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As Patologias do Eu e a metáfora do Cavaleiro

De repente surgem pensamentos que não se sabe de onde vêm;

tampouco se tem como expulsá-los.

— Sigmund Freud, 1917


As chamadas Patologias do Eu dizem respeito a um impasse estrutural do próprio Eu, ou a um desvio patológico em relação a dita normalidade?


Sigmund Freud forneceu a base teórica estrutural e metapsicológica que nos permite pensar as formações psíquicas, indicando o modo como o Eu se constitui, se defende e fracassa em suas funções diante das exigências do Isso, do Supereu e da realidade.


Desde Freud, portanto, o Eu já se apresenta como uma instância atravessada por limites estruturais, tirando da patologia a ideia de desvio em relação à normalidade. Não por acaso, é comum, na busca por respostas sobre a constituição do Eu e suas patologias, nos apoiarmos na máxima freudiana de que “o Eu não é senhor em sua própria casa” (Freud, 1917).


Vamos partir desse lugar de governança — ou da tentativa de governar — e destacar as partes implicadas na constituição do sujeito e de seus conflitos, onde as chamadas patologias do Eu se configuram e chegam à clínica sob a forma de sintomas.


Uma dificuldade no caminho da psicanálise


Alexandre Patrício de Almeida, psicanalista e escritor, ao comentar essa clássica passagem freudiana, nos adverte logo de saída:


“Por isso que a psicanálise balança as estruturas e incomoda tanto! Porque onde já se viu uma ciência dizer que o homem não é o senhor da sua própria casa? Você não é dono do seu destino; tem algo maior, uma instância que te controla, te passa o tapete, que escapa, que a gente chama de inconsciente”, reflete.


No texto Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise (1917), Sigmund Freud levanta a hipótese de que a libido é a grande responsável pelos distúrbios neuróticos do sujeito. Podemos acrescentar que é, em consequência disso, que o sujeito chega a uma análise, carregando consigo seus sintomas, frequentemente nomeados como “patológicos”.


Vale lembrar que, na psicanálise, o termo patologia se afasta de seu uso médico clássico. Enquanto, para as ciências médicas, a patologia é sinônimo de doença ou disfunção a ser corrigida, no campo psicanalítico ela diz respeito aos modos singulares de organização do sofrimento psíquico, colocando em questão a própria ideia de um Eu pleno e senhor de si.


Mais ainda


Nesse mesmo texto, Freud articula a concepção de libido à sua teoria do narcisismo, desenvolvida em 1914. Alexandre Patricio, no percurso As Transformações da Clínica, chama atenção para a necessidade de compreendermos a fundo as bases narcísicas do sujeito que se apresenta na clínica. Segundo Patrício, sem esse entendimento, a escuta fica precária.


No trabalho de análise, é preciso considerar a forma como a libido se distribui no sujeito: inicialmente, toda a energia libidinal encontra-se investida no próprio Eu, configurando um estado originário de narcisismo.


Apenas posteriormente essa libido transborda em direção aos objetos externos. Ainda assim, esse movimento nunca se realiza de modo absoluto: uma parcela da libido permanece sempre ligada ao Eu.

É importante lembrar que esse estágio do narcisismo dará lugar às chamadas patologias do Eu, como efeitos das condições iniciais de constituição narcísica e de seus limites estruturais.


Com a metáfora do cavaleiro — utilizada por Freud em 1923 — essa investigação acerca da constituição do Eu e de seus impasses se torna mais clara.


O Eu, o Isso e a metáfora do cavaleiro


A metáfora do cavaleiro, apresentada em O Eu e o Isso (1923), sustenta a ideia de um Eu limitado às estruturas de sua função. O cavaleiro conduz a carruagem, mas o faz a partir de uma força que não lhe pertence, o que já introduz a noção de fracasso como condição, e não como exceção. A emergência das patologias do Eu se dá nesse lugar.


Com a palavra, Sigmund Freud:


“Assim, em relação ao Isso, ele se compara ao cavaleiro que deve pôr freios à força superior do cavalo, com a diferença de que o cavaleiro tenta fazê-lo com suas próprias forças, e o Eu, com forças emprestadas. Assim como o cavaleiro, a fim de não se separar do cavalo, muitas vezes tem de conduzi-lo aonde ele quer ir, também o Eu costuma transformar em ato a vontade do Isso, como se ela fosse a sua própria.”


O que temos aqui é uma articulação dinâmica entre três estruturas que não se descolam, das quais apenas uma pequena parte se apresenta como consciente e que, sobretudo, indicam nossos modos de agir, sentir e pensar no mundo: Eu, Isso e Supereu.


Uma pergunta importante seria: onde se originam essas patologias do Eu? A resposta mais adequada se dá como uma aposta situada em fases bastante remotas do desenvolvimento psíquico do sujeito.


De Freud à Green


Chegamos até aqui com a argumentação de que o sujeito entra na linguagem — na cultura — e recebe (ou não) de seus cuidadores iniciais um afeto, seja ele positivo ou nem tanto, e que essa seria a base que funda o Eu, conforme a proposta de Freud sobre o narcisismo.


Observamos também que, a depender dessa base constituída no estágio do narcisismo, as patologias, ou sintomas, indicam a necessidade de escutas clínicas mais sensíveis, quando o Eu não consegue simbolizar ou sustentar seus afetos primários.


Alexandre Patrício de Almeida, psicanalista e escritor, no novo percurso da plataforma, atravessa de Freud a André Green, em detalhes, da teoria à clínica, mostrando que um Eu que não passou, se demorou ou não articulou seus afetos primários na fase do narcisismo chega à vida adulta com fissuras consideráveis na psique. E isso demanda uma escuta mais cuidadosa.


As Transformações da Clínica


Aqui, uma ressalva: toda escuta na psicanálise é afetada — são dois inconscientes em trabalho —, porém, como alerta Patrício, um Eu mais inteiro aceita uma intervenção mais direta no setting analítico; ao contrário, um Eu mais frágil, que não se fundou no narcisismo primário de modo a “aguentar o tranco”, demanda uma escuta, nesses termos, de maior sensibilidade por parte do analista.


“Quando a gente ouve com certa pressa, com essa sagacidade, bancando esse lugar de saber, ‘sei tudo sobre esse sujeito’, a gente está sendo tão pretensioso... E a análise pode ser tudo, menos algo pretensioso”, argumenta Patrício.


Independentemente do que acomete o sujeito na vida, ele busca uma análise pela via do sofrimento. Salvo engano, não existe sofrer mais ou menos na escuta do analista. Existe um sujeito em sofrimento, e isso é o bastante para dar início ao tratamento dessas patologias do Eu.


Isso não elimina, porém, as diferenças estruturais entre os sujeitos, nem as exigências específicas que cada organização do Eu impõe à direção do tratamento. São esses os temas que uma psicanálise pode, sem garantia, sustentar e entregar ao analisando.


Nota: André Green nasceu no Egito, formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria e psicanálise na França, nas décadas de 50 e 60. Durante sete anos acompanhou o Seminário de Jacques Lacan, mas também buscou em Melanie Klein, Wilfred Bion e Donald Winnicott subsídios para sua atividade clínica.





Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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