Escrever a clínica: Ferenczi e o manuscrito de 1932
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- 2 de jul.
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Para tratar do aniversário de nascimento de Sándor Ferenczi, celebrado em 7 de julho de 1873, talvez seja justo começar pelo fim — ou quase isso.
Em 1932, já nos últimos meses de vida, Ferenczi escreve seu Diário Clínico. Ele morreria no ano seguinte, sem ver o manuscrito publicado. Somente quase quarenta anos depois, esse conjunto de anotações viria a público.
Na introdução da edição brasileira, publicada pela Editora Martins Fontes, o psicanalista húngaro Michael Balint oferece importantes considerações sobre a natureza desse manuscrito.
Entre elas, destaca-se uma que parece ser fundamental do ponto de vista da história da psicanálise: a justificativa para o intervalo entre a escrita e a publicação do conjunto de textos.
Além de ser um documento histórico, o Diário Clínico registra um momento singular da elaboração de Ferenczi. Ao refletir sobre as exigências da prática clínica, ele desloca o foco da técnica, entendida como um conjunto de regras, para pensá-la como uma experiência, tanto para o paciente quanto para o analista.
O intervalo entre a escrita e a publicação
Na tentativa de evitar um mal maior para o legado de Ferenczi, Michael Balint relata que aconselhou Gizella Ferenczi a adiar a publicação do Diário Clínico.
À época, os desacordos técnicos entre Ferenczi e Freud poderiam levar a uma leitura mais marcada pela controvérsia do que pelas ideias contidas no manuscrito. A expectativa era de que a distância histórica favorecesse uma avaliação mais objetiva de seu conteúdo.
Balint também observa que Freud acompanhou o desenvolvimento das pesquisas clínicas de Ferenczi e tomou conhecimento de suas formulações mais recentes sem apresentar objeções pessoais ao amigo.
Esse aspecto torna ainda mais curioso o contraste com a imagem difundida anos depois por Ernest Jones.
Em 1957, ao publicar o terceiro volume de sua biografia de Freud, Jones dedica severas críticas aos últimos anos da obra de Ferenczi.
Para Balint, havia aí uma evidente contradição. Jones conhecia a correspondência entre Freud e Ferenczi, marcada por um tom amistoso, o que tornava difícil atribuir aquelas críticas ao próprio Freud.
Como escreve Balint:
"Quando lhe perguntei de que fontes provinham suas alegações, Jones recusou-se a dar-me qualquer informação, por menor que fosse, exceto que se tratava de alguém que tinha sido íntimo de Ferenczi nos últimos anos de sua vida."
Diante desse impasse, ambos concordaram em apresentar suas interpretações. Nos anos seguintes, a publicação do Diário Clínico e da correspondência entre Freud e Ferenczi ofereceu aos leitores a possibilidade de acompanhar diretamente esses documentos e formar seu próprio juízo.
Para Balint, esse movimento permitia uma leitura "imparcial e benevolente" da obra de Ferenczi.
O Diário Clínico de 1932
No Diário Clínico, Ferenczi registra observações sobre sua prática, formula hipóteses, revê posições e acompanha, quase em tempo real, os efeitos de suas experiências clínicas.
O diário, composto por cerca de 130 fragmentos, inicia-se com A insensibilidade do analista, em janeiro, passa por A propósito da ab-reação, em julho, e encerra-se com Progressão, em 2 de outubro de 1932.
Pode, inclusive, ser lido como uma resposta a questões que a técnica psicanalítica, tal como vinha sendo praticada, parecia não resolver satisfatoriamente.
Algumas dessas questões já apareciam em "A elasticidade da técnica psicanalítica" (1928), texto em que Ferenczi introduz o conceito de tato (Einfühlung), compreendido como a capacidade do analista de "sentir com" o paciente.
Nas anotações de 17 de março de 1932, reunidas sob o título Vantagens e desvantagens do "sentir com" intensivo, Ferenczi amplia sua reflexão sobre os limites da técnica e formula observações sobre sua relação com Sigmund Freud. A divergência revela o modo como cada um compreende a posição do analista diante do sofrimento psíquico.
Ao comentar os efeitos de uma técnica excessivamente apoiada na autoridade do analista, Ferenczi escreve que ela fazia o analista "flutuar como uma divindade sobre o pobre paciente, relegado à condição de criança" (Ferenczi, 1932). A palavra criança, nesse contexto, remete à posição de incapacidade produzida por uma relação excessivamente pedagógica.
No mesmo fragmento, Ferenczi volta sua reflexão para a própria experiência de análise com Freud. Em um dos trechos mais conhecidos do Diário Clínico, afirma:
"Minha própria análise não pôde avançar o suficiente em profundidade, porque meu analista (de própria confissão, uma natureza narcisista), com sua firme determinação de manter-se em boa saúde e sua antipatia pelas fraquezas e pelas anomalias, não pôde acompanhar-me numa certa profundidade e começou muito cedo com o 'educativo'. O forte de Freud é a firmeza da educação, como o meu é a profundidade na técnica do relaxamento." (Ferenczi, 1932)
Além de expressar seu julgamento sobre Freud, o trecho aponta a direção que Ferenczi passa a imprimir ao seu pensamento: uma clínica voltada para a qualidade da presença do analista e para a possibilidade de uma escuta que não transforme o cuidado em adaptação.
A atualidade de Ferenczi
Para quem tem a psicanálise como objeto de pesquisa, acompanhar o movimento da escrita do Diário Clínico — suas nuances, anotações, datas e o próprio formato híbrido, entre textos manuscritos e datilografados — contribui fortemente para os estudos.
Vale lembrar que esses escritos tinham como pano de fundo uma doença que acompanhou Ferenczi até sua morte. Ainda assim, isso não foi suficiente para afastá-lo do trabalho das anotações, que permanecem como testemunho de seu percurso analítico e de sua experiência na clínica.
Fica aqui uma provocação sobre as observações de Ernest Jones a respeito de um suposto estado psicótico de Ferenczi, incompatíveis com a lucidez presente ao longo de todo o Diário Clínico. Não por acaso, Judith Dupont escreve, no prefácio da obra, que "o diário de Ferenczi fornece a prova evidente de sua saúde mental".
Nas últimas páginas do manuscrito, Ferenczi escreve:
"Uma certa força da minha organização psicológica parece subsistir, de modo que, ao invés de adoecer psiquicamente, só posso destruir — ou ser destruído — nas profundezas orgânicas."
O Diário Clínico permanece como um dos documentos mais importantes da história da psicanálise não só pelas divergências que registra, mas, sobretudo, pela maneira como expõe um analista disposto a colocar sua própria prática em questão.
Em vez de defender a técnica como um conjunto de regras imutáveis, Ferenczi escreve a partir da experiência clínica e permite que ela transforme seu modo de compreender o trabalho analítico.
Referências
FERENCZI, Sándor. Diário clínico. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
FERENCZI, Sándor. A elasticidade da técnica psicanalítica. In: FERENCZI, Sándor. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
SALEME, Maria Helena. A normopatia na clínica psicanalítica. 2006. 165 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.
DIAS, Elsa Oliveira. O cuidado como cura e como ética. Winnicott e-prints, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 21-39, 2010. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-432X2010000200002. Acesso em: 21 jun. 2026.
DUNKER, Christian. Diferenças entre Freud, Ferenczi, Klein e Lacan? | Falando nIsso 19. YouTube, [2016]. Acesso em: 21 jun. 2026.
DUNKER, Christian. Ferenczi | Falando nIsso. YouTube, [2022]. Acesso em: 21 jun. 2026.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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