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EXISTE UMA ORIGEM DA PSICANÁLISE?

Atualizado: 16 de abr.


Existe uma origem da psicanálise? Quais são as origens da Psicanálise?

A Psicanálise surge com a medicina, surge com um médico, em um trabalho dentro dos hospitais, com os neurologistas principalmente. Mas também apresenta uma relação com a filosofia da época, com a literatura, com a mitologia. Afinal, quais são as origens da Psicanálise? É isso que o professor Daniel Omar Perez nos explica neste primeiro episódio do ESPECast.



 

A psicanálise surge no final do século XIX, início do século XX. No volume 20 das obras completas encontramos uma série de textos intitulada “As Origens da Psicanálise” onde encontramos as cartas e os manuscritos enviados a Wilhelm Flieβ, considerados, de uma certa forma, como a autoanálise de Freud. O ponto de vista apresentado por Freud nestes textos é um ponto de vista médico. A psicanálise, portanto, enquanto trabalho clínico, enquanto teoria que acolhe os sintomas histéricos e tenta removê-los, é trabalho de um médico. Trabalho vinculado a hospitais, a uma clínica particular e a um conjunto de conceitos e de práticas que se aprendiam na universidade e que entendiam, de algum modo, a medicina como uma ciência da natureza. Talvez por isso Freud entendia, em vários momentos de sua vida, a psicanálise como uma Ciência da Natureza.


Outro elemento bastante importante da época, e que influenciou Freud, foi o eletromagnetismo, uma teoria que servia como um modelo para trabalhos terapêuticos com pedras, energização, energização com o toque de mãos e com teorias de sugestão. O que se conecta muito com a filosofia positivista, que entende que existe um progresso linear na história da humanidade, ou seja, onde partimos de um conhecimento primitivo a um estágio mais evoluído deste conhecimento, mais desenvolvido da ciência propriamente dita. Freud era parte do movimento positivista, tendo, inclusive, assinado uma declaração a respeito. Assim sendo, Freud dizia que não lia muito Nietzsche para acabar não copiando o mesmo. Quer dizer, esta informação revela que as possíveis leituras da filosofia antipositivista de Nietzsche seriam influência importante no trabalho de Freud e da psicanálise.


Neste aspecto, podemos ter a psicanálise sendo entendida como uma ciência da natureza, como uma técnica dentro de uma prática médica e dentro do horizonte da filosofia positivista. Ademais, na época, encontramos teorias da biologia profundamente influenciadas por Darwin. O volume “A Origem das Espécies” criou um horizonte epistemológico onde se inseriam várias ciências para além da biologia. Há estudos, porém, que encontram vários elementos de concepção biológicas pré-darwinianas em Freud.


Anteriormente a Nietzche, outro filósofo importante e influente em Freud é Schopenhauer. Várias pesquisas mostram a relação entre sua filosofia e o inconsciente freudiano. Um livro importante que aparece na época de Freud, no período entre Nietzche e Schopenhauer, é “A Filosofia do Inconsciente”, de Eduard von Hartmann. Inconsciente. Palavra muito usada na Europa do século XIX que Freud toma para criar um mecanismo, uma economia, uma dinâmica, um aparelho psíquico que compreenderia o Inconsciente, o Pré-Consciente e o Consciente, que se tornaria a sua primeira tópica.


Outro elemento importante para o desenvolvimento da psicanálise é o associassonismo, que comportaria a regra de ouro da Psicanálise. Essa é uma ideia retomada por Freud a partir de Stuart Mill e de sua filosofia utilitarista, é de sua lógica.


Uma linha de trabalho sobre as origens da psicanálise entende que Freud seria herdeiro de Immanuel Kant, filósofo este que teria entendido a ciência como o âmbito da resolução de problemas a partir de conceitos, proposições e ideias heurísticas. A psicanálise teria um conjunto dessas ideias que permitiriam ordenar um conjunto de elementos em uma experiência para a partir daí poder levar adiante uma espécie de trabalho clínico e terapêutico, guiado por ideias heurísticas que ordenariam o campo.


Outra das perspectivas possíveis acerca da origem da Psicanálise seria toda a linhagem que a filosofia moderna constrói desde os anos 1600, quando os filósofos europeus elaboram diferentes teorias da natureza humana. Essas teorias colocam os apetites e os desejos como elementos mobilizadores dessa natureza. Exemplos a serem citados são o materialismo francês, Hobbes e sua natureza humana, dentre outros. A psicanálise traria uma crítica a essa natureza humana, em função da reformulação do próprio funcionamento do desejo humano, a partir da construção de um aparelho psíquico.


Vemos então diferentes modos de dar origem a psicanálise. Ela seria uma teoria, uma prática que acolhe sintomas neuróticos (neurose narcísica e neurose de transferência) e encaminha um trabalho clínico a partir de um dispositivo conceitual e um setting onde se desenvolve esse trabalho clínico para fazer o analisando passar de uma situação de dor, sofrimento e mal-estar, para uma situação de um mínimo de prazer, como mais tarde diria Lacan, removendo os sintomas, os recalques, as repressões. Este dispositivo, esse setting, e esse encaminhamento encontram suas fontes na filosofia alemã dos séculos XVIII e XIX, na história da medicina, em elementos do eletromagnetismo, na história da biologia e nas mais variadas formas de filosofia positivista, nietzschiana, utilitarista, e kantiana.


É válido dizer que Freud retoma um ponto interessante do trabalho kantiano. Kant, entre os anos de 1770 a 1790 inventou a antropologia do ponto de vista pragmático. Ele dizia que, para se entender a natureza humana deveríamos conversar com pessoas da cidade e do campo, deveríamos ler poesia, literatura, romance, diários de viagem e teatro. Neste material encontraríamos o cerne da natureza humana. Freud não analisa a natureza humana, mas tenta dar conta do desejo e da repressão, também, como Kant, recorre a essas mesmas fontes para a realização de seu trabalho. Podemos dizer que está, aí, um outro ponto de sua origem.


Outra condição de possibilidade da psicanálise estaria no surgimento da filosofia moderna a partir de Rene Descartes. A possibilidade do sujeito do desejo na psicanálise se fundiria de algum modo na abertura que Rene Descartes faz pensando o sujeito da modernidade. Notem bem que nem Descartes e nem Freud utilizam a palavra sujeito. Em Descartes nós temos o “eu”, do cógito do “eu penso, logo existo”. A colocação da primeira pessoa em destaque abre uma reflexão diferente da trazida pela filosofia europeia tradicional, enquanto que a verdade na filosofia medieval estava centrada em um ser supremo, com Descartes, tenta-se procurar um fundamento ultimo dessa verdade a partir do “eu penso” e de seus desdobramentos. À diferença de Descartes e de Freud, quem vai fazer uso do termo sujeito em uma interpretação bem peculiar de Descartes e da origem da psicanálise é Jacques Lacan. Ele reformula a origem da psicanálise a partir de uma teoria do sujeito.


Existe uma outra interpretação que entende que a origem da psicanálise estaria em Platão e no personagem principal de seus diálogos: Sócrates. Mais precisamente no exercício da maiêutica, exercício este que mostra que a verdade não está fora do indivíduo e sim em seu interior. Podemos encontrar aí outro modo de entender a psicanálise: a maiêutica socrática.


Em resumo, temos alguns modos de entender a origem da psicanálise.


  • Pela via do sujeito em Descartes

  • Pela via da maiêutica Socrática

  • Pela via do desejo da natureza humana estudado na modernidade.

  • Pela maneira como se formulam os problemas científicos em Kant

  • Pelo modo como se pensa a lógica do associassonismo em Stuart Mill

  • Pelo modo como Schopenhauer trabalha a noção de vontade

  • Pelo viés da vontade de poder, de potência de Nietzche.

  • Pelo viés das diferentes formas da ciência e da literatura


Quanto mais investigamos sobre as origens da psicanálise, mais variadas se tornam as fontes.


Após Freud, podemos dizer que a psicanálise continuou tendo origens. A partir do momento em que ela foi se reformulando a partir dos resultados da clínica e a partir da introdução de outros elementos pelos discípulos de Freud, pelos lacanianos e por outros, podemos dizer que encontramos outras origens da psicanálise. Há 130 anos ela vai criando novas origens. Podemos pensar em Winicott por exemplo e sua teoria do amadurecimento, trabalhada a partir de elementos que ele traz de sua formação como pediatra. Podemos pensar em Melanie Klein, em Bion, e em tantos outros. Para não nos estendermos muito, podemos reduzir as origens da psicanalise ao retorno a Freud feito por Lacan desde outros elementos como a linguística de Ferdinand de Saussure, de Jackobson, de Emile Benveniste e do diálogo que ele vai ter com a antropologia estrutural de Levi-Strauss, com a matemática, a geometria projetiva, a teoria dos nós e a filosofia, citada em vários de seus seminários.




 


CONCLUSÃO Em suma, a psicanálise tem várias origens, desde os seus precedentes, passando pela própria constituição da obra freudiana, pesando nos pós freudianos e no próprio Lacan. São 130 anos de história permanente nutridos com os diálogos intensos que ela mantém com outras formas de saber, com outros campos do conhecimento, com a literatura, com as artes, enfim, com todas as formas da vida humana.



Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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