Fantasia e realidade psíquica: notas para uma leitura freudiana
- ESPEcast

- 13 de fev.
- 4 min de leitura
Is this the real life? Is this just fantasy?
(Isto é a vida real? Ou é apenas fantasia?)
- Freddie Mercury
Viver implica, desde sempre, enfrentar um desafio. Estar no mundo sem garantias. Ter consciência de si, sustentar uma existência e produzir algum sentido para a experiência são tarefas que se dão em meio ao acaso, à incerteza e à ausência de fundamentos.
Um processo de análise pode, em alguma medida, trazer à tona essa falta estrutural que outros discursos frequentemente tentam tamponar. Aquilo que se apresenta como promessa de sentido, estabilidade ou completude aproxima-se, muitas vezes, do campo da fantasia.
Sigmund Freud, em O futuro de uma ilusão (1927), interroga a religião. Seu objetivo não era apurar se essas crenças eram verdadeiras ou falsas, mas compreender por que os sujeitos precisavam acreditar nelas. A questão que se coloca, então, não é se vivemos ou não fantasiando, mas qual função essas construções cumprem na psique.
O problema da realidade
Como distinguir o que é da ordem da realidade daquilo que se constrói como fantasia? Como saber se o que vemos e vivemos corresponde ao mundo ou se não passa de produções de nossa própria mente?
Essa interrogação, enunciada originalmente por René Descartes (1596–1650), atravessa a modernidade e encontra no cogito um pequeno ponto de certeza: mesmo que tudo seja ilusório, há um sujeito que pensa e duvida.
Vamos analisar como a psicanálise apresenta a noção de realidade psíquica, permitindo abordar a fantasia como mediadora da relação do sujeito com o mundo e com seu desejo, afastando a ideia de oposição à realidade.
A Função da Fantasia
É fato que estamos na vida, pensamos, criamos coisas e renunciamos a tantas outras. A renúncia pulsional, amplamente trabalhada pela religião, é também investigada por Freud.
Desse tema se desdobra o reconhecimento de que temos desejos, muitos deles irrealizáveis em função dos processos civilizatórios e culturais, e o produto final dessa equação, com sorte, é uma neurose.
A tentativa de renúncia é legítima, sobretudo quando se coloca o outro nessa equação, pois se torna evidente a necessidade de uma trava da lei para que seja possível uma vida mais agradável e harmoniosa para nós e, por consequência, para os outros.
Uma questão: seria possível viver um pouco melhor diante de tantas e infinitas possibilidades, na incerteza? Se sim, como tornar aquilo que se apresenta na vida mais palatável, mais tranquilo ou menos custoso em termos de sacrifício?
Entre o sujeito e a realidade
Um elemento fundamental que realiza essa mediação entre o sujeito e a realidade é a fantasia. Trata-se de um tema caro à psicanálise, que permite compreender muitos dos processos psíquicos e que promove, inclusive, um certo apaziguamento na relação com aquilo que a realidade apresenta.
“A fantasia é a maneira como eu sempre vou ao outro levando comigo alguma coisa que se interpõe entre eu e o outro”, explica o professor e psicanalista Alexandre Simões.
Na psicanálise, quando falamos de fantasia, não nos referimos a algo “imaginativo”. Em Freud, a fantasia é um conceito fundamental que descreve a estrutura básica por meio da qual o sujeito percebe, organiza e se relaciona com a realidade. Ou seja, ela opera a chamada “realidade psíquica”.
Freud percebeu que a relação dos sujeitos com os objetos e com as pessoas é sempre mediada por investimentos, expectativas e construções internas. Podemos pensar a realidade psíquica como sendo o único meio pelo qual conseguimos lidar com a realidade.
Fantasias Fundamentais
Em 21 de setembro de 1897, Freud escreve a Wilhelm Fliess, seu interlocutor e amigo, confiando-lhe um segredo, nas palavras do próprio Freud: “Não acredito mais em minha neurótica” [Neurotika]. A partir dessa afirmação, ele desenvolve uma argumentação teórica extensa para justificar sua descrença.
Com esse gesto, Freud abandona a teoria da sedução, segundo a qual os sintomas de seus pacientes teriam necessariamente uma origem traumática real, como uma sedução sofrida na infância por um adulto. Ao perceber que muitos desses relatos funcionavam como encenações internas, Freud passa a considerar a existência de uma realidade psíquica.
A fantasia passa, então, a responder a grandes enigmas existenciais, como a origem do desejo, a diferença entre os sexos, a relação entre os pais. Mas não apenas isso.
A fantasia como gramática do desejo
O professor e psicanalista Christian Dunker observa que essas construções oferecem ao sujeito uma “gramática de simbolização” para o seu próprio desejo e para o desejo do outro.
Alexandre Simões complementa essa formulação ao afirmar que a fantasia é a maneira precisa pela qual o sujeito se localiza e se apresenta diante daquilo que lhe falta, o objeto. Ela articula a relação entre o sujeito e o objeto de busca, podendo expressar tanto um desejo de completude e conexão quanto a marca da separação e da distância entre eles.
Na prática, a fantasia dita as regras do jogo nas relações. Rituais como o Carnaval e o Natal podem ser compreendidos como fantasias coletivas, que organizam trocas simbólicas e permitem que o desejo apareça ou seja velado.
conclusão
No tratamento psicanalítico, a fantasia constitui uma chave para a leitura dos sintomas, uma vez que estes são “multideterminados” por ela. O sujeito pode sofrer ao ficar aprisionado em papéis sociais baseados no que ele imagina que o Outro espera dele.
Na perspectiva clínica, é possível recorrer ao diagrama de Venn*, como recurso ilustrativo. Se tomarmos o sujeito como um conjunto e a realidade como outro, a intersecção entre ambos permite localizar aquilo que a psicanálise denomina realidade psíquica.
O trabalho analítico possibilita, assim, a elaboração da fantasia que organiza o desejo e orienta as escolhas de objeto do sujeito.
*O diagrama de Venn, formulado por John Venn em 1880, é um recurso gráfico para representar relações entre conjuntos. Neste artigo, seu uso é apenas ilustrativo e metodológico, auxiliando a pensar a realidade psíquica como campo de intersecção entre sujeito e realidade, sem pretensão de equivalência conceitual.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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