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Neurose, Psicose, Perversão: como se orientar pelos grandes eixos da clínica


“Lacan propõe uma psicanálise para além do Édipo e do Nome-do-Pai, no início dos anos 1970. Por que pessoas que estudam psicanálise ainda falam como se isso não tivesse acontecido?”

— Daniel Omar Perez


Essa provocação do professor e psicanalista nos obriga a pensar na singularidade da travessia em psicanálise. Vamos colocá-la em contexto. Quem inicia seus estudos em psicanálise gradualmente passa a conhecer as escolas existentes, seus posicionamentos éticos e seus destinos teóricos. Já aqueles que percorrem uma formação continuada talvez estejam advertidos do movimento lacaniano de revisão e deslocamento conceitual.


Seja qual for o cenário, permanece um fato: abandonar uma proposição teórica, como Lacan abandona a centralidade diagnóstica das estruturas, só é possível depois de tê-la atravessado. Só se abandona o que se percorre.


Talvez a resposta à provocação seja outra pergunta: até onde esses estudantes chegaram em suas pesquisas?


Este texto, portanto, propõe apresentar o caminho freudiano e lacaniano pelas três grandes estruturas — neurose, psicose e perversão — desde sua formulação como nosologias até sua formalização estrutural no primeiro ensino de Lacan, para então vislumbrar o movimento posterior: o deslocamento para os nós, os enodamentos e o trabalho com o sintoma como gozo.


Da nosologia às estruturas: como Freud e Lacan organizaram o campo clínico


Antes de entrar nos eixos clássicos, vale reconstruir rapidamente como esse trio se consolidou e por que ele ainda orienta a formação analítica, mesmo quando Lacan, nos anos 1970, propõe ultrapassá-lo.


Freud inicia seu percurso diante de um mal-estar que não cabia na medicina da época: sintomas sem lesão orgânica, sobretudo na histeria. Aos poucos, esse campo inicial se torna mais complexo, deixa de ser um catálogo de quadros sintomáticos e passa a constituir uma leitura da relação do sujeito com o desejo, com o Outro e com o inconsciente.


Nos primeiros anos, Freud distingue entre:


  • Neuroses narcísicas, posteriormente associadas à psicose

  • Neuroses de transferência, que englobam histeria e neurose obsessiva


Ao apostar no segundo grupo, Freud descobre que somente onde há transferência é possível haver tratamento psicanalítico. É o campo onde a palavra circula, onde o conflito pode transformar-se em elaboração e onde o analista tem meios efetivos de operar.


Essa construção se desenvolve em camadas: os estudos sobre a histeria (os primeiros cinco casos); o abandono da hipnose; a reorganização diagnóstica e a formulação inicial do recalcamento; a consolidação do método e do inconsciente como sistema, a partir de A Interpretação dos Sonhos; e, em 1905, o Caso Dora, um marco na histeria e na descoberta de que diagnóstico não é solução.


A esse respeito, vale recuperar a observação do professor Daniel:


“O caso clínico é publicado em 1905, e durante praticamente 15 anos Freud vai avançando sobre a recapitulação do caso de histeria. Portanto, não adiantava muito diagnosticar aquilo como histeria, como se isso resolvesse algum problema. O problema estava menos no diagnóstico e mais naquilo que Freud fazia no encaminhamento do tratamento. Que, de acordo com o próprio Freud, deu errado, por um mau manejo da transferência.”


Em outras palavras: o diagnóstico situa o horizonte, mas é o manejo que abre caminhos.


A função do diagnóstico

Freud não propõe diagnósticos para classificar pessoas, mas para ler modos de sofrimento. A psicanálise, afinal, “é um processo de análise através da palavra pela via da elaboração. Trata o mal-estar, a dor, o sofrimento de um sujeito através da linguagem, na possibilidade da sua elaboração.” — Daniel Omar Perez.


Assim, o diagnóstico, enquanto bússola, permite localizar a relação do sujeito com seu desejo, supor um funcionamento estrutural, orientar o manejo da transferência e dimensionar as possibilidades e os limites da experiência analítica.


A virada lacaniana

Nos seminários dos anos 1950, Lacan retoma Freud e propõe uma reorganização, como argumenta Daniel:


“Em 1956, Lacan entende que é preciso dar um passo, que para ele Freud não teria dado. Não só trabalhar com as pessoas diagnosticadas na neurose de transferência, senão que não podíamos recuar diante das psicoses. E propõe as três estruturas clínicas.”


A saber:


  • Neurose → Recalque

  • Psicose → Foraclusão

  • Perversão → Desmentido / Fetichismo


Mas Lacan não fica aí. Nos anos 1970, Daniel lembra que seu ensino se desloca mais uma vez:


“Na década de 1970, Lacan modifica boa parte do seu dispositivo analítico, e passa a trabalhar com a ideia de linguagem, em termos de lógica matemática, topologia e enodamentos.”


O foco deixa de ser a estrutura enquanto classificação e passa para o sujeito produzido pelos registros Real, Simbólico e Imaginário; o sintoma como forma de gozo e a possibilidade de fazer laços, desenodar, reatar, inventar outra relação com o próprio sofrimento.


Nas palavras de Perez:


“O ensino de Lacan mostra que é mais importante trabalharmos com o que o paciente traz, no sentido de poder desenodar e fazer outros laços que permitam outra relação com o sintoma; dar conta do sintoma como gozo e poder diminuir o sofrimento.”


A partir disso, as categorias de neurose, psicose e perversão passam a ter menos peso classificatório, embora permaneçam como referenciais teóricos e clínicos.


Como transformar teoria em percurso de estudo


Agora que já percorremos o caminho feito por Freud e Lacan pelos grandes eixos — neurose, psicose e perversão —, vamos indicar trilhas possíveis de estudo dentro da plataforma, caminhos que dialogam diretamente com os textos freudianos e lacanianos.


Por onde entrar na clínica da neurose

A neurose é, historicamente, a porta de entrada da psicanálise. Os percursos selecionados articulam teoria e direção do tratamento, mostrando como Freud e Lacan constroem, cada um à sua maneira, as lógicas específicas da neurose e seus efeitos na prática clínica.


Manejos Clínicos das Neuroses — com Alexandre Simões

O percurso conduzido pelo psicanalista Alexandre Simões mostra que a obsessão, para Freud e Lacan, é uma posição diante do desejo marcada por anulação, controle e adiamento. Com a metáfora da “placa giratória”, ele destaca a oscilação obsessiva — aproximar-se do desejo para logo recuar — sempre em relação à histeria.


A partir de Lacan e do caso do Homem dos Ratos, retoma o impasse da neurose obsessiva: saber muito sobre o desejo, mas não conseguir desejá-lo. No manejo clínico, Simões enfatiza acompanhar essa oscilação, trabalhar o gozo não reconhecido e abrir novas vias de relação com o sintoma.


A Histeria na Psicanálise — com Rinalda Duarte

O percurso conduzido pela psicanalista Rinalda Duarte recoloca a histeria como matriz inaugural da psicanálise, a cena onde desejo, identificação e falta se articulam. Partindo de Breuer, das pacientes mulheres e da ruptura com a sugestão, ela mostra como Freud encontra na histeria a primeira fala que exige interpretação. Com Lacan, retoma o Édipo como estrutura do desejo, articulando castração, identificação e diferenças nas saídas edípicas.


Psicoses: um mapa para se orientar na clínica

A trilha parte da distinção freudiana entre neurose e psicose e avança com a contribuição de Lacan, que formaliza a psicose pela foraclusão do Nome-do-Pai.


Esse eixo permite pensar tanto as psicoses desencadeadas quanto as não desencadeadas, e de formas contemporâneas de sofrimento que escapam às classificações psiquiátricas tradicionais.


As Psicoses em Psicanálise — com Francis Juliana Fontana

Francis Juliana parte da premissa que ainda há poucos analistas preparados para sustentar uma clínica com psicóticos. Seu percurso nasce dessa lacuna, recolocando a psicose no centro da prática psicanalítica.


Retomando Freud, ela destaca a diferenciação estrutural entre neurose e psicose e revisita o caso Schreber como laboratório onde o delírio surge como esforço de reconstrução simbólica diante da falha do laço com o Outro.


A psicanalista avança então para Lacan, discutindo o modo específico de transferência na psicose e o lugar do analista como suporte, não de interpretação clássica, mas de ancoragem, estabilização e invenção.


Borderline: Psicoses Não-Desencadeadas

Neste percurso, Francis Juliana Fontana aprofunda um ponto crucial da clínica atual: as chamadas psicoses não desencadeadas, frequentemente nomeadas como “borderline” no discurso psiquiátrico.


O percurso se organiza em três eixos: o que caracteriza uma psicose não desencadeada, como ler sua sintomatologia a partir da psicanálise e quais são as orientações possíveis para o tratamento.


Francis articula esses elementos às formas de sofrimento do presente: diagnósticos amplificados, apresentações sintomáticas que oscilam entre corpo e linguagem e quadros que escapam aos modelos tradicionais.


A Perversão Como Estrutura

A perversão é abordada na plataforma em dois percursos complementares: a trilha As Estruturas Clínicas, conduzida por Leonardo de Miranda Ferreira, e o podcast A Perversão, por Daniel Omar Perez. Juntos, eles permitem situar a perversão para além do uso comum do termo, recolocando-a no interior da lógica estrutural proposta por Freud e formalizada por Lacan.


Leonardo apresenta a perversão a partir de sua posição estrutural: trata-se de uma maneira específica de o sujeito se localizar diante da Lei e do gozo, o que a articula diretamente à neurose e à psicose. A perversão como uma posição subjetiva frente à castração.


Já Daniel Perez aprofunda essa conceituação retomando três pontos centrais:


  • da linguagem comum à teoria

  • o desvio da pulsão em Freud

  • a formalização lacaniana


O percurso também aborda os dois modelos paradigmáticos da tradição freudiana — fetichismo e sadomasoquismo — mostrando como Lacan reposiciona ambos para além da conduta e dentro da lógica estrutural do sujeito.


Por que ainda precisamos das estruturas?


Chegamos ao fim deste artigo pelas três grandes referências clínicas da psicanálise — neurose, psicose e perversão — mas não ao fim do trabalho que elas exigem.


O esforço de Freud para organizar o campo clínico e o gesto de Lacan ao retomar, reformular e, mais tarde, deslocar essas categorias mostram que as estruturas não são coleções de sintomas nem caixas classificatórias.


É por isso que, ainda hoje, para quem estuda e pratica psicanálise, as estruturas continuam sendo bússolas para orientar escutas e situar o analista no laço. Se as estruturas já não são o ponto de chegada, continuam sendo um ponto de passagem fundamental.




 

Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.




 
 
 

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