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Marie Langer: Clínica, Exílio e Política

A psicanálise, enquanto teoria e clínica, teve diferentes multiplicadores ao longo de sua história — muitos deles ainda pouco conhecidos, inclusive dentro do próprio campo psicanalítico.


Isso é, no mínimo, curioso, já que a própria psicanálise sustenta a importância da formação continuada e da pesquisa sobre suas diferentes vertentes, não para reproduzir modelos de transmissão, mas para que cada analista possa construir uma leitura singular a partir do legado teórico que recebe.


Já discutimos aqui no blog como certas vozes foram progressivamente apagadas da história da psicanálise — especialmente as de muitas mulheres.


Marie Langer, apesar de raramente aparecer nas referências mais tradicionais da psicanálise, possui uma trajetória importante para a consolidação do movimento psicanalítico na América Latina, aproximando clínica, política e transformação social.


Uma Breve Biografia


Nascida em Viena, em uma família burguesa judaica, Marie Glass Hauser (1910–1987) teve sua juventude atravessada pela queda do Império Austro-Húngaro e pelo despertar de seus interesses sociais, influenciada desde cedo pelas leituras de Karl Marx e Sigmund Freud.


Formou-se em medicina pela Universidade de Viena e iniciou sua formação psicanalítica com Richard Sterba. No entanto, acabou sendo excluída da Sociedade Psicanalítica de Viena devido ao seu engajamento com o Partido Comunista, considerado, naquele contexto, um risco institucional diante do avanço do autoritarismo na Europa.


No início da década de 1930, ainda em Viena, viveu um primeiro casamento breve, e divorciou-se. Mais tarde, conheceu o médico Max Langer, com quem compartilhava a militância na Federação Juvenil Comunista. Os dois se casariam posteriormente e, em 1936, partiram para a Guerra Civil Espanhola, atuando ao lado dos republicanos.


Marie e Max Langer tiveram quatro filhos: Tomas, Martin, Ana e Veronica. Uma das marcas da obra de Marie Langer é justamente o entrelaçamento entre experiência pessoal e elaboração teórica. Isso aparece em Maternidade e Sexo (1951-1952), obra em que discute as tensões entre maternidade e emancipação feminina — tema atravessado por sua própria vivência.


Pessoalmente, Langer era descrita como uma mulher de presença marcante. Segundo relatos reunidos em nossa pesquisa, aqueles que conviveram com ela lembravam sua capacidade de transitar entre a elegância da analista didata e a informalidade da militante política.


O Contexto do Exílio e Perseguição


Embora sua vida íntima tenha sido profundamente atravessada pela violência política, Marie Langer ocupou um lugar raro e frequentemente considerado incompatível para a época: o de mãe de quatro filhos e o de militante revolucionária.


Sua trajetória foi marcada por sucessivos exílios. Ainda na década de 1930, enfrentou o avanço do antissemitismo na Europa e viu o Partido Comunista — do qual fazia parte — ser colocado na ilegalidade. Antes do exílio definitivo, chegou a passar um período em Berlim, onde participou de seminários e supervisões clínicas.


Com a ascensão do nazismo, em 1936, mudou-se para a Espanha para atuar na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos. Nesse período, trabalhou como médica anestesista nas Brigadas Internacionais ao lado de Max Langer, com quem compartilhava militância política e vida íntima.


Após a experiência espanhola, o casal retornou brevemente a Viena, mas decidiu partir imediatamente diante da anexação da Áustria pela Alemanha nazista (Anschluss).


Entre as possibilidades de refúgio — México, Uruguai e Haiti — escolheram inicialmente o Uruguai, em 1939. No entanto, foi em Buenos Aires, na Argentina, que se estabeleceram de maneira mais longa, a partir de 1942.


Na década de 1970, o clima político argentino tornou-se extremamente repressivo. Marie Langer e outros companheiros ligados à esquerda passaram a ser perseguidos pela Triple A (Aliança Anticomunista Argentina), e ela chegou a receber ameaças de morte.


Em 1974, exilou-se na Cidade do México, onde foi acolhida pela comunidade psicanalítica local. Alguns anos depois, em 1981, organizou, a partir do México, a Brigada México–Nicarágua, iniciativa voltada ao cuidado em saúde mental durante a Revolução Sandinista. Nesse trabalho, desenvolveu práticas clínicas inspiradas na psicanálise para atender populações atravessadas pela guerra.


Marie Langer faleceu em Buenos Aires, em dezembro de 1987, após retornar à cidade que considerava sua “última morada”.


Entre a Europa e a América Latina


Quando chegou a Buenos Aires, em 1942, Marie Langer tornou-se a única mulher entre os seis fundadores da Associação Psicanalítica Argentina (APA). Ao longo de quase trinta anos, ocupou uma posição de destaque na instituição, atuando como analista didata, supervisora e também presidenta da associação.


Em 1951, publicou Maternidade e Sexo, obra em que articulava a clínica kleiniana — predominante naquele período — a uma perspectiva antropológica e social da subjetividade feminina.


Langer se destacou como pioneira da psicoterapia de grupo, deslocando parte da prática analítica do consultório individual para experiências coletivas de escuta e elaboração, e também publicando trabalhos em parceria com Leon Grinberg e Emilio Rodrigué.


No final da década de 1960, em meio à crise das instituições psicanalíticas internacionais, liderou a criação do Grupo Plataforma. O movimento surgiu como uma crítica ao que seus integrantes percebiam como elitismo institucional, neutralidade política e distanciamento das tensões sociais da época, representada pela IPA.


A militância de Langer nunca se restringiu aos limites institucionais. Curiosamente, apesar de seu papel decisivo na fundação da APA, algumas versões da memória institucional chegaram a omitir seu nome como fundadora durante décadas após a ruptura com a associação.


Um dos pontos centrais desse rompimento foi justamente o desejo de articular Freud e Marx. Langer e seus colegas recusavam a ideia de uma psicanálise politicamente neutra.


conclusão


Parte da literatura contemporânea descreve Marie Langer como uma ‘psicanalista de antecipação’: uma intelectual que rompeu com o conformismo institucional para defender uma psicanálise comprometida com as transformações sociais e com os direitos humanos.


Sua identidade como analista foi forjada na resistência. Primeiro, ao ser excluída da Sociedade Psicanalítica de Viena em razão de sua militância comunista; depois, ao ocupar um lugar singular como a única mulher entre os seis fundadores da Associação Psicanalítica Argentina (APA).


Para além dos laços consanguíneos, Langer valorizava aquilo que chamava de “família que se vai armando”. No exílio — especialmente no México — tornou-se uma figura agregadora, ajudando outros exilados a reconstruírem vínculos e a “fazer família” em terras estrangeiras.


Mesmo diante de perseguições e perdas sucessivas, Marie Langer permaneceu cercada pelo apoio de filhos e netos, que a acompanharam ao longo da vida. Seu percurso deixa como herança a defesa de uma psicanálise capaz de sustentar a escuta do sujeito sem se desligar das violências, conflitos e transformações históricas que atravessam o laço social.



Referências Bibliográficas

FIORINI, Leticia Glocer. Revisitando Marie Langer. Calibán - Revista Latino-americana de Psicanálise (RLP), [s. l.], v. 21, n. 1, p. 256–263, 2023.


LANGER, Marie. Maternidade e sexo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1951.


TEODORO, Maria de Lourdes. Marie Langer (1910–1987). Brasília: Sociedade de Psicanálise de Brasília/FEBRAPSI, [2016?].


Vídeos e Documentários

A VIDA de Marie Langer. Entrevistado: Daniel Omar Perez. [S. l.]: ESPEcast, [s. d.]. 1 vídeo (YouTube).


MARIE Langer: deseo y revolución. Direção: Marcelo Céspedes. Produção: Belén de Martino. Buenos Aires: Biblioteca Nacional Mariano Moreno, [s. d.]. 1 vídeo (documentário).






Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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