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Sándor Ferenczi, o enfant terrible de Budapeste

O ano era 1893. A cidade de Miskolc, nordeste da Hungria. Nasce Sándor Ferenczi, oitavo filho de uma família judaica marcada pela morte precoce do pai, livreiro e editor. Cresce inserido no ambiente intelectual húngaro e transita desde cedo entre línguas e tradições — falava húngaro, alemão, francês, latim, grego e inglês.


Forma-se em Medicina em Viena, no mesmo cenário cultural que viu emergir o pensamento freudiano. Seu retorno a Budapeste marca o início de uma trajetória que atravessa a clínica médica, o engajamento social e, posteriormente, a invenção psicanalítica.


Atento ao sofrimento dos sujeitos à margem, Ferenczi desenvolve uma sensibilidade clínica que o aproxima das formulações mais originais sobre o trauma e a vulnerabilidade psíquica. A partir daí, começa a se desenhar a posição singular que Ferenczi ocupará na psicanálise.


Por que Ferenczi?


Por muito tempo, a circulação dos textos de Ferenczi ficou restrita ao alemão, e essa organização desigual das traduções contribuiu para leituras parciais de sua obra.


Ao contrário do que muitas vezes se afirma, Ferenczi não foi apenas alguém que “bebeu da fonte” nos primeiros encontros com Sigmund Freud. Desde cedo, ocupou a posição de interlocutor privilegiado — talvez o mais citado pelo próprio Freud — e participou ativamente da elaboração conceitual da psicanálise.


A pergunta “por que Ferenczi?” não é retórica. Ela posiciona sua obra no centro do debate contemporâneo, sobretudo diante de configurações clínicas mais complexas, nas quais suas formulações sobre trauma, técnica e vulnerabilidade psíquica ganham renovada relevância.


Ferenczi, o enfant terrible da psicanálise freudiana


Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro, foi nomeado enfant terrible da psicanálise pela perspectiva dos atores do campo, que notavam sua audácia ao pontuar ideias teórico-clínicas pouco convencionais para a psicanálise.


Ele teve seu primeiro contato com Sigmund Freud em 1908, mesmo ano da aproximação de Carl Jung. Os três fizeram algumas viagens juntos, inclusive, em 1909, foram aos Estados Unidos da América para as conferências na Clark University, o que resultou no texto Cinco Lições de Psicanálise.


O trio seguiu unido por pouco tempo. Carl Jung se afasta de Freud em 1912; porém, Ferenczi permanece em interlocução ativa, apesar de, em alguns momentos, as diferenças na técnica começarem a aparecer, o que gerou um certo estranhamento por parte de Freud.


Daniel Kupermann, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), faz um apontamento interessante sobre essa nomeação de Ferenczi como interlocutor.


Para Kupermann, interlocutor não é discípulo, nem um propagador de ideias. Interlocutor é alguém que provoca o pensamento do outro, levantando a questão de que muitos textos de Freud eram respostas às provocações de Ferenczi.


Um exemplo clássico é o texto Análise terminável e interminável (1937), um diálogo direto com Ferenczi, segundo Kuppermann.


Elasticidade e tato: a ética da clínica


No texto clássico publicado em 1928, A elasticidade da técnica psicanalítica, Sándor Ferenczi elabora sobre os limites e as possibilidades da prática clínica e sobre o modo como a neutralidade e o manejo da transferência vinham sendo compreendidos.


É nesse texto que ele cita “a segunda regra fundamental da psicanálise, isto é, que quem quer analisar os outros deve, em primeiro lugar, ser ele próprio analisado”.


Mais à frente, deixa clara sua posição com relação ao que chama de tato psicológico: saber quando e como se comunica alguma coisa ao analisando; sob que forma a comunicação deve, em cada caso, ser apresentada; como se pode reagir aos movimentos do paciente e até quando se deve calar e aguardar novas associações.


Em suas palavras:

“O tato é a faculdade de ‘sentir com’ (Einfühlung). Se, com a ajuda do nosso saber, inferido da dissecação de numerosos psiquismos humanos, mas sobretudo da dissecação do nosso próprio eu, conseguirmos tornar presentes as associações possíveis ou prováveis do paciente, que ele ainda não percebe, poderemos adivinhar não só seus pensamentos retidos, mas também as tendências que lhe são inconscientes.”


Com relação ao tato, Ferenczi articula uma crítica que recebeu, afirmando que “sem dúvida alguma, serão numerosos aqueles que se aproveitarão de minhas proposições acerca da importância do ‘sentir com’ para enfatizar o fator subjetivo e subestimar o outro fator que sublinhei como sendo decisivo: a apreciação consciente da situação dinâmica”.


A pergunta que fica é: como sustentar a regra sem transformar a técnica em violência? A resposta que ele oferece é a elasticidade — e, no percurso As Transformações da Clínica, com Alexandre Patrício, podemos acompanhar esse e outros desdobramentos do pensamento de Sándor Ferenczi.


O legado ferencziano e seus efeitos clínicos


Nossas contribuições finais neste texto coincidem com o final da vida de Ferenczi, um desfecho marcado por algumas controvérsias.


Ernest Jones, primeiro biógrafo de Freud, foi analisando de Ferenczi por indicação do próprio Freud. Coube a ele a formulação de uma das principais versões sobre os últimos anos de vida de Ferenczi — período em que o autor aprofundou suas reflexões sobre a clínica e a teoria do trauma, talvez sua elaboração mais autoral.


Para Jones, Ferenczi estaria em estado psicótico delirante, sob efeito de anemia perniciosa, doença responsável por seu falecimento em 1933.


Nesse momento, seu pensamento retoma a centralidade da realidade do trauma — o “horror da presença real do adulto abusador” — diferenciando-se da tendência freudiana de privilegiar a dimensão da fantasia.

Ele formulou a teoria dos três tempos do trauma, que culmina no conceito de desmentido (Verleugnung): quando o ambiente nega a dor da vítima, retirando seu chão psíquico.


Sándor Ferenczi, hoje, nos ajuda a pensar o manejo na prática analítica para sujeitos em estado de vulnerabilidade, inclusive — e não somente — aqueles que experimentam seus efeitos pela via da identificação com o agressor, tema emergente na clínica contemporânea.





Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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