O inconsciente não tira férias: a psicanálise no tempo da infância
- ESPEcast

- 16 de jan.
- 5 min de leitura
Há um menino, há um moleque,
Morando sempre no meu coração.
Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão.
-Milton Nascimento, 1988
A pergunta sobre a existência de “férias de análise” é antiga e atravessa diferentes momentos da história da psicanálise.
O professor e psicanalista Daniel Omar Perez nos lembra que Sigmund Freud fazia longos retiros anuais: passava cerca de dois meses em casas de verão com a família, inclusive no norte da Itália, local de sua estima.
O professor observa ainda que Jacques Lacan e Françoise Dolto mantinham o mesmo hábito, frequentando casas de campo, algo que também marcava suas rotinas clínicas.
Mas e quando falamos de crianças?
É a partir dessa pergunta que vamos articular nosso texto.
Boa leitura!
Existe férias de análise?
Não é evidente que férias escolares sejam equivalentes a férias da análise. A resposta é sempre caso a caso.
Há crianças que vivem o fim do ano como um período tumultuado. Na visão da psicanalista Cibele Scarpelin, adolescentes chegam ao consultório atravessados pela ansiedade dos resultados de provas e avaliações finais; já os menores, embora menos tomados pelos estudos, enfrentam um intenso ciclo de atividades e apresentações de encerramento.
Cibele lembra ainda que muitas vezes é necessário “deixar a análise um pouco mais aberta”, dando espaço para que a criança faça outras coisas, viaje com a família e viva experiências que não cabem no calendário escolar.
Para muitas crianças, esse período significa entrar em contato com modos de relação que durante o ano ficam restritos. Pais que trabalham o dia inteiro, por exemplo, encontram nas férias um tempo a mais com os filhos.
Quem aprofunda essa questão é a psicanalista Marta Ferreira, ao afirmar que é justamente nessa convivência mais próxima que emergem conflitos e elaborações pouco comuns no cotidiano. Para ela, “os analistas tiram férias, mas o inconsciente não”.
Diante disso, perguntar se há “férias de análise” é menos uma questão de calendário e mais uma questão clínica:
Que tipo de experiência a criança está vivendo?
O que se abre ou se fecha nesse período?
Que lugar têm o desejo dela, sua rotina e suas possibilidades de elaboração?
O tempo psíquico das férias e o lugar do tédio
O período de férias, com a retirada do cronograma, horários definidos e das atividades sucessivas, inaugura um diferente modo de a criança se relacionar consigo e com o outro. Nesse cenário, um afeto muito próprio da infância pode emergir com força: o tédio.
Frequentemente temido ou imediatamente preenchido (pelos adultos), o tédio é, na verdade, um operador psíquico importante. Como lembra Marta, “é importante que a criança fique entediada, lide com esse afeto e invente o que fazer a partir dele”. O tédio convoca a criatividade, força a criança a se confrontar com suas próprias possibilidades de invenção e abre espaço para formas singulares de expressão.
Esse processo, contudo, encontra resistência na organização contemporânea das férias. Cibele chama atenção para as colônias de férias que funcionam como uma extensão do calendário escolar: horários, atividades pré-programadas e orientações constantes pretendem garantir “diversão”, mas acabam impedindo que a criança experimente a liberdade própria do brincar. “É o adulto que determina como, quando e do que a criança deve brincar”, observa Cibele.
Na contramão desse modelo, a psicanalista Mariane Lopes Bechuate destaca a importância do tempo de fruição — uma dimensão bastante negligenciada atualmente. Ela evoca Donald Winnicott ao lembrar que “o brincar é aquilo que colore a vida, que dá sentido”.
Quando se pergunta a uma criança o que ela mais gosta na escola, a resposta é frequentemente o recreio: o espaço mais livre da gestão adulta, mesmo que dure apenas 15 ou 30 minutos.
As férias, portanto, ampliam esse respiro. Mariane fala de um “alargamento de espaços” e de tempos que, no cotidiano escolar, são restritos. O brincar deixa de ser encaixado entre tarefas e passa a ser uma possibilidade contínua.
Esse tempo aumentado repercute diretamente na análise. Muitas crianças retornam do período de férias elaborando questões que emergiram justamente nesse intervalo de liberdade, especialmente quando tiveram oportunidade de brincar entre pares, de forma espontânea.
O brincar livre e os espaços não vigiados
Nas férias, surge a possibilidade de as crianças constituírem entre si uma verdadeira comunidade, produtiva e inventiva, em espaços pouco ou nada atravessados pela supervisão adulta.
Esse espaço — cada vez mais raro — é fundamental para a criação, para a circulação do desejo e para a elaboração subjetiva, como observa Marta Ferreira.
A análise não acompanha o calendário escolar, e o desejo de algumas crianças por mais liberdade durante as férias indica que interromper temporariamente as sessões pode, em certos momentos, preservar esse movimento de brincar contínuo.
Enquanto a criança passa o ano cumprindo um cronograma rígido, nas férias abre-se um tempo que permite que ela se dedique às próprias iniciativas.
A importância do brincar na rua reaparece. Segundo Cibele, crianças entre 8 e 13 anos tendem a evitar lugares onde adultos interferem. O mesmo vale para o ambiente digital, onde, segundo a psicanalista, é preciso supervisão, mas não vigilância, para que o brincar e a invenção possam realmente acontecer.
A análise nesse cenário: pausar, continuar, escutar
O fato de a criança entrar em férias não determina, por si, uma pausa na análise. O ritmo escolar segue suas próprias exigências, mas o tempo da análise responde a outra lógica. É comum a criança manifestar o desejo de pausar as sessões para viver o tempo de brincar; e, de fato, o brincar livre costuma abrir um campo importante de elaboração, que reaparece no consultório de diversas maneiras.
Como lembra Marta, “a gente não dirige o brincar da criança na análise; podemos brincar, se formos convidados.” É no brincar criativo que a criança encontra soluções próprias para questões internas que não poderiam ser produzidas por orientação do adulto.
O fisioterapeuta Fauzi El Kadri Filho reforça um ponto importante: quando as crianças recebiam a bola e a quadra, organizavam-se sozinhas. “O que a gente queria do professor era a bola; a gente não queria supervisão. Com a quadra e a bola, a gente se organizava”, recorda, ao evocar sua infância.
Algo semelhante vale para o desenvolvimento físico e afetivo: a criança necessita de condições para realizar atividades de seu interesse, com outras crianças, sem vigilância constante de adultos.
Assim, decidir pela continuidade ou pela pausa da análise durante as férias exige escuta: perceber como a criança está vivendo esse período, qual é a função subjetiva do brincar naquele momento e de que forma a análise pode acompanhar — seja mantendo o encontro semanal, seja recolhendo o material que emergirá após a pausa.
conclusão
A ideia de que o inconsciente não tira férias indica que o tempo livre não interrompe a vida psíquica da criança; ao contrário, a intensifica.
Fora da rotina escolar, surgem experiências fundamentais: a convivência mais próxima com a família, os encontros com avós e primos, a circulação pela casa e pela rua, as invenções produzidas pelo tédio e pelo brincar. Nesse espaço menos regulamentado, muitas crianças elaboram conflitos e criam soluções próprias.
As férias não são tempo vazio, mas um período fértil, capaz de ampliar a fruição, a espontaneidade e a circulação da criança pelos espaços da vida. Reconhecer isso é sustentar que, mesmo quando a rotina muda, o trabalho do inconsciente continua.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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