Do Amor ao Narcisismo: Notas Sobre uma Elaboração Freudiana
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Numa carta endereçada à sua noiva, Martha Bernays, escreve Sigmund Freud:
"Antes de ti, ignorava o que era a alegria de viver, e agora que és minha 'em princípio', a única condição que ponho à vida é que me permita ter-te comigo completamente. [...] Sou muito teimoso e temerário e necessito de grandes estímulos."
Não estamos habituados a entrar na intimidade de Sigmund Freud. As cartas dirigidas a Martha, assim como aos amigos ao longo de sua vida, nos permitem enxergar um homem intensamente afetado pelo amor.
À primeira vista, existe um abismo entre o jovem enamorado que escreve cartas inflamadas e o fundador da psicanálise que, décadas depois, elaborará conceitos como libido, idealização, identificação e narcisismo.
O leitor poderia então perguntar: o que a intimidade de Freud tem a contribuir para a compreensão de sua teoria?
As notas articulam essas questões. O que nos interessa é perceber que os problemas que Freud transformou em elaboração teórica também o atravessaram intimamente.
A experiência amorosa
Nas cartas dirigidas a Martha encontramos um Freud bem diferente da imagem associada ao fundador da psicanálise. Antes dos conceitos e esquemas teóricos, encontramos um homem apaixonado, atravessado pelas alegrias e sofrimentos próprios do amor.
Como citamos de saída, Freud escreve que, antes de Martha, ignorava o que era a alegria de viver e que a única condição que impunha à vida era poder tê-la consigo.
A distância entre os dois, durante o noivado, é vivida por Freud com particular intensidade. Em diversos momentos, a ausência de Martha aparece como uma privação.
Numa carta de 1885, ele afirma ser "apenas meia pessoa". Em outra, descreve uma ferida que continua a doer enquanto não consegue se ocupar de uma grande atividade.
Quando não pode estar com Martha, Freud mergulha em seus estudos, em seus pacientes e em suas formulações clínicas. Em determinado momento, compara-se a um "monge recolhido à sua cela", cercado por casos clínicos, teorias, diagnósticos e fórmulas.
A partir dessas observações, podemos compreender que, para além de uma declaração amorosa, havia uma idealização na relação com Martha; por outro lado, o trabalho parecia funcionar como uma forma de suportar a ausência, um modo de dar destino àquilo que insistia quando o objeto amado não estava presente.
Freud, nesse momento, ainda não fala em libido, narcisismo ou Ideal do Eu. Até porque essas cartas pertencem a um período anterior à fundação da psicanálise.
No entanto, as experiências que atravessam essa correspondência — a transformação produzida pelo amor, a dependência em relação ao outro, a idealização do objeto amado e o sofrimento da ausência — já denunciam algumas das questões que, décadas mais tarde, encontrarão elaboração conceitual em Introdução ao Narcisismo.
O problema teórico
As cartas a Martha nos mostram um Freud apaixonado, mas ainda não nos oferecem uma teoria do amor. Elas registram uma experiência: a alegria do encontro, a dor da ausência, a idealização do ser amado e a dependência que o vínculo produz.
O que nos interessa, ao retornar a essa correspondência à luz de Introdução ao Narcisismo, é compreender como essas experiências permitem entrever questões que mais tarde receberão elaboração conceitual.
Como observa o professor e psicanalista Daniel Omar Perez, Freud retoma um termo que inicialmente havia sido utilizado para designar uma forma específica de perversão e o transforma em um conceito fundamental para a compreensão da constituição subjetiva.
"O narcisismo não seria uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo do instinto de autoconservação, do qual justificadamente atribuímos uma porção a cada ser vivo", observa Perez.
O que fica evidente em Introdução ao Narcisismo é que o investimento em si mesmo e o investimento nos objetos não são movimentos independentes. A relação do sujeito consigo mesmo está permanentemente implicada em sua relação com os outros.
Amar, perder, desejar ou ser frustrado por alguém produz efeitos na economia libidinal do Eu.
Perez chama atenção para um aspecto particularmente importante dessa formulação: o movimento de retorno da libido ao próprio Eu quando o vínculo com o objeto se torna impossível ou excessivamente frustrante.
"O narcisismo secundário é justamente um movimento no qual a libido, que havia sido investida em objetos externos, é retirada e redirecionada de volta ao Eu."
Essa observação lança uma luz interessante sobre diversas passagens das cartas a Martha. Quando Freud descreve o trabalho intelectual como uma espécie de refúgio diante da separação, ou quando se recolhe aos estudos e aos pacientes para suportar a distância, encontramos um movimento que, no futuro, permitirá pensar de maneira mais precisa.
A energia que antes se dirigia ao objeto amoroso procura novos destinos.
A elaboração metapsicológica
Se as cartas a Martha nos mostram a experiência amorosa em sua dimensão mais imediata, Introdução ao Narcisismo procura responder ao problema que dela emerge.
Uma das contribuições centrais do ensaio consiste em formular a relação entre a libido investida no Eu e a libido investida nos objetos. Freud observa que existe uma circulação constante entre essas duas formas de investimento.
O enamoramento representa justamente um dos momentos mais intensos desse movimento, quando uma parcela significativa da libido é dirigida ao objeto amado.
Lidas retrospectivamente, algumas passagens das cartas parecem ilustrar essa dinâmica.
Quando Freud escreve que a única condição imposta à vida era poder ter Martha consigo completamente, ou quando associa sua felicidade à presença dela, encontramos uma experiência de forte investimento no objeto amoroso.
Décadas depois, essa experiência receberá uma formulação conceitual através da distinção entre libido do Eu e libido de objeto.
O ensaio de 1914 introduz ainda uma formulação categórica: a necessidade de amar. Freud afirma que é preciso começar a amar para não adoecer e que a impossibilidade de amar pode produzir sofrimento.
Ao descrever-se como "apenas meia pessoa" na ausência de Martha, Freud testemunha algo da vulnerabilidade produzida pela perda ou pelo afastamento do objeto amado.
Por fim
A metapsicologia freudiana não nasce das cartas, mas encontra nelas algumas das questões que procurará elaborar conceitualmente. A correspondência com Martha nos mostra que a alegria de Freud dependia das cartas recebidas e, sobretudo, da reciprocidade do vínculo.
O amor reorganiza a própria imagem que o sujeito possui de si.
Amar, perder, idealizar, esperar e desejar são problemas que se impõem ao pensamento freudiano e que encontrarão, anos mais tarde, elaboração conceitual em Introdução ao Narcisismo.
Acaso seja possível encerrar retornando ao próprio Freud, ainda distante da metapsicologia, mas já atravessado pelas questões que viriam a ocupar sua obra:
"Teu cavaleiro andante chegará sem outra bagagem que seu coração amante e desprovido de armas... Estou impaciente para te ver e falar da minha devoção."
— Sigmund Freud, em correspondência a Martha Bernays, 1882.
Referências
FREUD, Sigmund. Cartas de amor a Martha Bernays (1882-1886). Tradução de A. Popof. México, D.F.: Ediciones Coyoacán, 1995.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 12.
PEREZ, Daniel Omar. Narcisismo I. ESPEcast. Disponível em plataforma digital. Acesso em: 6 jun. 2026.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.


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