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Psicanálise nas Instituições de Saúde: Como Sustentar a Experiência do Cuidado?

“Você entra no hospital como doente; agora, para virar paciente, você precisa exercitar a paciência, para os médicos poderem trabalhar.”

— Chico Pinheiro


O contexto hospitalar é, quase sempre, atravessado pelo sofrimento. Salvaguardadas as diferentes circunstâncias clínicas, buscamos uma instituição de saúde quando algo do corpo, da dor ou da angústia emerge, incontornavelmente. Procura-se um diagnóstico, um tratamento, a interrupção de um sofrimento ou alguma possibilidade de cura.


No entanto, entre o surgimento da doença e a entrada do sujeito na instituição, existe um percurso subjetivo que não pode ser reduzido ao funcionamento orgânico. Isso porque o adoecimento está para além de um sintoma médico.


Podemos dizer que se trata também de uma experiência singular, que mobiliza angústias, fantasias, modos de gozo e formas particulares de dar resposta ao sofrimento.


São justamente essas questões que atravessam a psicanálise. E, quando pensamos sua presença nas instituições de saúde, é preciso interrogar de que maneira essa prática se mantém em espaços tradicionalmente organizados pelo discurso médico e pela lógica institucional do tratamento.


O processo de adoecimento


Para a psicanalista Maria Lívia Moretto, esse processo pode ser trabalhado a partir de duas dimensões fundamentais: a noção de acontecimento e a noção de experiência. Ambas compõem aquilo que podemos chamar de processo de adoecimento.


O acontecimento remete à manifestação da doença no corpo; a experiência diz respeito à maneira pela qual cada sujeito atravessa aquilo que lhe acontece.


Essa leitura reclama o abandono de uma divisão rígida entre psíquico e orgânico. Desde Sigmund Freud, especialmente a partir do conceito de pulsão, compreende-se que corpo e linguagem não aparecem dissociados.


O sofrimento não é apenas da ordem biológica, tampouco puramente psíquico: ele se produz nesse entrelaçamento entre soma, desejo e linguagem.


A noção do acontecimento de corpo

O adoecimento costuma operar como um marco simbólico na vida do sujeito. Muitas vezes, ele divide a experiência em um “antes” e um “depois”, introduzindo uma ruptura na forma como a vida era antes da doença.


Esse acontecimento inesperado desorganiza as referências e exige do sujeito um trabalho psíquico diante daquilo que lhe acontece. Trata-se da doença enquanto fato — algo que possui um tempo, uma data, um diagnóstico, uma inscrição objetiva na realidade.


Frequentemente, a pessoa é convocada a atribuir sentido ao que foi vivido. Diante do sem sentido que uma doença pode introduzir, é comum que o sujeito tente elaborar explicações e razões que tornem o acontecimento suportável.


Isso porque certos acontecimentos produzem uma ruptura no cotidiano. O corpo deixa de responder da mesma forma, a rotina se altera, projetos precisam ser interrompidos e a própria imagem que o sujeito fazia de si pode vacilar. Como efeito, surgem experiências de surpresa, vergonha, impotência, tédio, solidão e desamparo.


Uma frase recorrente pode representar esse momento: “isso é demais para mim”.


Experiência singular

Se o acontecimento diz respeito à doença enquanto fato, a experiência singular corresponde à dimensão subjetiva desse acontecimento, ou seja, o modo pelo qual cada sujeito atravessa e se apropria daquilo que lhe aconteceu.


A construção dessa experiência não é imediata nem necessariamente correlata ao surgimento da doença. Entre o acontecimento e sua subjetivação existe um tempo — e, sobretudo, um trabalho psíquico.


Por isso, a experiência não pode ser inteiramente observada de fora. Diferentemente do acontecimento, que pode ser testemunhado e diagnosticado por diversos profissionais, a experiência pertence à ordem do vivido.


Aqui entra a escuta psicanalítica, fundamental nas instituições de saúde. Enquanto o discurso médico frequentemente se organiza em torno da doença e de seus protocolos de tratamento, a psicanálise se orienta pelo jeito único como cada sujeito responde ao adoecimento.


A Experiência do cuidado em psicanálise


A passagem do acontecimento para a experiência — isto é, a construção subjetiva do adoecimento — raramente ocorre de modo espontâneo. Para que um sujeito consiga se apropriar daquilo que lhe aconteceu, é necessário um trabalho psíquico que, muitas vezes, se constrói pela via da narrativa.


Nesse ponto entra o trabalho do analista. E ele pode inclusive ser prejudicado por um equívoco metodológico um tanto comum: quando o profissional constrói uma narrativa sobre o sofrimento do paciente e a devolve pronta. Não é disso que se trata a psicanálise.


No ambiente hospitalar, como em todo setting analítico, o analista funciona como uma figura de alteridade: alguém que testemunha essa passagem do acontecimento à experiência e que se oferece como ponto de endereçamento para a fala do paciente.


Não para interpretar precipitadamente o sofrimento, mas oferecer um espaço em que o sujeito possa construir sua própria narrativa.


Não é raro que pacientes perguntem:

“Por que agora?”

“Por que comigo?”


Como aponta Maria Lívia Moretto, são perguntas da ordem do impossível. No entanto, quando alguém formula essas questões, está tentando se localizar subjetivamente diante do acontecimento.


Nas palavras de Moretto:


“Se o acontecimento tem um nome, a experiência tem uma história. Se o acontecimento está para todos, a experiência está para cada um.”


Conclusão


Em ambientes frequentemente organizados pelo predomínio do discurso médico, por que ainda há lugar para o psicanalista?


Para Maria Lívia Moretto, a permanência da psicanálise nas instituições de saúde se sustenta pelos efeitos produzidos por sua prática clínica. Há algo do sofrimento que escapa aos protocolos, diagnósticos e intervenções técnicas — um resto que não pode ser inteiramente absorvido pelo atendimento médico.


“O recurso principal para lidar com o sofrimento, por mais barato que possa ser do ponto de vista material da instituição, é um recurso caro, que é a escuta qualificada”, observa a psicanalista.


Sustentar a experiência do cuidado, em psicanálise, implica oferecer um espaço onde o sofrimento possa adquirir estatuto de palavra, e não apenas ser tratado como sintoma a ser eliminado. Consiste em possibilitar que o sujeito construa uma experiência própria diante daquilo que o atravessa.


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Este artigo foi escrito a partir da aula da docente Dra Maria Livia Moretto.


Sobre a docente:

Psicanalista. Doutora em Psicologia Clínica pela USP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Chefe do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP. É coordenadora do Laboratório de Pesquisa Psicanálise, Saúde e Instituição (LABPSI) do IPUSP. Editora-Chefe da Revista Psicologia USP. Professora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.






Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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