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A História da Psicanálise: Forma e Conteúdo

3 de set.
4 min de leitura

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo;

todos são parte do continente, uma parte de um todo.”

John Donne


Por muito tempo, a história da psicanálise se confundiu com a historiografia de Sigmund Freud. A narrativa do percurso de sua vida e obra acabou se tornando a base e o fundamento da própria história da psicanálise.


O ponto de partida era uma narrativa biográfica: Freud como protagonista, e tudo mais que aconteceu ficando na periferia. Mas estar na periferia da narrativa não significa que não tenha existido.


Evidentemente, a psicanálise pode ter iniciado a partir das elaborações de Freud, de suas pesquisas e observações clínicas. A formulação das ideias, o conjunto de teorias e métodos, tudo parecia começar e terminar com ele. E algumas biografias, mesmo depois de sua morte, continuaram flagrantemente perpetuando essa ideia.


Mas Freud não estava sozinho. Seus contemporâneos também produziam, e, sobretudo, faziam psicanálise. Havia, portanto, desde o início, muito mais coisas acontecendo do que aquilo que a vida de Freud poderia contar.


Quando o próprio Freud conta a história


As origens dessa forma de contar a história da psicanálise podem ser rastreadas. É isso que aponta o professor Richard Simanke, no percurso História da Psicanálise, na plataforma do ESPECast.

Em algum momento, Freud foi levado a contar a história da psicanálise. Por uma série de circunstâncias, ele inaugurou uma tradição de apresentar a psicanálise como uma produção sua, isolada e autônoma.

Isso tem razões e, sobretudo, consequências.


As circunstâncias em que Freud produziu essas narrativas sobre a história da psicanálise mostram que elas não tinham necessariamente o objetivo de oferecer um relato fidedigno do passado. Havia outras motivações em jogo, que precisam ser consideradas quando lemos esses textos como documentos históricos.


Um exemplo é o texto “Contribuição à história do movimento psicanalítico”, de 1914. Logo nas primeiras linhas,


Freud afirma:


“Pois a psicanálise é criação minha, por dez anos eu fui o único indivíduo que dela se ocupou, e foi sobre mim que recaiu, em forma de crítica, toda a irritação provocada por seu aparecimento.”


Ele divide a narrativa em três partes. Primeiro, conta sua própria carreira como indivíduo. Depois, apresenta os primórdios de uma comunidade de pesquisadores reunidos em torno dele, dando início ao movimento psicanalítico. Por último, conta, à sua maneira, as primeiras dissidências e rupturas, quando alguns de seus “seguidores” dão outros encaminhamentos às ideias e se afastam para formar outras escolas de pensamento.


Entre esses dissidentes estão dois pensadores que Freud considerava seus discípulos: Carl Gustav Jung e Alfred Adler.


Mas há algo importante sobre esse texto: ele foi produzido no contexto de uma crise institucional. Isso tem consequências para a maneira como Freud conta essa história. Para Simanke, o texto é, superficialmente, histórico, e também tem o objetivo de polemizar com esses dissidentes, separar as perspectivas freudianas das demais e argumentar pelo afastamento deles.


Ao reivindicar para si a posição de fundador, Freud também reivindica a autoridade para dizer o que é psicanálise. Se ele inventou a psicanálise, então sabe o que ela é. E, a partir dessa posição, pode afirmar que aquilo que Jung ou Adler estão fazendo já não é psicanálise.


Por que estudar História da Psicanálise?


A pesquisa histórica tem um papel fundamental: ela nos ajuda a relativizar certezas e adotar uma postura mais crítica em relação às crenças com as quais, e pelas quais, costumamos organizar nossa vida.


Como afirma Simanke, “o senso comum, por ser tipicamente não crítico, tende a ser uma forma de conhecimento espontaneamente dogmática”. A pesquisa histórica, ao contrário, nos convida a interrogar o que tomamos como dado, a examinar as origens e os processos que moldaram o presente.

Mas por que fazer história da psicanálise?


A psicanálise, além de ser uma prática clínica, é também considerada um movimento intelectual. Nasceu como projeto de ciência do sujeito, da mente, das formações inconscientes, e, ao longo do tempo, se uniu a saberes diversos, como filosofia, literatura, medicina e antropologia.


Simanke argumenta que algumas de suas noções não são exclusivas da psicanálise, mas compartilhadas em contextos interdisciplinares. Por isso, compreender sua trajetória exige uma pesquisa histórica rigorosa, e não apenas recorrer às grandes figuras e às teorias consagradas.


Quando perdemos essa perspectiva, corremos o risco de tomar por evidentes certas ideias, conceitos e narrativas sobre a psicanálise.


Conclusão


O percurso História da Psicanálise, com Richard Simanke, parte dessas questões para acompanhar os passos iniciais da formação da psicanálise com Freud e suas relações com os saberes de seu tempo.

O professor aborda a interlocução de Freud com as ciências médicas, as ciências da vida, o evolucionismo e as concepções de sexualidade e sexualidade infantil, mostrando como esses saberes foram assimilados, reformulados, sintetizados e integrados ao pensamento psicanalítico.


Quer aprofundar esse estudo? Acesse o percurso História da Psicanálise, com Richard Simanke, na plataforma ESPEcast, e acompanhe a formação da psicanálise e suas interlocuções com os saberes de seu tempo.








Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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