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Do Conflito ao Cuidado: Winnicott e a Psicanálise Inglesa

Partindo de uma série de intensos debates e reuniões científicas ocorridas na Sociedade Psicanalítica Britânica (British Psycho-Analytical Society) nos anos 1940, em pleno contexto da Segunda Guerra Mundial, podemos perceber que a chamada psicanálise inglesa, muitas vezes apresentada como uma alternativa à tradição freudiana, se aproxima bem mais de um amplo campo de debates, divergências e diferentes modos de compreender a teoria e a prática psicanalítica.


Um documento da própria Sociedade Psicanalítica Britânica, datado de julho de 1942, ajuda a dimensionar a intensidade dessas divergências.


Na Reunião Anual, realizada em 29 de julho daquele ano, a Sociedade decidiu reservar uma reunião por mês para a discussão das diferenças científicas. Para organizar esse programa, foi formado um comitê composto por cinco membros — entre eles, Dr. Edward Glover, Dra. Sylvia Brierley e James Strachey, psicanalista britânico e tradutor de Sigmund Freud para o inglês.


No memorando que organiza essas reuniões, lê-se:


“As implicações teóricas dividem-se em duas categorias: (1) geral, referente à estrutura e funções da mente (psicologia pura), e (2) específica, referente à etiologia do transtorno mental e às condições de saúde mental (psicologia médica). Tal divisão envolve uma certa quantidade de repetição, mas isso deve ajudar na elucidação e diminuir os riscos de descuido.”


O documento mostra que havia diferentes posições dentro da Sociedade e, mais do que isso, que essas diferenças demandavam um espaço específico para serem discutidas. A primeira reunião dedicada a esse tema aconteceu em outubro de 1942 e deu início a uma série de encontros que ficaria conhecida como Controversial Discussions.


Entre os nomes envolvidos nessas discussões estava Donald Winnicott. Próximo às formulações de Melanie Klein, mas não inteiramente identificado com elas, Winnicott participou de um dos momentos mais importantes da história da psicanálise britânica.


A posição de Winnicott nas Controversial Discussions


A posição de Winnicott no tabuleiro das Controversial Discussions era singular e, de certa forma, desconfortável.


De um lado, a Sociedade Britânica assistia à consolidação do grupo ligado a Anna Freud, que sustentava uma continuidade mais direta com a tradição freudiana, enfatizando os mecanismos de defesa do Eu e desenvolvendo uma abordagem própria para o trabalho psicanalítico com crianças.


De outro, ganhavam força as formulações de Melanie Klein, com sua teoria das relações de objeto e a investigação da fantasia inconsciente em seus níveis mais arcaicos. Winnicott, que possuía uma sólida formação como pediatra, recusou-se a se filiar rigidamente a qualquer uma das duas correntes.


Sua posição, entretanto, não significava neutralidade. Ao participar dos debates e sustentar formulações próprias, Winnicott ajudou a constituir, ao lado de outros analistas britânicos, aquilo que posteriormente seria reconhecido como o Middle Group, ou Grupo dos Independentes.


A partir disso, diferentes analistas passaram a desenvolver formulações próprias sobre o desenvolvimento psíquico, a clínica, a subjetividade e a técnica psicanalítica.


Sem abandonar Freud e sem aderir integralmente ao kleinismo, Winnicott caminha em direção às condições ambientais, à relação entre o bebê e aquele que dele cuida e aos processos mais primitivos envolvidos na constituição do sujeito.


Uma Mudança de Paradigma


Para compreender o impacto do deslocamento produzido por Donald Winnicott na história da psicanálise, é fundamental comparar sua prática com a herança vienense clássica.


O psicanalista Alexandre Patrício de Almeida ressalta que Sigmund Freud estruturou originalmente uma “clínica do conflito”. Essa abordagem tem como pedra angular a dinâmica edípica, a sexualidade infantil e a angústia de castração. Nela, o sofrimento psíquico é compreendido a partir do mecanismo do recalque (ou repressão).


Para ilustrar essa dinâmica, Patrício resgata a célebre metáfora do cavaleiro (o Eu), que tenta equilibrar-se e governar um cavalo impetuoso (o Isso), valendo-se das rédeas fornecidas pelo Supereu. Nesse cenário, o analista atua essencialmente como um tradutor do inconsciente, utilizando a associação livre e a interpretação para desvendar os enigmas e sintomas de um sujeito que já se encontra psiquicamente constituído.


O grande limite dessa técnica surge quando a clínica se depara com sofrimentos muito mais primitivos e não neuróticos, como nos casos borderline e psicóticos. Como aponta Patrício, a interpretação tradicional do recalque mostra-se pouco eficaz diante de pacientes que não possuem um “Eu” que ele denomina “minimamente integrado”, incapazes de discernir claramente os limites entre o dentro e o fora.


Se Freud concentrou seu método na clássica pergunta sobre o que o sujeito deseja e como ele lida com esse desejo, Winnicott radicaliza ao perguntar: “O que é preciso existir para que um sujeito possa ser capaz de desejar?”


Essa nova interrogação clínica modifica a interpretação verbal e coloca em primeiro plano o manejo e a ética do cuidado. Na prática winnicottiana, segundo o psicanalista Filipe Vieira, o analista deixa de ser um observador neutro ou até mesmo silencioso — postura que Ferenczi já denunciava como potencialmente traumática — para assumir uma função ativa na oferta de um “ambiente suficientemente bom”.


Aqui, o analista oferece o chamado holding, ou seja, sustentação emocional, e também manejo corporal e psíquico (handling), além da cuidadosa apresentação dos objetos do mundo ao paciente em doses suportáveis, permitindo que “a tendência inata à integração psicossomática do indivíduo possa finalmente se consolidar”.


conclusão


É preciso afastar aqui, talvez, um mal entendido. Na passagem do conflito ao cuidado, proposta por Winnicott, não se trata de abandonar a clínica freudiana do conflito, mas de recuar a pergunta para um momento anterior àquele em que o conflito pode ser constituído e interpretado.


Se Freud nos ensinou a escutar o desejo, o recalque e a fantasia, Winnicott nos convoca a perguntar pelas condições ambientais que tornaram possível a existência de um sujeito capaz de desejar, fantasiar e simbolizar.






Referências:

DUNKER, Christian. As escolas de psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 109: YouTube. 1 vídeo. Acesso em: 14 ago. 2026.


ALMEIDA, Alexandre Patrício de; VIEIRA, Filipe. Como a Psicanálise Inglesa transformou a teoria de Freud: ESPD. 1 vídeo. Acesso em: 16 ago. 2026.



Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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