A Repetição no Amor: Contribuições da Psicanálise
O amor talvez seja um dos lugares em que a repetição se torna mais evidente para a psicanálise. Seja pelos encontros e desencontros amorosos que parecem seguir um mesmo roteiro, seja pela dificuldade de sustentar a abertura para uma nova relação, muitas pessoas têm a sensação de viver, repetidamente, a mesma história.
O fato é que nós repetimos. Têm as chamadas repetições positivas — um bom encontro, uma experiência agradável, que não costumam causar estranhamento, e é até natural desejar que esses momentos se repitam.
Mas a questão que realmente orienta a psicanálise é: por que repetimos experiências que nos causam dor e sofrimento?
Nesse campo, repetir não significa apenas reviver uma cena ou reproduzir um comportamento. A repetição é um processo inconsciente, em que o sujeito repete sem saber que repete. Não se trata de uma escolha consciente.
Se a repetição é um ato inconsciente, uma manifestação automática e não voluntária que conduz o sujeito a reviver situações de sofrimento, mesmo quando, em nível consciente, ele deseja evitá-las, como pode ele se curar de uma relação que lhe causa sofrimento e que insiste em retornar, ainda que em outros corpos?
Repetir para elaborar
A psicanálise compreende que o sujeito repete para se proteger. É como se criasse, por meio da repetição, um mecanismo para se preparar para o inesperado. Paradoxalmente, na tentativa de evitar o sofrimento, acaba sofrendo novamente.
Esse processo não é apenas uma insistência no erro, mas um modo de lidar com aquilo que não pôde ser simbolizado, ou seja, repetimos para tentar dar sentido — ainda que de forma fracassada — ao que nos aconteceu.
Nos vínculos amorosos, o que retorna frequentemente revela uma tentativa de elaborar perdas e traumas que ainda não encontraram lugar na vida psíquica. É por isso que a psicanálise propõe um deslocamento: ao reconhecer essas repetições, o sujeito pode abrir espaço para transformá-las.
No setting analítico, ao repetir, o paciente tem a oportunidade de se dar conta do que está em jogo, transformando aquilo que antes era apenas uma ação inconsciente em possibilidade de elaboração psíquica.
Ao observar seus pacientes na clínica, Sigmund Freud percebeu que eles frequentemente não conseguiam recordar determinados acontecimentos importantes, mas acabavam repetindo-os. Em vez de falar sobre antigas experiências, reproduziam os modos de amar e sofrer na própria análise.
A partir disso, enunciou esse funcionamento em Recordar, Repetir e Elaborar (1914), ao mostrar que aquilo que não pode ser lembrado retorna sob a forma de ação. A repetição, portanto, aparece como uma tentativa de dar um destino psíquico ao que permaneceu sem simbolização.
É justamente essa a leitura destacada pela psicanalista Juliana Radaelli, ao afirmar que "o sujeito repete algo no campo da ação que ele não consegue rememorar". Como ela explica, "ao repetir, o sujeito não se dá conta da repetição".
Radaelli propõe ainda a leitura de um segundo texto fundamental de Freud: Além do Princípio do Prazer (1920). Nele, Freud examina um tipo de repetição que parece contrariar a própria busca pelo prazer: aquela que conduz o sujeito a reviver experiências de desprazer.
A repetição encontra sua cena privilegiada no amor
No texto de 1920, Freud coloca que existe uma compulsão à repetição que vai além da busca pelo prazer. Se fosse apenas uma questão de evitar o sofrimento, abandonaríamos rapidamente relações destrutivas. No entanto, frequentemente fazemos justamente o contrário.
A psicanalista e pesquisadora das relações Carol Tilkian argumenta que, muitos dos nossos relacionamentos são atravessados por "ecos" de dores antigas. As perdas que nunca chegaram a ser elaboradas reaparecem em novos vínculos, como se cada término convocasse todos os anteriores. Os parceiros mudam, mas o roteiro permanece surpreendentemente semelhante.
O que retornaria nesses "amores assombrados" seria a tentativa de, “por fim”, resolver algo que permaneceu em aberto. Como observa Carol, retomando uma formulação do também psicanalista Marco Leite, o ser humano possui uma extraordinária capacidade de transformar o acaso em repetição.
Carol Tilkian amplia essa discussão ao situá-la no contexto das chamadas metacrises contemporâneas. Mudanças climáticas, guerras, instabilidade política, aceleração tecnológica e o avanço da inteligência artificial produzem um ambiente permanente de alerta.
Quando o psiquismo permanece em estado de vigilância constante, tende a recorrer ao que já conhece para interpretar o presente. Os traumas antigos passam a funcionar como um verdadeiro "gabarito" para as novas experiências. Antes mesmo que o outro possa se apresentar em sua singularidade, ele já é lido através das marcas deixadas pelas relações anteriores.
Assim, torna-se mais difícil sustentar a alteridade. Em vez de encontrar alguém novo, reencontramos versões repetidas dos fantasmas que nos acompanham.
Da repetição à elaboração
A clínica psicanalítica não pretende ensinar alguém a escolher parceiros melhores nem oferecer técnicas para evitar frustrações amorosas. Seu trabalho acontece em outro nível.
Quando um paciente afirma, por exemplo, "fui abandonado de novo", a análise interroga o sujeito, buscando, por assim dizer, que perda antiga continua insistindo através daquela experiência.
Se o sujeito entra no setting analítico, fala sobre sua vida, conta seus traumas e fracassos, mas não há um ato analítico — um corte, uma intervenção precisa — ele pode passar anos repetindo sem transformação real.
Como explica o professoe e psicanalista Daniel Perez, "apenas contar o sofrimento inscreve o sujeito no registro do imaginário — numa narrativa que gira em torno de si mesma, sem deslocamento".
A transformação em análise, se e quando existe, não trabalha para impedir a repetição. Até porque repetir faz parte do funcionamento psíquico.
O que pode mudar é a posição do sujeito diante dela. Ao reconhecer aquilo que retorna, torna-se possível interromper o automatismo que organiza os vínculos e abrir espaço para uma relação menos determinada pelas feridas do passado.
Como já indicava Freud em Recordar, Repetir e Elaborar, aquilo que antes era apenas repetido pode finalmente ser elaborado.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.




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