A bissexualidade psíquica e a complexidade do desejo
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"Um sintoma histérico é expressão, por um lado, de uma fantasia sexual inconsciente masculina e, por outro, de uma feminina."
— Sigmund Freud, As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade (1908)
Sendo Freud um homem de seu tempo — marcado pela moral vitoriana e pelas concepções científicas do início do século XX — seria anacrônico supor que ele estivesse discutindo gênero e sexualidade nos mesmos termos em que esses temas são pensados hoje.
Ainda assim, sua obra produziu um afastamento das explicações que buscavam reduzir a sexualidade humana à anatomia ou a uma suposta ordem natural. Em vez de tomar o desejo como um destino biológico, Freud passou a investigá-lo como uma construção psíquica, atravessada pela história singular de cada sujeito.
Mas como um mesmo sintoma poderia expressar fantasias masculinas e femininas ao mesmo tempo? A pergunta conduz a uma descoberta importante da psicanálise: a sexualidade humana é mais complexa do que as classificações que tentam organizá-la.
A Nona Formulação de Freud
No texto As Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade (1908), Freud faz uma série de formulações na tentativa de descrever a natureza dos sintomas histéricos e sua relação com as fantasias inconscientes.
Entre elas, destaca-se a hipótese de que a disposição bissexual faz parte da constituição humana. Isso não significa afirmar que todos os sujeitos desejam homens e mulheres da mesma maneira, mas que a vida psíquica não se organiza segundo uma divisão simples e estanque entre masculino e feminino.
É nesse contexto que Freud propõe sua nona formulação, segundo a qual determinados sintomas histéricos podem expressar simultaneamente fantasias sexuais inconscientes masculinas e femininas. No entanto, ele próprio faz uma ressalva importante.
Freud reconhece que essa configuração não possui validade universal e não se aplica a todos os sintomas nem a todos os pacientes. Em muitos casos, afirma ele, os impulsos sexuais opostos podem aparecer separados, manifestando-se em formações sintomáticas distintas.
Ainda assim, insiste que a coexistência dessas posições em um mesmo sintoma merece atenção especial, por revelar um elevado grau de complexidade na organização psíquica. Trata-se, segundo o autor, de uma das formas mais sofisticadas de determinação sintomática, encontrada em estruturas que passaram por um longo trabalho de elaboração.
O que interessa a Freud não é provar uma fusão obrigatória entre masculino e feminino, mas demonstrar que a vida inconsciente pode articular identificações e fantasias de maneira muito mais complexa do que sugerem as classificações rígidas da sexualidade.
A Não Correspondência entre Anatomia e Desejo
Em alguns de seus casos clínicos, Freud examina que uma mesma manifestação sintomática podia condensar fantasias inconscientes aparentemente contraditórias, reunindo posições masculinas e femininas em uma única formação psíquica.
Essa observação desafia qualquer tentativa de estabelecer uma correspondência direta entre anatomia e desejo. Para Freud, o inconsciente opera segundo uma lógica própria, na qual diferentes posições subjetivas podem coexistir.
Como escreve o autor:
"A significação bissexual dos sintomas histéricos, demonstrável em numerosos casos, é certamente uma interessante prova da afirmação, por mim sustentada, que a disposição bissexual que supomos nos seres humanos pode ser vista com particular clareza nos psiconeuróticos, mediante a psicanálise."
A hipótese da bissexualidade psíquica, mais de um século depois, continua relevante por destacar que o desejo não pode ser reduzido a uma lógica binária nem explicado exclusivamente pela anatomia.
A escolha de objeto e a lógica da pulsão
Se a vida sexual não é determinada por uma correspondência exata entre anatomia e desejo, como compreender a escolha de objeto amoroso?
A resposta para essa questão começa a aparecer nos escritos freudianos sobre a sexualidade e ganha mais elaboração na metapsicologia. Em vez de explicar a sexualidade a partir do instinto, Freud passa a pensá-la a partir da pulsão.
O instinto, tal como observado no comportamento animal, possui um objeto relativamente fixo e uma finalidade biologicamente determinada. Sua função está ligada à conservação da vida e da espécie.
A pulsão, por outro lado, não possui um objeto naturalmente estabelecido. Embora tenha origem no corpo, ela encontra sua expressão no psiquismo e pode dirigir-se a diferentes objetos ao longo da história do sujeito.
Quem nos aproxima dessa compreensão é o professor e psicanalista Daniel Omar Perez:
"A pulsão seria uma carga de energia associada a um representante psíquico, a uma ideia, que de algum modo direcionaria o movimento desse impulso."
Para a psicanálise, a sexualidade é uma construção subjetiva, e o desejo se constitui a partir das marcas e dos percursos que atravessam a vida psíquica de cada indivíduo.
Implicações clínicas
No episódio do podcast sobre as fantasias histéricas, o professor Daniel Omar Perez reafirma a teoria freudiana da bissexualidade psíquica. Em suas palavras, os seres humanos estariam, a princípio, “abertos a ter qualquer objeto da pulsão independentemente da normatividade socialmente estabelecida”.
Nesse sentido, podemos pensar a heterossexualidade desocupando o lugar de destino natural da sexualidade humana para se apresentar como uma das formas possíveis de organização do desejo entre outras.
Todo sujeito é maior do que as categorias que o nomeiam. Uma escuta orientada pela singularidade do desejo não o reduz a normas, diagnósticos ou identidades pré-estabelecidas, mas sustenta a complexidade de suas formas de expressão.
Referências
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade (1908). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
PEREZ, Daniel Omar. As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade. YouTube, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zEP9O4eqxDc. Acesso em: 21 jun. 2026.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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