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O Pensamento Clínico de André Green

Quem é André Green na cena da psicanálise?

Como suas ideias contribuem para o manejo clínico contemporâneo?


Fique até o final deste texto. As contribuições de André Green para a psicanálise contemporânea — sobretudo no que diz respeito ao manejo clínico — são relevantes e, poderíamos dizer, essenciais para a compreensão das patologias emergentes.


Ao dialogar com diferentes e tradicionais matrizes teóricas, Green apresenta conceitos para pensar sofrimentos que escapam às formas clássicas de simbolização. Vamos conhecê-lo, situando a atualidade de seu pensamento na prática clínica.


Uma pequena biografia


André Green foi um psicanalista francês, nascido no Egito (1927–2012), formado em medicina, que desenvolveu uma obra original e segue influenciando o campo psicanalítico contemporâneo. Fez sua formação em Paris, onde acompanhou por sete anos os seminários de Jacques Lacan, e ocupou cargos importantes, como a presidência da Sociedade Psicanalítica de Paris.


Sua teoria tem base também na experiência pessoal. Do pai vieram os revezes financeiros; a perda da irmã impactou profundamente sua mãe, experiência que serviu de base para a formulação da teoria da “mãe morta”, a partir do contato com o luto materno.


Distanciou-se de Lacan em 1967, dando início a uma psicanálise dita “transmatricial”, uma vez que, além de Lacan, dialoga com Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e Wilfred Bion, articulando uma teoria clínica centrada em representações, afetos, negativo psíquico e narcisismo.


Quem nos apresenta Green é Alexandre Patrício de Almeida, no percurso As Transformações da Clínica. Justamente porque, para Patrício, “não dá para a gente pensar hoje em escolas de psicanálise; hoje a gente diz matriz ou linhagem.”


O Diálogo com as Matrizes


Além de Freud, Lacan, Klein, Winnicott e Bion, André Green se apoia também na matriz ferencziana, sobretudo no que diz respeito ao trauma psíquico, às falhas no narcisismo primário e aos processos de simbolização — situações em que o Eu não se estrutura, a criança não recebe investimento suficiente e há alguma forma de ausência do ambiente.


Sem a pretensão de reduzir sua vasta articulação teórica, vemos que Green amarra essas contribuições à questão pulsional e à angústia em Freud. É nesse ponto que nos aproximamos do que há de mais original em seu pensamento.


Se Freud formula, em 1926, que a angústia está ligada ao perigo — ou à sua iminência —, podemos pensar que, nesse caso, há uma estrutura simbólica em funcionamento. O sujeito teme e simboliza porque, de alguma forma, já passou por essa experiência anteriormente: trata-se de um retorno.


Green, por sua vez, trabalha com modos de organização psíquica nos quais essa capacidade de simbolização está ausente. O sujeito não chegou a desenvolvê-la, em termos de um narcisismo primário, e não dispõe de imagens capazes de sustentar essa cena, o que muitas vezes conduz ao colapso.


Alexandre Patrício observa que, nesses casos sensíveis, o narcisismo se construiu sob o domínio da pulsão de morte. Como afirma: “Se ele (o sujeito) tem oportunidade, ele pausa para se reinventar; senão, ele colapsa. E aqui falamos de algo que toca a maioria da nossa população. Ele cai num abismo sem fim. Numa depressão que, para mim, é a mais grave: a depressão sem tristeza.”


O Trabalho do Negativo


Em 1925, Sigmund Freud articula a questão da negação. Nas palavras de Alexandre Patrício, a negação representa uma dinâmica psíquica de reconhecimento sem aceitação. Negar não é apagar, mas sobretudo um modo de representação.


Como afirma Patrício: “Negar é pensar. Eu penso para manter a negação, eu penso para estruturar aquilo que eu não quero aceitar”.


André Green retoma a noção freudiana de negação e a amplia ao trabalhar com o conceito de negativo. Para Green, o negativo é aquilo que possibilita a passagem da ausência à representação da ausência — um operador fundamental da vida psíquica. Patrício explica tudo isso em detalhes durante o percurso na plataforma.


Daí decorre a proposta de Green de um trabalho do negativo: elaborar a ausência na presença, tornar possível dar sentido ao não sentido.


Clínica Contemporânea


Em Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte (1980) e, de modo emblemático, no texto A mãe morta, André Green aborda os dilemas clínicos ligados às falhas de investimento narcísico.


Para Green, quando a criança não recebe o investimento de “Eros” — indispensável para o chamado vir a ser —, instala-se uma função desobjetalizante: o sujeito não adere aos objetos, os vínculos tornam-se efêmeros, sem implicação libidinal.


Alexandre Patrício aponta que, diante de um ambiente que falha em acolher, o sujeito pode retornar a esse estado de não ser, marcado por uma profunda desvitalização psíquica. É nesse contexto que Green descreve a angústia branca: um afeto cru, descolorido, que não aponta para um objeto nem para um perigo específico, mas para um vazio psíquico.


É justamente a possibilidade de elaboração da ausência que permite ao sujeito saber que algo não está lá sem que seu mundo interno entre em colapso. Essa elaboração sustenta a capacidade de tolerar a perda, o luto, o tempo, a separação e a diferença entre o eu e o outro.



conclusão


Entre um Eu mais forte e um Eu mais frágil, o manejo do analista torna-se crucial. Se há prejuízos no campo simbólico, não se trata de interpretar, mas de sustentar as condições para que algo possa, enfim, ser representado.


Aqui está a atualidade do pensamento clínico de Green: ao orientar a clínica para os limites da simbolização, ele convoca o analista a uma posição que leve em conta o negativo, a ausência e os modos singulares de sustentação do Eu.





Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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