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Os primeiros casos de Sigmund Freud

Atualizado: 16 de fev.


De que padeciam seus primeiros pacientes? Geralmente pensamos que um tratamento psicanalítico começa com um mal-estar, com uma dor, com um sofrimento. Uma pessoa procura análise porque supõe que, de algum modo, sua vida não está como ela desejaria que estivesse. Há algo ali que padece. Mas não se trata de qualquer dor, qualquer sofrimento, qualquer mal-estar que conduz uma pessoa à análise.

Para podermos compreender a especificidade desse início do tratamento psicanalítico, no episódio #39 do ESPECast, disponível nas plataformas YouTube, Spotify e ao final dessa matéria, o professor Daniel Omar Perez nos sugere que recorramos ao início da própria psicanálise e nos convida a analisarmos como o próprio Freud acolheu a esses primeiros modos de dor, de sofrimento, de mal-estar e os levou adiante.



 

FREUD COM BREUER - ESTUDOS SOBRE A HISTERIA


Entre os anos 1880 e 1895, o Dr. Sigmund Freud já havia estudado medicina em Viena, já havia feito sua residência médica em Paris com Dr. Charcot e está, neste período, trabalhando em Viena com o Dr. Joseph Breuer. Joseph Breuer. Importante médico nascido em 1842 e falecido em 1925, ou seja, cuja trajetória remonta ao final do século XIX e início do século XX, justamente quando se dá o surgimento e o desenvolvimento da clínica psicanalítica.

Breuer era um médico mais velho, mais experiente, e então, ele e Freud trabalharam juntos em alguns casos que, posteriormente, em 1895, foram publicados com o título de Estudos Sobre a Histeria. Este volume se compõe de cinco casos - alguns de Freud e outros de Breuer - e de um estudo – Psicoterapia da Histeria - e são, como nos coloca o professor Daniel no episódio, a porta de entrada da psicanálise.


Muitos compreendem que a psicanálise nasce com A Interpretação dos Sonhos em 1900 e que os textos anteriores a ele seriam textos pré-psicanalíticos, ou, a pré-história da psicanálise. Esta pré-história, porém, de algum modo, contém quase que boa parte dos conceitos e das noções do dispositivo clínico que Freud vai desenvolver no século XX. Estudos sobre a Histeria faz parte deste conjunto de textos. Nele encontramos cinco casos: Srta. Anna O, Sra. Emmy von N, Miss Lucy, Katharina e Srta. Elizabeth von R. Todos estes nomes, é claro, são nomes de fantasia, pois era necessário manter o anonimato das pacientes, mas depois a história da psicanálise, a investigação do contexto, de cartas e outros fatores acabaram por revelar o verdadeiro nome de cada uma dessas cinco pacientes e muitos historiadores acabaram por fazer uma história dessas próprias pacientes, tornando possível até mesmo saber o que aconteceu a elas posteriormente, depois de suas análises. Não é do nosso interesse neste momento saber qual foi o verdadeiro nome delas, mas sim focarmos no sofrimento do qual elas padeciam e como é que a psicanálise se iniciou em seus primórdios, em sua pré-história, e que tipo de sofrimento específico ela abordava. O MÉTODO CATÁRTICO O método usado nesse período é o método proposto pelo próprio Joseph Breuer denominado método catártico. Este método consistia na evocação de lembranças de situações traumáticas do paciente que estariam vinculadas à aparição de seus primeiros sintomas, neste caso, histéricos. Dito de outro modo: se supõe que existem eventos traumáticos na história do paciente, muitas vezes esquecidos, jogados para um canto da memória desse paciente. Ao provocar a evocação dessas lembranças por parte do paciente, o método promoveria então a cura desses sintomas. À medida que o paciente falava sobre esses eventos, em análise, em um processo de trabalho com o médico, ele parecia revive-los intensamente e assim, então, trazia, junto com a rememoração dele, a emoção ligada a esse evento traumático. O uso da hipnose e da sugestão auxiliava o paciente no processo de reencontro com esses episódios traumáticos. ANNA O.


A senhorita Anna O. tinha 21 anos de idade. Sofria com uma tosse, com variações de humor, tinha problemas na vista, apresentava paralisia do lado direito do corpo, ausência de consciência, alucinações, problemas na linguagem, além de outros sintomas. Ela foi paciente de Breuer e foi com ela que a técnica da associação livre na terapia começou a ser utilizada. “É Anna O, de algum modo quem, a partir desses sintomas, se apresenta para o médico e, nessa relação com ele, começa a falar corriqueiramente tudo aquilo que lhe vem à cabeça. E a partir daí começa a fazer a associação livre e começa o processo de retomada daqueles eventos traumáticos esquecidos.” – nos diz Daniel prontamente no episódio, destacando este fato importante do caso Anna O.



SRA. EMMY VON N. A Sra. Emmy Von N foi paciente de Freud. Tinha 41 anos de idade, era viúva e apresentava sintomas como angústia, depressão e fobias. Foi ela quem advertiu a Freud que quem falava em terapia era a própria paciente. Há uma célebre passagem no caso onde Emmy von N. diz a Freud: “Fique quieto! – Não diga nada! – Não me toque!” Assim, portanto, assim como Anna O. introduziu o processo de associação livre, a Sra Emmy Von N, com essa frase, destaca o lugar de fala, de enunciação do sujeito, que então traz o seu sintoma e o seu mal-estar.

MISS LUCY Miss Lucy tinha 31 anos de idade e apresentava como sintomas rinite crônica, perda completa do olfato e, apesar disso, relatava sentir dois cheiros estranhos. Sofria também de depressão, cansaço crônico, perda de apetite, relatava sensação de peso na cabeça e dizia que não podia fazer nenhum tipo de atividade. Assim ela se apresenta para análise.

SRTA. ELIZABETH VON R. A srta. Elizabeth Von R. tinha 24 anos de idade. Padecia de violentas dores nas suas pernas e tinha uma grande dificuldade para caminhar. Com ela se tornou clara para a Freud a experiência de como tornar consciente o inconsciente para fazer dissolver o sintoma. Dito de outro modo, Freud percebeu como que o trauma, de alguma forma esquecido, aparecendo na consciência, ou seja, emergindo do inconsciente e passando para a consciência, permitia a dissolução do sintoma. “Tornar consciente o inconsciente seria o movimento do processo analítico.” – nos esclarece Daniel.


Daniel não faz menção no vídeo ao caso Katharina. “Esses cinco casos estão bem detalhados nos Estudos sobre a Histeria, de 1895, e mostram tanto o tipo de dor, de sofrimento, de mal-estar que cada uma dessas pacientes traz para a consulta com o médico, quanto também nos mostram os procedimentos técnicos do nascimento da psicanálise e também os procedimentos técnicos da prática psicanalítica durante todo o século XX.” – conta Daniel.



OUTROS TEXTOS IMPORTANTES

a) SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PARA SEPARAR A NEURASTENIA DE UM DETERMINADO COMPLEXO DE SINTOMAS COMO "NEUROSE DE ANGÚSTIA" (1985)


Junto de Estudos sobre a Histeria, nos primórdios da psicanálise encontramos outro texto que se chama Sobre a justificação para separar a neurastenia de um determinado complexo de sintomas denominados como neuroses de angústia, de 1895.


Quando redige este texto, Freud já havia terminado sua residência e retornado a Viena. Ali ele abre seu consultório e começa a trabalhar com outros médicos, recebendo casos clínicos e, ao mesmo tempo, estudando, escrevendo histórias clínicas e as estudando, tentando dar conta de algum dispositivo teórico que lhe permitisse acolher situações de sofrimento e dar um encaminhamento a elas. Dessa forma ele tenta separar o que seria da ordem da histeria do que seria da ordem das neuroses de angústia, assim como o que significaria um sintoma de conversão e o que significaria um sintoma somático. Neste texto Freud tenta dirimir aquilo que é da ordem da neurose de angústia. Nele aparecem uma série de fenômenos que ajudam a delinear o objeto em questão. Quando redige este texto, Freud já havia terminado sua residência e retornado a Viena. Ali ele abre seu consultório e começa a trabalhar com outros médicos, recebendo casos clínicos e, ao mesmo tempo, estudando, escrevendo histórias clínicas e as estudando, tentando dar conta de algum dispositivo teórico que lhe permitisse acolher situações de sofrimento e dar um encaminhamento a elas. Dessa forma ele tenta separar o que seria da ordem da histeria do que seria da ordem das neuroses de angústia, assim como o que significaria um sintoma de conversão e o que significaria um sintoma somático. Neste texto Freud tenta dirimir aquilo que é da ordem da neurose de angústia. Nele aparecem uma série de fenômenos que ajudam a delinear o objeto em questão. Tudo isso aparece na sintomatologia da neurose de angústia. Freud então vai tentar fazer uma listagem, uma classificação, tanto dos elementos fenomenológicos do paciente quanto das articulações desses fenômenos.

“Na teoria freudiana, a neurastenia é originada pela inadequação da ação de descarga da tensão sexual. A economia insatisfatória da energia sexual estaria na origem da neurastenia. Seu sintoma nuclear ou mais frequente é uma expectativa ansiosa ou angústia flutuante, a irritabilidade, a hipocondria, a angústia moral, a angústia difusa e sintomas somáticos como falta de ar.” – nos narra Daniel no episódio citando o texto de Freud e pontuando logo depois a maneira como Freud acolhe o paciente em sua dor, em seu sofrimento, e observando e descrevendo o horizonte fenomênico de todos esses sintomas ao mesmo tempo em que tenta dar conta, teoricamente, de qual seria o surgimento desses sintomas. “Estamos vendo que se trata de um sintoma histérico que tem sua base em um trauma esquecido, mas Freud vai introduzir elementos de uma teoria da sexualidade, vai nos dizer que a repressão sexual opera de algum modo para que esse trauma se atualize na forma de um sintoma” – pontua o professor.

b) MANUSCRITO D - SOBRE ETIOLOGIA E A TEORIA DAS PRINCIPAIS NEUROSES²


Ainda nos textos entre os anos de 1894 e 1895, há um manuscrito que está incluído nos documentos de Freud dirigidos ao amigo Wilhelm Flieβ, um médico com o qual Freud tem um grande trato depois de Breuer, intitulado Manuscrito D. Nele Freud descreve o mecanismo das neuroses da seguinte maneira: “As neuroses como traumas ou como transtornos do equilíbrio provocados pelo impedimento da descarga. Tentativas de compensação de eficiência limitada. Mecanismo das distintas neuroses em relação com sua etiologia, afetos e neuroses.” – Trecho do Rascunho D transcrito aqui como lido no vídeo pelo professor. Neste ponto aparece a questão da angústia, das neuroses de angústia, das angústias dos pacientes e Freud tenta dar conta delas, dessa angústia que vêm com a dor de seus pacientes.


c) MANUSCRITO A


No final do século XIX, Freud entendia a angústia como uma transformação da energia sexual que não podia ser adequadamente descarregada em um objeto. Pensou também que ela poderia ser a reação a um perigo. No Manuscrito A, também presente neste conjunto de documentos endereçados à Flieβ, aparecem algumas noções da neurose de angústia.


Neste documento, Freud entende a angústia como:

a) esgotamento devido a formas de satisfação inadequadas da energia libidinal.

b) inibição na função sexual

c) aparecimento de afetos concomitantes a essas práticas e traumas sexuais anteriores.



d) MANUSCRITO E (1894)


No manuscrito E, de 1894, encontramos as ideias de tensão sexual e de acúmulo de excitação. “Esse é um elemento interessante. Temos o trauma e temos os traumas sexuais vinculados com o acúmulo de excitação sexual.” – nos pontua Daniel.


e) OBSESSÕES E FOBIA (1895) Em outro texto, também de 1895, intitulado Obsessões e Fobias – Seu Mecanismo Psíquico e sua etiologia, Freud explica que nas fobias aparece a angústia, enquanto que nas obsessões aparecem estados emocionais tais como dúvida, remorso ou raiva. Neste ponto concluímos que a fobia é de outra ordem e a neurose obsessiva de outra. A fobia conduziria a uma certa angústia e segundo Freud, nessa época, a neurose aparece associada a outros estados emocionais.



O QUE ESTARIA EM JOGO ENTÃO PARA O TRATAMENTO PSICANALÍTICO?


Daniel nos pontua no episódio que o que estaria em jogo não seria destacar a emoção como problema fundamental, já que para Freud a emoção seria consequência de um mecanismo anterior. A psicanálise, portanto, não seria sobre abordar a emoção, e sim sobre analisar a fala do paciente para se chegar ao mecanismo produtor dessa emoção. A emoção, portanto, não seria tomada como elemento originário, e sim como elemento secundário.

As fobias são parte das neuroses de angústia, vai nos dizer Freud em 1895. Parafraseando o professor Daniel, podemos dizer que as fobias são aqueles medos que a gente tem que são aparentemente sem sentido. Nós podemos ter medo diante de uma situação de perigo, ou seja, estamos diante de uma situação de perigo e sentimos medo. A fobia é quando nós sentimos medo de um animal, por exemplo, com o qual não temos contato. É um medo de outra ordem, que não é aquele iminente que está diante de nós.

A Neurose de Angústia como padecimento

O quadro clínico da neurose de angústia é descrito por Freud da seguinte maneira:

a) Irritabilidade geral

b) acúmulo de excitação

c) incapacidade de tolerar o acúmulo

Freud também destaca, segundo Daniel, que a expectativa de angústia, a expectativa de um possível sentimento de medo geral, sem representação ao qual se dirigir, pode se transformar em um verdadeiro ataque de angústia.


Outro elemento clínico apresentado por Freud: a neurose de angústia pode vir acompanhada da diminuição da libido e, consequentemente, da diminuição do desejo. O afeto de angústia é descrito fundamentalmente como a sensação de incapacidade de lidar com o perigo externo. De acordo com Freud, o paciente, diante da incapacidade de lidar com a excitação sexual do próprio corpo, projetaria atenção ao mundo externo. Incapaz de encontrar então um objeto psíquico onde descarregar essa excitação, o paciente então produziria, na angústia neurótica, um sintoma.


“Daqui se deriva um encaminhamento de trabalho que consiste em elaborar uma posição do sujeito capaz de encontrar a possibilidade de achar um objeto de escoamento da energia libidinal, reconstituindo assim o circuito pulsional, o modo de descarregar a energia do corpo. Ao mesmo tempo, diminuir a tensão ou excitação do corpo que se manifesta na angústia.” – relata Daniel, nos alertando que Freud vai mudar a sua teoria da angústia no texto Inibição, Sintoma e Angústia, mais adiante em sua teorização. Neste período primórdio, Freud está tratando este sofrimento, essa dor, esse mal-estar, que de algum modo vem com o paciente tomado pela angústia – nos casos das neuroses de angústia – como uma situação onde há um acúmulo de excitação sexual que precisa ser escoada.



CONCLUSÃO O que traz o paciente para análise, de acordo com Freud, em seus primórdios, em seus primeiros casos, é o sofrimento. O início do tratamento, então, está em um mal-estar que não encontra uma solução em um esforço a ser realizado ou em um medicamento a ser tomado. Para concluir, Daniel nos apresenta um trecho de outro texto, Sobre o Início do Tratamento, de 1913:

"O motor mais direto da terapia é o sofrimento do paciente e seu desejo de cura daí decorrente. Do tamanho dessa força motriz será descontada muita coisa que virá a ser revelada apenas ao longo da análise, principalmente o benefício secundário da doença, mas a própria força motriz precisa ser mantida até o fim do tratamento; cada melhora provoca uma diminuição deste.” ³


É assim, então, como começam os casos clínicos abordados por Freud e como começa um tratamento psicanalítico: com uma queixa a respeito de um sofrimento, a uma dor, que se repete e não permite que o sujeito leve adiante sua vida.


Para quem quiser avançar mais sobre os casos clínicos de Freud e Lacan, a dica é acessar a plataforma do ESPEcast e acompanhar os resultados das pesquisas publicadas de outros psicanalistas e de outros praticantes teóricos da psicanálise.


Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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