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Trauma e Memória: uma leitura freudiana do caso Emma

há 11 horas
6 min de leitura

Em 1895, Sigmund Freud dedicava-se à elaboração de um manuscrito que chamou de Psicologia para neurologistas, posteriormente conhecido como Projeto para uma psicologia científica.

Escrito em meio à intensa correspondência com Wilhelm Fliess, médico e interlocutor próximo de Freud naquele período, o texto expressa seu esforço de construir um modelo de funcionamento do aparelho psíquico a partir de pressupostos da neurologia e da fisiologia.

É nesse manuscrito que Freud apresenta o caso Emma, a jovem que desenvolve uma reação de angústia diante da possibilidade de entrar sozinha em lojas.


A análise deste caso vai nos ajudar a compreender a relação entre trauma e memória, mostrando como uma experiência pode adquirir valor traumático a posteriori, a partir de sua articulação com uma segunda cena.


O trauma entre a medicina e a psicanálise


A pergunta de partida será sempre: o que é um trauma? Antes de respondê-la à luz da psicanálise, sobretudo da teoria freudiana, precisamos contextualizar o conceito de trauma no senso comum.


Entre o final do século XVIII e o século XIX, com o desenvolvimento da medicina anatomoclínica, a identificação de lesões e alterações orgânicas ganhou importância na investigação das doenças. A histeria, àquela época, representava um desafio para a medicina, pois seus sintomas nem sempre correspondiam a alterações anatômicas identificáveis.


A ausência de uma lesão identificável podia colocar em dúvida o próprio reconhecimento da doença. Isso fica bastante evidente quando analisamos historicamente como se davam o diagnóstico e o tratamento das mulheres com histeria.


O sintoma histérico foi um diagnóstico atribuído majoritariamente às mulheres. A ausência de uma lesão física que os explicasse contribuiu para a construção de narrativas que as associavam ao fingimento e à simulação de uma doença.


A psicanalista Débora Damasceno, da Escola de Psicanálise de São Paulo, nos ajuda a localizar essa questão ao trazer uma representação do pensamento da época: “Ela (paciente histérica) não tem nada quebrado. Ela só pode estar fingindo. É uma distorção moral, não é uma doença”, argumenta Débora.


Para ficar mais claro, pensemos na área da medicina que provavelmente mais atende casos de trauma: a ortopedia. Nesse campo, o trauma físico pode envolver a ruptura de uma estrutura óssea ou uma lesão em determinado órgão.


Quando Sigmund Freud escuta uma paciente em histeria, ele ouve uma história marcada, de algum modo, por uma ruptura em sua estrutura discursiva. Aqui nos aproximamos das construções psicanalíticas acerca do trauma.


Freud e a descoberta do trauma psíquico


Na perspectiva psicanalítica, o trauma pode ser compreendido como uma ruptura na estrutura discursiva do sujeito. Freud partiu dessa perspectiva ao investigar a histeria, considerando que algo havia acontecido na história daquela mulher e que não poderia ser explicado apenas por fatores biológicos, exigindo que sua investigação considerasse a história e as lembranças das pacientes.


Essa compreensão envolve uma dimensão temporal fundamental, ou seja, uma experiência pode adquirir valor traumático posteriormente, a partir de sua articulação com uma segunda experiência. Essa temporalidade retroativa, que Freud desenvolve em diferentes momentos de sua obra, está relacionada à noção de Nachträglichkeit, frequentemente traduzida como posterioridade.


Assim, o efeito traumático nem sempre se manifesta no momento em que o acontecimento ocorre. Uma experiência vivida no passado pode ganhar um novo significado quando uma situação posterior permite que seja retomada e interpretada de outra maneira.


O psicanalista e doutor em filosofia Daniel Omar Perez ilustra essa formulação: “Posso ter um evento no momento t1, digamos, e no momento t2 há um outro corte, e eu a partir daí volto para aquele evento (t1) e o interpreto como traumático”.


A partir dessa elaboração, é necessário retornar a 1895 e examinar como Freud desenvolveu essa questão no Projeto, recorrendo à noção aristotélica de proton pseudos.


Proton pseudos: a temporalidade do trauma


No Projeto, Freud aborda o funcionamento psíquico por diferentes perspectivas. Para este artigo, interessa especialmente a segunda parte, na qual ele discute a sexualidade e apresenta o sintoma histérico por meio da expressão proton pseudos.


Em tradução literal, proton pseudos significa “primeira coisa falsa”. Na tradição da lógica aristotélica, a expressão designa uma premissa falsa que conduz a uma conclusão equivocada.


Para compreender essa ideia, basta lembrar que um silogismo é uma forma de raciocínio lógico em que uma conclusão é obtida a partir de duas premissas. Quando uma delas é falsa, a conclusão também pode ser equivocada, mesmo que o raciocínio siga uma sequência lógica.


Freud utiliza essa expressão para explicar a formação do sintoma histérico.

Em sua análise, identifica duas representações, A e B, relacionadas a uma mesma experiência. B corresponde ao conteúdo capaz de provocar uma reação emocional intensa, enquanto A aparece como uma circunstância secundária.


Quando a experiência é retomada pela memória, porém, A ocupa o lugar de B e passa a funcionar como seu substituto, ou símbolo. É essa substituição que explica o caráter aparentemente incongruente da reação do sujeito.


Freud resume essa relação afirmando que A é compulsiva, enquanto B permanece recalcada (verdrängt) da consciência. Em outras palavras, o conteúdo que aparece na consciência não corresponde necessariamente à experiência que está na origem do sintoma. Uma representação ocupa o lugar de outra, enquanto esta permanece recalcada.


Mas o que essa relação tem a ver com trauma e memória?

A questão está na maneira como uma experiência passada pode produzir efeitos no presente. Para Freud, uma lembrança pode adquirir valor traumático posteriormente, por ação diferida (nachträglich).


Isso significa que o acontecimento não precisa produzir uma reação traumática no momento em que ocorre. Uma experiência posterior pode modificar seu significado, fazendo com que aquela lembrança passe a produzir efeitos psíquicos que antes não tinha. Uma atualização do discurso.


O caso Emma ilustra como essa relação entre memória, recalcamento e trauma se constitui.


Caso Emma


Emma é uma mulher adulta que tem dificuldade de entrar sozinha em lojas. Ao investigar a origem desse sintoma, Freud identifica uma lembrança que ela relaciona ao seu medo. Aos doze anos, Emma entrou em uma loja e viu dois vendedores rindo. Sentiu-se constrangida, pensou que eles estavam rindo de suas roupas e que um deles havia despertado seu interesse sexual. Assustada, saiu correndo. Freud denomina esse episódio cena I.


Durante a análise, surge uma lembrança anterior, vivida quando Emma tinha oito anos. Ao visitar uma confeitaria para comprar doces, o proprietário a tocou nos genitais por cima da roupa. Ela retornou ao estabelecimento em outra ocasião.

Essa segunda experiência, denominada cena II, mostra a reação que aparece anos depois, diante dos vendedores. Freud identifica elementos comuns às duas cenas: as roupas e o riso. Na confeitaria, o proprietário havia tocado Emma por cima das roupas e rido durante a situação; na loja, os vendedores também riam, enquanto ela se preocupava com suas roupas.


A lembrança da cena II adquire valor traumático posteriormente, quando Emma já havia entrado na puberdade. Sua recordação provoca excitação sexual e angústia, que se manifestam na situação da loja. A cena I funciona como uma representação que encobre a experiência anterior, permitindo que o conteúdo recalcado retorne de forma indireta.

Aqui, Freud apresenta o proton pseudos: a cena dos vendedores aparece como explicação para o sintoma, enquanto sua relação com a experiência da confeitaria permanece inconsciente.

O caso demonstra como a memória participa da constituição do trauma, articulando experiências de diferentes momentos da vida e produzindo efeitos no presente.


Conclusão


O caso Emma apresenta uma formulação inicial de Freud sobre a constituição do trauma psíquico e a relação entre experiências ocorridas em momentos distintos. A temporalidade ocupa, aqui, uma posição importante.


Trauma e memória estão relacionados à maneira como experiências passadas são retomadas e articuladas a novas situações. Na clínica, essa formulação orienta a escuta da história do sujeito e das relações que podem se estabelecer entre suas lembranças, seus sintomas e as experiências que as constituem.

A investigação freudiana situa a memória como parte fundamental da compreensão do sofrimento psíquico, considerando os efeitos que uma experiência pode adquirir ao longo do tempo.




Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. O Eu e o Id. In: FREUD, Sigmund. O eu e o id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras completas, v. 16).


FREUD, Sigmund. Projeto para uma psicologia científica (1895). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1, p. 335-454.


ARNAUD, Sabine. On Hysteria: The Invention of a Medical Category between 1670 and 1820. Chicago: University of Chicago Press, 2015.


ESPECAST. Repressão e trauma na psicanálise I com Daniel Omar Perez e Débora Damasceno. YouTube, 31 ago. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PthjQZlxlZw.


Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

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