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Como Estruturar seu Estudo em Psicanálise: Do Início à Formação Continuada

Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo.

Se não posso dobrar os poderes celestiais, agitarei o Inferno.

— Virgílio, Eneida, VII, 312.


Assim, citando a Eneida de Virgílio, Sigmund Freud, na aurora do século XX, inaugura com A Interpretação do Sonho — no singular — o que viria a ser a psicanálise. O tempo passou, estamos na década de 20 do novo século, e conosco resiste esse saber do inconsciente.


É notório que há uma psicanálise depois de Freud, isso é um fato. Assim como também é fato que ela se sustenta em seus fundamentos. Se, por um lado, há algo que se renova todos os dias pela característica de ser uma praxis, por outro existem premissas fundamentais que seguem sendo sua via régia.


Ao longo de 2025 acompanhamos a discussão acalorada sobre a formação em psicanálise e, como desdobramento desse debate, tomamos por bem apresentar aqui um caminho possível para aqueles que estão em formação continuada, seja dando seus primeiros passos, seja já com um percurso em andamento.


Dentro da nossa biblioteca audiovisual, com mais de 300 horas de conteúdos, é comum que, ao chegar, alguém leve um tempo de adaptação. Cada um pode, à sua maneira, escolher os temas que lhe tocam; mas, como suporte nessa decisão, vamos apresentar algumas possibilidades de percurso.


Como lembra o psicanalista e professor Daniel Perez, “o melhor modo de entrada na psicanálise talvez seja fazendo a análise pessoal”. Ainda assim, como ele mesmo aponta, pode-se trilhar o caminho inverso: começar pela leitura antes da análise, buscando na teoria os textos que se relacionam com aquilo que nos causa mal-estar.


Os Textos Fundacionais de Freud: uma porta de entrada


Quando falamos em textos fundacionais, propomos um eixo conceitual que organiza a prática psicanalítica. A histeria, os sonhos, os atos falhos, os chistes, a sexualidade — cada um desses temas inaugurais aparece como uma espécie de laboratório onde Freud descobre que há algo no sujeito que escapa à consciência.


São esses textos que apresentam, em estado nascente, a operação do inconsciente. É por isso que, no percurso Fundamentos da Psicanálise, com o professor Daniel Omar Perez, retornamos a eles. A transferência, por exemplo, entra em cena nos primeiros casos clínicos, onde Freud identifica que o afeto do paciente se desloca para a figura do analista, produzindo repetições que orientam o trabalho. A 1ª e 2ª tópicas surgem como tentativas de mapear esse território psíquico; e a angústia é tratada como um ponto de articulação entre o sujeito e o desconhecido em si mesmo.


Quando Lacan retoma Freud, décadas depois, será esse núcleo inaugural que ele irá trabalhar em novos termos: o sujeito dividido, o significante, a estrutura. O importante estádio do espelho, por exemplo, ganha a força quando toca no mesmo problema freudiano da constituição do eu.


Esses textos permanecem contemporâneos porque não tratam de questões datadas. Em outras palavras, seguimos sendo sujeitos divididos. Por isso a sugestão dos “primeiros passos” parte diretamente desta fundação.


A psicanálise e a cultura: quando Freud encontra o século XXI


Sigmund Freud, ao investigar sonhos, sintomas e fantasias individuais, encontrou ecos que apontavam para algo maior: a forma como vivemos juntos, as exigências da cultura e os impasses da civilização. É assim que surgem textos como Psicologia das massas, O futuro de uma ilusão e O mal-estar na civilização — obras em que Freud move a lente do sujeito para o laço social, mostrando que não existe experiência psíquica fora de um campo cultural.


Isso orienta o percurso Psicanálise na Contemporaneidade, com a professora Renata Wirthmann. Se Freud mostrou que religião, arte, política e moralidade são produções culturais que organizam e, ao mesmo tempo, violentam o sujeito, a pergunta que se coloca hoje é: quais são as formas contemporâneas desse mal-estar?


O século XXI intensificou certas fraturas já observadas por Freud. Demandas de performance e hiperconexão, excesso de imagens de si e novas modalidades de laço que reconfiguram a experiência do desejo e do sintoma.


Essa é a nossa sugestão para iniciar os estudos na plataforma. Fundamentos + Cultura: primeiro, compreender como a psicanálise nasce no encontro com o inconsciente; depois, perceber como esse inconsciente se apresenta nas tensões da vida coletiva.


O Percurso dos Conceitos Estruturantes


Se os fundamentos freudianos oferecem a entrada para a psicanálise e a leitura da cultura amplia o campo onde o sujeito se registra, essa próxima sequência marca um ponto de virada: começamos a operar conceitos e perceber como Freud é reorganizado, relido e relançado por Jacques Lacan.


O percurso de Alexandre Starnino, Introdução a Lacan, apresenta o movimento epistemológico que redefine o campo psicanalítico: a passagem de uma psicologia do eu para uma teoria do sujeito do significante. Em Lacan, o inconsciente é uma estrutura que funciona como linguagem. O sujeito não se explica por si mesmo; ele é atravessado, dividido e constituído pelos significantes que o antecedem.


No percurso, Starnino introduz três modos de pensar o inconsciente, destacando como Lacan retoma Freud para formular uma terceira via, a causalidade inconsciente.


Se Starnino apresenta Lacan, o percurso com Jorge Sesarino aprofunda seu seminário base: o Seminário 11, que articula os quatro conceitos fundamentais da prática analítica — inconsciente, repetição, transferência e pulsão.


Com mais de três décadas de clínica, Sesarino reposiciona cada conceito, mostrando como eles atravessam o cotidiano do tratamento e orientam o analista no manejo com o sujeito. É estudar Lacan, acompanhando como esses conceitos ganham corpo na experiência, sustentando a ética e a técnica da psicanálise.


Essa proposta trabalha como um retorno mais preciso aos fundamentos. Depois de percorrer Freud e sua articulação com a cultura contemporânea, é tempo de ver como Lacan retoma e reorganiza princípios, oferecendo novas chaves de leitura.


Como se orientar pela plataforma


Não propomos um currículo rígido, e isso não é por acaso. A psicanálise não se organiza como um sistema fechado, com etapas obrigatórias ou uma linearidade pré-definida. Cada percurso que reunimos aqui marca um ponto fundamental da teoria, de modo que o assinante possa encontrar seu caminho sem perder de vista o terreno comum que sustenta toda a tradição inaugurada por Freud.


Nos Fundamentos, os conteúdos ressoam diretamente com os textos freudianos que inauguram a prática; já em Psicanálise na Contemporaneidade, esses mesmos conceitos retornam sob a forma das questões do nosso tempo. E, nos Conceitos Estruturantes, a entrada por Lacan reorganiza essa herança, mostrando a estrutura, o sujeito do significante e os quatro conceitos fundamentais.


Em termos práticos:

Por onde começar?

Inicie pelos Fundamentos, especialmente se você está se aproximando da psicanálise pela primeira vez. Ali estão os eixos que sustentam qualquer leitura posterior.


Como percorrer?

Depois, passe para Psicanálise na Contemporaneidade, onde esses conceitos são recolocados nas tensões culturais atuais. Um ponto essencial para quem quer compreender como o sujeito se constitui hoje.


Como construir um ritmo próprio?

Um percurso não anula o outro. Você pode alternar aulas, revisitar temas, avançar e retornar quando necessário. O importante é manter um fio de leitura que converse com suas questões, como sugere Daniel Perez: começar por aquilo que dói, aquilo que inquieta, aquilo que move.


Enquanto plataforma de estudos continuados, nosso papel é reunir, organizar e sustentar um ambiente de estudo que respeite seu tempo, seus impasses, sua curiosidade e sua trajetória. Nessa singularidade o percurso ganha forma.





Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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