Jean Laplanche e a Questão do Inconsciente
- ESPEcast

- 18 de jun.
- 4 min de leitura
"Si l'inconscient [...] n'est pas là d'emblée chez l'homme,
et bien il faut bien qu'il soit créé et déposé chez lui à un certain moment."
"Se o inconsciente [...] não está presente desde o início no homem,
então é necessário que ele seja criado e depositado nele em um dado momento."
- Jean Laplanche
Jean Louis Laplanche (1924–2012) foi um dos mais importantes psicanalistas franceses do século XX.
Formado em filosofia, estudou na École Normale Supérieure, onde teve contato com pensadores como Gaston Bachelard e Merleau-Ponty. Nessa mesma época, conheceu Rudolph Loewenstein, analista de Jacques Lacan.
Seu encontro com a psicanálise foi na juventude. Ao retornar de uma temporada em Harvard, iniciou sua análise com Jacques Lacan, em 1947. Foi também por influência de Lacan que decidiu cursar medicina.
Embora sua formação tenha começado sob forte influência lacaniana, Laplanche rompeu com Lacan em 1964 e passou a desenvolver um percurso teórico próprio.
Uma obra de referência
Professor da Universidade Paris VII entre 1970 e 1993, destacou-se por sua releitura e coordenação da tradução das obras completas de Freud para o francês, e pela publicação, ao lado de Jean-Bertrand Pontalis, do clássico Vocabulário da Psicanálise.
Aliás, Laplanche tornou-se mundialmente conhecido por essa obra, realizada sob a direção de Daniel Lagache, outra figura importante da psicanálise. Fruto de uma década de pesquisas, entre 1957 e 1967, o livro permanece como uma das principais referências para o estudo dos conceitos freudianos.
Jean Laplanche, que, além de psicanalista, era também produtor de vinhos na Borgonha, à frente do Château Pommard, faleceu em 6 de maio de 2012. Curiosamente, na mesma data em que se comemora o nascimento de Freud.
As principais teses de Laplanche
A obra de Jean Laplanche é construída a partir de uma releitura dos textos de Sigmund Freud. O objetivo era retomar questões fundamentais que, segundo ele, haviam sido deixadas em segundo plano por diferentes correntes psicanalíticas ao longo do século XX.
Ele desenvolveu a Teoria da Sedução Generalizada, uma contribuição bastante original da psicanálise contemporânea. A partir dela, a constituição psíquica deixa de ser compreendida como resultado exclusivo de fatores internos ou biológicos e passa a ser pensada a partir da relação da criança com os adultos que a cercam.
Para Laplanche, desde o início da vida, o sujeito é confrontado com mensagens enigmáticas vindas dos adultos que o cercam. Essa formulação está ligada ao que ele chamou de uma "revolução copernicana inacabada" em Freud.
Se a descoberta freudiana deslocou o sujeito do centro de si mesmo ao demonstrar a existência do inconsciente, Laplanche aponta que esse descentramento precisa ser levado ainda mais longe.
Conceitos clássicos da psicanálise, como o Complexo de Édipo e a castração, são reinterpretados. Eles passam a ser compreendidos como formas culturais de organizar e traduzir os problemas da sexualidade.
Todas essas formulações convergem para uma questão fundamental: a natureza do inconsciente.
A leitura de Laplanche sobre o inconsciente
Ao abordar a questão do inconsciente, Jean Laplanche insiste que ele não pode ser separado do método psicanalítico.
Em entrevista concedida para a série Pesquisadores do Nosso Tempo (1996), afirma:
"...para Freud e para mim, o inconsciente é inteiramente solidário a um método, eu diria a uma invenção e não a uma descoberta, que é a invenção da situação psicanalítica (...) porque o inconsciente não é outra coisa senão representações que caíram, que se tornaram inacessíveis; portanto, o inconsciente é antes reconstruído, postulado a partir deste trabalho de associações-dissociações, do que apresentado."
A observação é interessante porque remete diretamente a uma formulação de Freud, presente no texto O Inconsciente (1915).
Freud escreve:
"Tudo que é reprimido tem de permanecer inconsciente, mas constatemos logo de início que o reprimido não cobre tudo que é inconsciente. O inconsciente tem o âmbito maior; o reprimido é uma parte do inconsciente."
E mais adiante, acrescenta:
"É claro que o conhecemos apenas enquanto consciente, depois que experimentou uma transposição ou tradução em algo consciente."
Essa é justamente a noção de tradução que Laplanche aborda. Se, em Freud, a tradução aparece como uma possibilidade aberta pelo trabalho analítico, em Laplanche ela se torna o próprio fundamento da constituição psíquica.
Segundo a Teoria da Sedução Generalizada, essas mensagens carregam significações inconscientes que excedem a capacidade de compreensão da criança. Diante delas, a criança busca atribuir um sentido. Mas nem tudo pode ser compreendido, e uma parte permanece sem tradução.
Enquanto Freud descreve o recalque como o impedimento de que uma representação alcance a consciência, Laplanche situa a origem do inconsciente no fracasso da tradução* desses enigmas.
O inconsciente, para Laplanche, deixa então de ser concebido apenas como um conjunto de conteúdos reprimidos e passa a ser pensado como o resíduo deixado por aquilo que não pôde ser traduzido. O que há de mais íntimo no sujeito nasce da alteridade que o constitui, o outro.
Conclusão
Ao colocar a alteridade no centro da constituição psíquica, Laplanche propõe que o inconsciente não é apenas o lugar do reprimido. Ele passa a ser compreendido como o resultado de uma tradução sempre incompleta.
Como afirma a frase que abre este texto, se o inconsciente não está presente desde o início no ser humano, então ele precisa ser "criado e depositado" em algum momento.
A grande contribuição de Laplanche foi investigar como esse processo ocorre e quais são seus efeitos na constituição do sujeito.
Seu trabalho oferece uma maneira singular de pensar aquilo que nos habita como mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais estranho: o inconsciente.
* Nota: A importância da noção de tradução em Laplanche pode ser observada também em seu texto "Os fracassos da tradução" (2002), no qual discute não apenas problemas conceituais da psicanálise, mas também os desafios da tradução da própria obra de Freud.
Referências
LAPLANCHE, Jean. Entrevista com Jean Laplanche: Chercheurs de notre temps. 1996. Entrevista. Disponível em: canal Jake Clwyd (YouTube).
BAESSA, Gabriel; ADVÍNCULA, Stefany. Quem foi Laplanche? Coordenação de Fábio Belo. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, Projeto Conversas Virtuais sobre Psicanálise (CVPsi), [s.d.].
BELO, Fábio. Introdução ao pensamento de Jean Laplanche e sua teoria da sedução generalizada. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em: canal Fábio Belo (YouTube).
FREUD, Sigmund. O inconsciente. In: ______. Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



Comentários