Cem anos de Inibição, Sintoma e Angústia
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"Logo se tornou claro para mim que a angústia de meus pacientes neuróticos tinha muito a ver com a sexualidade."
— Sigmund Freud, Manuscrito E (1894)
É curioso observar como a teoria psicanalítica se desenha pela pena de Freud. Quando falamos do centenário de Inibição, Sintoma e Angústia (1926), temos como pano de fundo uma das mais importantes revisões realizadas pelo próprio autor: a reformulação de sua teoria da angústia.
Pesquisadores, como o professor e psicanalista Daniel Omar Perez, costumam destacar, em suas aulas e conferências, a existência de "duas teorias da angústia" em Freud, demarcando esses dois momentos de sua elaboração teórica.
Ao passar em revista a origem da angústia, Freud desloca o foco para o papel do Eu diante das situações de perigo, reorganizando não só a compreensão da repressão, como também da formação dos sintomas e do próprio funcionamento do aparelho psíquico.
As duas teorias da angústia
A angústia acompanha Freud desde as origens da psicanálise. Ainda no final do século XIX, o tema já aparece nos manuscritos e na correspondência com Wilhelm Fliess, onde Freud busca compreender a relação entre histeria, neurose de angústia e os fatores etiológicos das neuroses.
Nesse primeiro momento, encontramos a primeira formulação de sua teoria da angústia. A hipótese freudiana era de que a angústia decorria da repressão da energia libidinal: a tensão sexual que não encontrava uma via de elaboração ou descarga transformava-se em angústia.
Como resume o filósofo e psicanalista Daniel Omar Perez: "Basicamente, poderíamos pensar que Freud está tentando entender a angústia de seus pacientes como uma manifestação sintomática que se produz a partir da repressão da energia sexual."
Essa tese acompanhou Freud durante décadas e orientou boa parte de seus primeiros trabalhos clínicos. No entanto, à medida que sua experiência analítica se ampliava e sua teoria do aparelho psíquico se transformava, essa explicação começou a impor seus limites.
É justamente em Inibição, Sintoma e Angústia (1926) que Freud promove uma das mais importantes revisões de toda a sua obra. A relação entre angústia e repressão é invertida: se antes a angústia era compreendida como consequência da repressão, agora ela passa a ser concebida como aquilo que a desencadeia.
A partir dessa nova formulação, é a angústia — entendida como um sinal emitido pelo Eu diante de uma situação de perigo — que mobiliza a repressão. O Eu percebe uma ameaça, produz a angústia-sinal e, em seguida, coloca em funcionamento os mecanismos defensivos. A angústia deixa, portanto, de ser o efeito da repressão para tornar-se um de seus motores.
Essa mudança reorganiza a dinâmica do aparelho psíquico, colocando uma nova maneira de compreender o funcionamento do Eu, da repressão e da formação dos sintomas.
É também nesse contexto que Freud interpreta as fobias como expressão do medo do Eu diante da castração, afirmando que é esse perigo que provoca a angústia e coloca em marcha o processo repressivo.
Ao afirmar que "a angústia nunca nasce da libido reprimida", Freud contesta uma formulação que ele próprio havia sustentado durante mais de trinta anos. Poucas vezes, em sua obra, um conceito fundamental foi revisto de maneira tão explícita.
Essa revisão é resultado do retorno de Freud aos textos, aos casos clínicos e aos impasses encontrados pela prática analítica, mas também do intenso debate com contemporâneos, especialmente Otto Rank e sua teoria do trauma do nascimento.
Inibição e sintoma
Agora que apresentamos a reformulação da teoria da angústia, voltemos nossa atenção para uma questão que dá nome ao próprio livro: afinal, o que distingue uma inibição de um sintoma? Logo nas primeiras linhas do texto de 1926, Freud reconhece que essa distinção nem sempre é evidente.
Em muitos casos, observa, "parece ser algo arbitrário se enfatizamos o lado negativo ou o lado positivo do processo patológico, se caracterizamos seu resultado como sintoma ou como inibição". A advertência é importante: embora relacionados, os dois conceitos não são equivalentes e, justamente por isso, precisam ser investigados separadamente.
Ele propõe uma análise comparativa a partir de quatro grandes funções da vida: a sexualidade, a nutrição, a locomoção e o trabalho. São funções que, ainda hoje, constituem aspectos centrais do sofrimento psíquico.
A primeira definição apresentada é a de inibição.
Para Freud, a inibição "exprime uma limitação funcional do Eu, limitação que pode ter causas muito diversas". Ela não é, necessariamente, um sintoma; trata-se de uma restrição no exercício de determinada função.
Como exemplo, Freud afirma que, quando atividades como tocar piano, escrever ou mesmo andar são atingidas por inibições neuróticas, isso pode decorrer de uma erotização excessiva dos órgãos envolvidos nessas funções, como os dedos ou os pés.
Ele procura compreender as limitações do sujeito a partir da dinâmica entre o Eu, o Isso e o Supereu, mostrando como o conflito psíquico pode repercutir diretamente sobre o funcionamento das atividades mais ordinárias.
O sintoma, por sua vez, recebe uma definição distinta.
Ele é "indício e substituto de uma satisfação instintual que não aconteceu, consequência do processo de repressão". A repressão, explica Freud, "procede do Eu, que — por solicitação do Supereu, eventualmente — não deseja colaborar num investimento instintual despertado no Id".
O sintoma, portanto, não corresponde apenas a uma limitação funcional, mas representa uma formação psíquica produzida como solução de compromisso diante de um conflito inconsciente.
A inibição pode, em determinadas circunstâncias, adquirir um caráter sintomático, mas Freud preserva a diferença entre ambas porque elas ocupam lugares distintos na economia psíquica.
A inibição funciona, muitas vezes, como uma restrição do Eu; o sintoma, ao contrário, é uma elaboração mais complexa, resultado do trabalho da repressão para administrar um conflito pulsional.
Se o sintoma é uma consequência da repressão e a inibição pode operar como uma limitação protetiva do Eu, a angústia aparece como o afeto que sinaliza a presença do perigo e mobiliza os mecanismos de defesa.
Não por acaso, Freud define a angústia como "a reação ao perigo", acrescentando que sua posição privilegiada na economia psíquica decorre justamente da função de alertar o Eu diante de situações que ameaçam sua organização.
Freud em revista
Cem anos depois de sua publicação, Inibição, Sintoma e Angústia continua propondo as mesmas perguntas fundamentais que orientam sua leitura.
O que é uma inibição?
Para Freud, trata-se de uma limitação funcional do Eu, que restringe determinada atividade sem, necessariamente, constituir um sintoma.
O que é um sintoma?
É uma formação psíquica produzida como consequência da repressão, um substituto para uma satisfação pulsional que não pôde encontrar expressão direta.
E o que é a angústia?
A resposta depende do momento da obra freudiana. Na primeira teoria, ela aparece como consequência da repressão da energia libidinal. Em 1926, a angústia passa a ser compreendida como um sinal de perigo emitido pelo Eu, tornando-se aquilo que desencadeia a repressão e organiza o funcionamento das defesas.
A disposição para revisar a própria teoria faz de Inibição, Sintoma e Angústia um clássico na formação de todo analista. O livro redefine conceitos fundamentais da metapsicologia e oferece um modo de pensar a clínica.
Cem anos depois, é essa atitude investigativa — tanto quanto os conceitos que dela resultam — que mantém o texto vivo e indispensável para quem deseja compreender a clínica psicanalítica.
Referências
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Manuscrito E: como se origina a angústia? (1894). In: FREUD, Sigmund. As origens da psicanálise: cartas a Wilhelm Fliess, manuscritos e notas (1887-1902). Rio de Janeiro: Imago, 1975.
PEREZ, Daniel Omar. As duas angústias de Freud. Canal ESPEcast, YouTube.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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