Depressão como situação clínica: luto e melancolia em Freud
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Também o que é doloroso pode ser verdadeiro.
- Sigmund Freud, 1916
Encontramos no ensaio A Transitoriedade (1916) uma das mais belas inscrições freudianas acerca da vida e de suas perdas. Ao final do texto, Freud nos acena com uma promessa de reconstrução: “Superado o luto, perceberemos que a nossa elevada estima dos bens culturais não sofreu com a descoberta da sua precariedade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terrenos mais firmes e de modo mais duradouro do que antes”.
Embora essa inscrição possa ser erguida ao estatuto de meta subjetiva para o sujeito em trabalho de luto, não devemos nos deixar levar apenas pela poética. É preciso considerar o "problema econômico" da dor e do desamparo imputados ao sujeito em sofrimento psíquico.
É fundamental analisar que a depressão, enquanto categoria descritiva na psiquiatria, constitui uma "constelação sintomática", como observa o psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira.
No campo da psicanálise, Sigmund Freud e Jacques Lacan debruçaram-se sobre estados de luto, melancolia e as patologias do desejo, indicando o caminho para apreendermos o que a palavra “depressão” implica quando aparece no set de análise.
É desse horizonte que parte nossa investigação. Vamos percorrer os textos inaugurais de Freud para pensar como o luto e a melancolia nos ajudam a refletir o campo da depressão.
Descrição psiquiátrica e problema clínico
Desde seus primeiros escritos, Freud trabalha em interlocução direta com as categorias psicopatológicas já constituídas pela medicina e pela psiquiatria de seu tempo. As noções clínicas que atravessam sua obra são categorias herdadas de uma tradição já existente e esse é um ponto importante para situar o termo “depressão” no campo psicanalítico.
No âmbito da psiquiatria, a depressão constitui uma categoria fundamentalmente descritiva, organizada em torno de um conjunto relativamente estável de sinais e sintomas.
Como observa o professor Mario Eduardo, trata-se de uma constelação sintomática marcada por tristeza profunda, perda de interesse pelo mundo e pela vida, esvaziamento do desejo e diminuição da energia vital — designada como abulia —, acompanhada de culpa, auto recriminação e, em quadros mais graves, ideias de desaparecimento ou passagem ao ato.
Essa descrição é clinicamente relevante, sobretudo como orientação prática no campo da saúde mental, mas não corresponde a uma estrutura psíquica.
Do ponto de vista da psicanálise, a depressão designa uma forma de apresentação do sofrimento psíquico, configurando-se como um problema clínico cuja abordagem se orienta pela interrogação singular que leva um sujeito a se dizer e a se apresentar como deprimido.
Podemos dessa maneira sustentar que Freud, embora não tenha elaborado uma teoria da depressão, se dedicou à melancolia, ao luto e aos destinos do narcisismo, operadores conceituais que permitem hoje pensarmos a incidência da perda e do desamparo na constituição do sujeito.
Depressão em análise: a posição do psicanalista
Diversas formas de sofrimento podem levar um sujeito a buscar ajuda clínica, e a depressão é uma delas — talvez a mais evidente no cenário contemporâneo. Com frequência, ela atravessa diferentes dispositivos clínicos antes de chegar ao encontro com o psicanalista.
Ao encontrar a psicanálise, a depressão passa a se constituir como uma interrogação, apontando para o modo como essas manifestações incidem sobre um sujeito singular. A questão deixa de ser “o que o sujeito tem” para se tornar “o que se passa com ele” quando se diz deprimido.
Sujeitos inscritos em estruturas distintas — neurose ou psicose — podem apresentar manifestações semelhantes, como tristeza, inibição, retraimento ou esvaziamento do desejo, sem que isso implique a mesma lógica subjetiva. Esse conjunto sintomático sinaliza um impasse na relação do sujeito com o desejo e com o laço social.
É esse impasse que orienta a escuta analítica: investigar de que modo o sujeito se encontra implicado na situação depressiva da qual se queixa.
Freud e a melancolia
Se a depressão direciona o psicanalista a interrogar as condições singulares do sofrimento, é na melancolia que Freud encontra algo capaz de sustentar essa investigação.
Os primeiros esboços freudianos sobre a melancolia surgem nas Cartas a Fliess e no Rascunho G (1895), quando Freud se confronta com quadros de grande intensidade clínica. Nesses textos, a melancolia se apresenta como um fenômeno que não se reduz a uma perturbação simples.
Nessas correspondências com Wilhelm Fliess, Freud trabalha a melancolia numa série de anotações, oscilando entre a hipótese de uma neurose grave e a proximidade com quadros psicóticos. Mario Eduardo observa que essa indeterminação registrada por Freud indica o lugar da melancolia: o eu encontra-se profundamente comprometido pela experiência da perda.
No luto, o desligamento libidinal do objeto pode se realizar progressivamente; na melancolia, esse processo encontra-se comprometido, fazendo com que a perda incida sobre o próprio Eu, sob a forma de rebaixamento da autoestima e autoacusação.
Freud indica, por fim, que as eventuais bases orgânicas da melancolia não constituem o foco da investigação psicanalítica, uma vez que o problema central diz respeito ao destino da libido.
Desse modo, a depressão pode ser pensada, na psicanálise, como uma nomeação contemporânea das diferentes formas que o sujeito lida com a perda e o destino que lhe confere.
Conclusão
A questão que permanece em aberto é justamente essa: o que o sujeito fará com a perda, e qual será o destino libidinal desse afeto?
Ao final de Luto e Melancolia (1917), Freud adverte que “a inter-relação dos complexos problemas psíquicos nos faz interromper cada investigação e deixá-la inconclusa, até que os resultados de uma outra possam vir em auxílio dela”.
É seguindo essa orientação que convidamos o leitor a percorrer as aulas complementares do percurso Depressão na Clínica Psicanalítica, com Mario Eduardo Costa Pereira, disponíveis na plataforma para assinantes, para alcançar novos saberes nessa temática.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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