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A Escuta, o Tempo e a Palavra na Clínica do Suicídio

10 de set.
4 min de leitura

“Quando falo de cartas, falo que o suicídio,

por mais que seja um ato solitário, inclui o destinatário.”

— Marcelo Veras, psicanalista


Um pai invade a UTI de um hospital na Bahia carregando seu filho desacordado nos braços. Imediatamente, a equipe inicia o procedimento para reanimar o garoto, que teria entre três ou quatro anos. A situação era grave. O garoto estava praticamente sem sinais vitais.


Porém, havia algo mais conflituoso em cena: a presença do pai, também médico, observando os colegas, que, a qualquer momento, poderiam ter de encerrar a manobra, a tentativa de reanimar o filho.


Chega um momento em que o pai e o médico se entreolham. O pai fita o médico e diz: “Eu sei, mas tenta mais um pouquinho”. O pedido de um pai aflito foi uma chave de leitura para a complexidade que é lidar com a vida e também com a morte.


Como é que se para uma reanimação cardíaca de um filho com o pai olhando a cena?


Essa pergunta é real, a narrativa também é real, e o médico na cena é o psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras. Ele relata esse episódio logo nas primeiras páginas do livro A morte de si, em que reúne sua trajetória de escuta clínica, sobretudo na clínica do suicídio.


A criança sobreviveu. E o Dr. Marcelo recusa a chancela de salvador. “Eu nunca disse para ele que o que salvou, talvez, o filho dele foi o olhar dele na cena, porque nós teríamos seguido todos os protocolos, ficaríamos arrasados, mas teríamos parado aquela reanimação”.


E o leitor pode estar se perguntando: mas esse texto não é um texto sobre suicídio? A resposta é sim. E o gancho com essa história está exatamente no que o pai disse ao médico, durante aquele momento de aflição.


O “tentar mais um pouco”, durante uma escuta clínica, sem garantias, pode ser o intervalo que esse sujeito em sofrimento precisa para manejar e mudar sua posição diante do insuportável.


Da observação à escuta


Marcelo Veras conta no livro que, durante seu trabalho em um hospital de Paris, próximo a um centro de análises toxicológicas, lidava diariamente com pessoas que tentavam suicídio por essa via.


Um dado importante: é comum que pessoas tentem suicídio pela ingestão de drogas lícitas e/ou substâncias nocivas. Mas esse dado é revelado pelos casos que são comprovadamente registrados como tal. Veras aponta para um outro lado, distanciando-se de algumas ideias, como a de “reduzir a taxa de suicídio a zero”.


Essa meta seria praticamente impossível de ser alcançada pelo fato de que há inúmeros casos realizados silenciosamente. “São pessoas que desistem da vida em silêncio, discretamente, sem que saibamos ao certo”, argumenta Marcelo.


Isso aponta para a complexidade de uma clínica que escuta esse tipo de evento.


Não que seja mais ou menos grave que outros pacientes, mas o fato de dar termo à vida é um ato radical. Nesse viés, Marcelo Veras propõe que a clínica do suicídio se estabeleça na contramão de protocolos rígidos ou da classificação puramente estatística, configurando-se como uma “clínica nos extremos”, operada estritamente sob a lógica do caso a caso e do “um a um”.


Podemos pensar que, enquanto a medicina tradicional tenta lidar com o fenômeno de forma observacional e padronizada, a escuta analítica propõe-se a ler o ato como uma mensagem subjetiva, sustentando a premissa de que o sujeito que tenta o suicídio, de alguma maneira, endereça uma carta ou sinal ao Outro.


Nesse limiar entre a vida e a morte, o analista pode tomar distância de uma postura heroica de salvamento ou vigilância — diante das quais a clínica deve admitir sua impotência estrutural — para posicionar-se como “ao menos um” que sustenta a escuta no fundo do poço.


Ao oferecer a sua escuta, o analista consegue introduzir o tempo onde antes imperava o imediatismo do ato, alargando o compasso da angústia para que o sujeito possa, quem sabe, restabelecer sua relação com a falta e com a vida.


Do Ato À Palavra


O que leva alguém a querer ser escutado se o pano de fundo de sua vida, superficialmente, seria o rompimento dos laços com as pessoas e, no caso do suicídio, com todas elas?


Por que, ainda assim, mesmo que seja por uma sessão, ele usa esse tempo e espaço para colocar em palavras a sua história?


Embora o pano de fundo pareça ser o rompimento de todos os laços, a psicanálise nos mostra que é impossível nos desinscrevermos totalmente do campo do Outro, pois somos constituídos por ele e falamos através das palavras que dele herdamos. Veras defende a ideia de que todo suicida dirige uma “carta” ou sinal ao Outro, mesmo que não de forma literal ou escrita.


O ato ou a intenção radical do suicídio não visa ao isolamento absoluto, mas é, na verdade, uma “experiência radical de tentar fazer falta a esse outro”, para ver se, a partir dessa falta, o sujeito consegue ser reconhecido e resgatar algo do amor perdido.


Veras coloca que se sofre de forma intolerável justamente quando se sente que não se pode mais faltar para ninguém. Portanto, colocar a história em palavras em uma sessão é a materialização direta desse endereçamento: é a tentativa de fazer com que essa “carta” encontre, finalmente, um leitor.


“Dilatar o tempo” da angústia


Segundo Marcelo Veras, quem pensa em dar termo à vida encontra-se, muitas vezes, esmagado por um presente insuportável e por uma perda radical de perspectiva de futuro. Na contemporaneidade, isso é agravado pelo imediatismo da cultura que nos faz agir no instante, como se pudéssemos simplesmente se “deletar” ou “cancelar” a si mesmo.


A palavra e o espaço de uma sessão podem funcionar como uma barreira contra essa pressa do ato. Ao acolher a fala do sujeito e introduzir a dimensão do tempo — através de combinados simples, como “amanhã você vai me ligar” ou “nos vemos na quarta-feira” —, o psicanalista pode “dilatar o tempo da angústia".


Esse prolongamento do tempo pode retirar o sujeito do curto-circuito do ato imediato e abrir espaço para que ele se reposicione subjetivamente, ou seja, encontre saídas possíveis que não a própria morte.






REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


VERAS, Marcelo. A morte de si. São Paulo: Cult Editora, 2023.



Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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