que se parta do mal-entendido, da não compreensão?


Para nós, humanos, ávidos pela busca de sentido, essa indicação lacaniana poderia provocar um amplo debate no campo da linguística e de outras teorias sociais.


Inclusive, se iniciássemos este artigo com alguma frase sem sentido, isso certamente produziria algum efeito lógico, alguma diferença no decorrer da leitura; ouso dizer que seguiríamos por mais algumas linhas, fatalmente, em busca de sentido.


Mas é certo que, no campo lacaniano, essa indicação se faz coerente.


Do que se trata compreender, em psicanálise? Durante o trabalho de análise, você, analista, precisa compreender o seu paciente? O discurso dele precisa fazer sentido?


É sobre essa forma de pensar o mundo e estar nele que nos interessa isolar essa noção de compreensão e suas consequências, a partir de um recorte do que Jacques Lacan introduz no Seminário 3.


Por que queremos compreender? 


Apoiando nosso pensamento no campo das relações cotidianas — família, amigos, afetos —, no final das contas, queremos entender, compreender, a nós mesmos e aos outros. Talvez fosse preciso colocar em evidência o sujeito: queremos ser entendidos e compreendidos.


Em um percurso de análise, o sujeito neurótico busca saber por que repete certas coisas, entender suas escolhas e também o movimento que faz em torno de um ideal de relacionamento ou, sob a tutela do contemporâneo, de um ideal do “eu performático”.


Só que, ao articular a repetição, o que se repete não é da ordem do consciente; ao contrário, responde a uma lógica que caminha na contramão disso. O que, afinal, está em jogo quando buscamos sentido?

Para o professor e psicanalista Daniel Omar Perez, tanto do lado do analista quanto do analisando, não é disso que se trata. “Compreendemos tanto que não conseguimos fazer análise”, argumenta Daniel.


O impasse não está na falta de compreensão. A linguagem impõe seu limite e coloca em suspenso uma série de palavras que não se deixam apreender de pronto — ao menos no que tange à psicanálise lacaniana.


Para Lacan, é preciso sustentar os efeitos de uma cadeia significante. Partir do mal-entendido é uma posição que recoloca a escuta analítica para além da exigência de sentido.


A significação do delírio e a crítica à compreensão


Em resumo, no Seminário 3, Lacan formaliza a psicose como efeito de uma falha estrutural na ordem do significante, mostrando que o delírio é uma tentativa de recomposição de sentido diante dessa ruptura.


Para desenvolver o que Lacan chama de mal-entendido fundamental, tomamos como ponto de partida o capítulo 2, A significação do delírio.


Se, na neurose, a questão da compreensão já se apresenta como um problema para o analista, na psicose a tentativa de compreender o discurso do paciente pode obturar o próprio processo.


Lacan inicia sua elaboração criticando o uso do termo paranoia e distinguindo-o da noção de loucura, que, segundo ele, “é o termo fundamental do comum”. A advertência que nos dirige recai sobre a crença do analista de que é possível “entender” o paciente — o que, para Lacan, constitui um dos maiores erros na prática clínica.


Trata-se, portanto, de partir da ideia de que não compreendemos.

Aquele que compreende rápido demais ignora o fenômeno clínico.


Na psicose, o mundo se apresenta como saturado de significação: tudo parece querer dizer algo, ainda que o sujeito não saiba o quê. Ao tentar organizar esse excesso em um sentido lógico, o analista corre o risco de ignorar justamente a estrutura do delírio.


“É sempre no momento em que eles compreenderam, em que se precipitaram para satisfazer o caso com uma compreensão, que eles falharam na interpretação que convinha ou não fazer”, afirma Jacques Lacan.


A compreensão, longe de garantir uma boa escuta, pode justamente precipitar o erro. Ao tentar satisfazer o caso com um sentido, o analista corre o risco de fechar aquilo que deveria permanecer em aberto.


Nessa mesma direção, Daniel Perez intensifica a posição lacaniana: o ponto de partida da análise é um bom desencontro com o paciente. Não se trata de entrar com a ideia de “já entendi, compreendi”, mas de sustentar o mal-entendido como dispositivo que permite o avanço da análise.


O mal-entendido e a posição do analista


Somando-se à crítica de Jacques Lacan à compreensão antecipada, o professor e psicanalista Daniel Omar Perez aponta um desvio no próprio campo lacaniano: a transformação dessa crítica em um novo dogmatismo.


“Nada a compreender. No lacanismo virou um delírio, uma palavra atrás da outra, sem sentido. Se falava coisas que não se compreendia”, argumenta Daniel.


Se, por um lado, Lacan adverte contra a pressa em dar sentido, por outro, isso não autoriza uma deriva em que o discurso se torna vazio.


Como observa Daniel, em psicanálise não operamos com um conjunto de conceitos fechados — organizados em uma progressão didática que vai “do mais simples ao mais complexo” —, tampouco de repetir Lacan “como um papagaio”, acumulando termos sem elaboração.


O problema, portanto, não está em compreender, mas em compreender rápido demais, fechando o sentido de uma enunciação. Aquele clássico, “sim, entendi”.


“A interpretação elementar está na base das repetições, das reiterações”, indica Daniel, apontando para uma lógica que não se esgota na significação imediata.


O que resta, então, aos psicanalistas em formação, diante do mal-entendido como condição de possibilidade da análise? Sustentar essa posição em ato: seguir em análise, em formação, e, no percurso, produzir — não antecipar — suas próprias conclusões.







Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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