top of page

A Casa de Freud: Um Testemunho Silencioso da Escrita

Convivência familiar, atendimentos, experiências, elaborações, sonhos e, sobretudo, a escrita. Tudo acontecia ali, na casa de Sigmund Freud. Um espaço que abriga, até hoje, os vestígios de uma vida e as marcas de uma prática em que a palavra encontra sua forma e seu lugar.


Quando se trata de Freud, a palavra deixa de ser apenas descritiva e passa a concentrar camadas. Por que não realizar, então, uma leitura dos espaços que abrigaram a família fundadora da psicanálise? Afinal, como sabemos, Freud mobilizou elementos singulares na construção de sua teoria do inconsciente.


Há, em seus endereços, uma inscrição operacional. Portas, corredores, salas de espera e consultórios compõem um arranjo que se articula à sua escrita.


Como vivia e se distribuía entre vida privada e pública aquele que interrogava até os próprios sonhos?

Acompanhe conosco.


Berggasse 19: o espaço fixo


Em Viena, Sigmund Freud viveu no mesmo edifício, Berggasse 19, durante 47 anos. De 1891 a 1938, já casado, instalou-se no apartamento do primeiro andar, onde passou a articular vida familiar e prática clínica.


O mesmo ambiente compunha, então, dois espaços distintos: um destinado à residência privada, outro ao consultório. Por uma porta, entram pacientes e estudantes; por outra, circula a família. Essa divisão, sobretudo funcional do ponto de vista familiar, sustenta a separação no local.


Na Berggasse, a vida familiar se estabelece. Freud e Martha criam seis filhos — Mathilde, Jean-Martin, Oliver, Ernst, Sophie e Anna. Entre eles, Anna Freud é a única que dará continuidade ao trabalho do pai, inscrevendo-se no campo da psicanálise.


O consultório, por sua vez, mantém ainda hoje parte de sua materialidade. Em Viena, preserva-se a sala de espera, com seu mobiliário original. E não apenas isso: naquele espaço também aconteciam as reuniões da Sociedade Psicológica das Quartas-feiras (1902–1908), onde se discutiam as primeiras formulações da psicanálise entre pares.


Vários médicos mais jovens se reuniram ao meu redor com a intenção declarada de aprender, praticar e disseminar a psicanálise”, refletiu Freud, em 1912, sobre a Sociedade.


O interior do consultório é curiosamente organizado por pequenos elementos. Um espelho próximo à entrada devolve ao paciente sua própria imagem no primeiro encontro; e uma porta de passagem permite a saída discreta, evitando o cruzamento entre presenças.


Pelas cartas e relatos que Freud dirigiu a Fliess, seu interlocutor por muitos anos, o espaço não se apresentava uniforme, inclusive na vida íntima. Ele relata ao amigo que o ambiente doméstico nem sempre era silencioso. Seu filho Ernst tornava-se, segundo ele, “dócil e obediente” apenas quando febril.


Freud permaneceria na Berggasse 19 até 1938, quando a ascensão do nazismo o forçaria a deixar Viena e partir para o exílio em Londres.


Londres: o exílio


Em 1938, aos 82 anos, Freud deixa Viena. A mudança para Londres foi uma imposição provocada pelo contexto histórico — após a anexação da Áustria pela Alemanha (Anschluss) e a perseguição nazista, a família Freud emigra para a Inglaterra.


Instalado em 20 Maresfield Gardens, em Hampstead, Freud encontra uma casa ampla, organizada, situada em um bairro nobre e tranquilo, onde passaria seu último ano de vida. Uma das áreas mais queridas da casa era o jardim, descrito como o local favorito de Anna e Martha. O jardim era tão central em sua vida que havia um sofá montado ao ar livre.


É nesta casa que se encontra o divã original de Freud, coberto por tapetes persas, onde ele atendia seus pacientes. Apesar de já enfrentar problemas de saúde, incluindo sua luta contra o câncer de boca, Freud manteve um pequeno número de atendimentos em sua casa em Hampstead.


Mesmo doente, permaneceu intelectualmente ativo e continuou escrevendo, produzindo textos importantes como Moisés e o Monoteísmo e Compêndio de Psicanálise.


No museu de Londres, é possível ver itens muito pessoais, como seus óculos, sapatos, sobretudo e guarda-chuva, guardados em um armário, o que transmite a sensação de uma presença ainda em suspenso.


Para completar essa passagem por Londres, suas cinzas estão depositadas no Golders Green Crematorium, no chamado “Freud Corner”, junto a outros membros da família.


Como era a rotina de Freud


A rotina de Freud era cuidadosamente estruturada, como detalhado na biografia escrita por Ernest Jones. Suas interações familiares e dedicação aos amigos mostram um lado atento à convivência e ao laço com o outro.


Vivendo na Berggasse 19, Freud seguia um ritmo sistemático. Iniciava suas consultas às oito da manhã, após acordar por volta das sete. Em seguida, um café da manhã rápido e a leitura do jornal New Freie Presse, depois atendia seus pacientes em sessões de 55 minutos, com intervalos de cinco minutos.


O almoço, às 13h, era a única ocasião em que toda a família se reunia. Entre 13h e 15h, por vezes se dedicava a tarefas como abastecer seu estoque de charutos na Tabak Trafik ou tratar de questões editoriais. Depois, retomava os atendimentos, que podiam se estender até o fim da tarde.


À noite, Freud costumava passear nas imediações, acompanhado da esposa, da cunhada ou das filhas, caminhando pela Ringstrasse. Em algumas ocasiões, parava em cafés — no verão, o Café Landtmann; no inverno, o Café Central — onde lia o jornal.


De volta para casa, retornava ao escritório para se dedicar à correspondência, à escrita de artigos e à revisão de suas obras e periódicos.


O “silêncio da criação”


Ao percorrer os espaços de Freud — de Berggasse 19 a Maresfield Gardens —, podemos sustentar uma hipótese: a de que Freud escrevia em casa e com ela.


Sua movimentação pelos cômodos, a distribuição entre consultório e vida familiar e a posição da escrivaninha diante da janela indicam que a escrita não se dava de forma isolada, mas em relação direta com o ambiente.


A regra de não anotar durante as sessões e registrar apenas a posteriori, sentado à escrivaninha, reforça essa hipótese.


Na Berggasse, Freud escreve A Interpretação do Sonho; dali também partem milhares de cartas, compondo uma rede contínua de elaboração. Em Londres, já no exílio, a escrita não se interrompe — e a casa, novamente, sustenta o trabalho.


A arquitetura, a rotina e os gestos cotidianos configuram uma condição de possibilidade para essa produção textual, a escrita freudiana. Ao final, esses espaços testemunham a vida de Freud, a maneira como seu pensamento se organiza, se sustenta e se inscreve no mundo.





Referências:

FREUD MUSEUM LONDON. Freud’s daily routine. Londres, 17 abr. 2024.


2MANYTHINGS. Museu do Freud | Visita ao Museu do Freud e ao local de suas cinzas | 2ManyThings.


DW TRAVEL. Inside Freud’s Vienna: Where Psychoanalysis Was Born.


DW TRAVEL. Why Vienna is the World's Most Livable City | Must-sees in Austria's Capital.


ELTRECE. La casa de Sigmund Freud: el lugar que todo psicoanalista debería visitar en Viena.


GRUPO AUTÊNTICA. Visita à casa de Freud | AUTv.


SIGMUND FREUD MUSEUM. Walk through Berggasse 19 with our director.


Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

© 2026  ESPECAST PRODUCOES LTDA.

bottom of page