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Lou(ise) Andreas-Salomé: o sujeito oculto da própria história

Como colocar em palavras a vida e a obra de uma personagem que fazia questão de sustentar o ideal de liberdade, de viver sem a necessidade de protocolar a vida de modo comum?


Seria uma espécie de contrassenso tentar definir quem viveu uma vida inteira sustentando uma posição adversa a isso.


Por isso, sem a menor pretensão de delimitar, escrevemos sobre Louise: filha, mulher, poeta, intelectual, escritora, filósofa, psicanalista — representada historicamente, quase em sua totalidade, como musa e encantadora de personagens masculinos importantes —, mas que não foi só e apenas isso.


A jovem Lou e o preço da autonomia


Louise von Salomé (1861–1937), nascida em São Petersburgo, na Rússia Imperial, no dia 12 de fevereiro, única menina entre cinco irmãos em uma rica família, mimada e amada pelo pai, em uma relação tensa com a mãe, cresce em um ambiente de íntima relação com Deus, que futuramente será desconcertada.


Por influência familiar e a seu contragosto, Louise estudou religião. Primeiro, com um pastor conservador de nome Dalton. Depois, com outro pastor, de nome Gillot, sendo este último de sua vontade e, por um tempo, em segredo.


Gillot, que percebe sua inteligência e a educa, participa do período em que ela perde o pai, motivo que a afasta da igreja. Ainda assim, ela continua seus estudos com o pastor, até que ele se declara apaixonado. Louise rompe o relacionamento, adotando, porém, o apelido de Lou, cunhado por ele.


Os primeiros deslocamentos


Sob esse ponto de vista de ruptura, Lou viaja para Zurique, na Suíça, para estudar lógica, história das religiões e metafísica; estamos em 1880. Não demora a ser reconhecida, admirada e temida por sua independência, fato visto à época com maus olhos quando se tratava de uma mulher. No entanto, adoece dois anos depois e sua mãe a leva para Roma em busca de recuperação.


Já restabelecida em Roma, conhece a escritora Malwida von Meysenbug, pertencente à nobreza, que a recebe como filha. Por meio dela, aproxima-se dos filósofos Nietzsche e Paul Rée. Fascinados por Lou, os três, numa tentativa pueril, projetam viver juntos como “camaradas” por um ano.


O projeto, contudo, criado para falhar, chega ao fim com o surgimento do ciúme dos rapazes. Sua mãe decide retornar com Lou para casa, e o grupo se desfaz. Nietzsche, porém, insiste e convence Lou a ficar um mês consigo. A permanência não dura muito, pois Elisabeth, a irmã do filósofo, enfurecida com o comportamento independente de Lou, contribui para a ruptura.


Nesse ínterim, Lou reencontra Paul Rée, que havia ficado de escanteio. Seguem juntos para Leipzig, na Alemanha, o que deixa Nietzsche furioso. Tempos depois, mudam-se para Berlim. É nesse momento que Lou publica, aos 23 anos, seu livro Uma luta por Deus (1885) e se aproxima do futuro marido, Friedrich Carl Andreas, professor de línguas. Agora, foi a vez de Paul Rée se afastar.


Encontros e desencontros marcam essa fase de Lou, que não perde seu traço de alegria e liberdade até o fim.


O amor sob suas próprias regras


Em 1887, Salomé se casa, aos 26 anos, com Friedrich Carl Andreas, professor na Universidade de Göttingen, na Alemanha. Foi um período de intensa produção textual; as obras de Salomé incluem poesia, arte, romances, ensaios sobre a mulher, o erotismo e o amor, além de crítica social.


Vale lembrar que seu primeiro livro foi publicado sob o pseudônimo de Henri Lou, um romance autobiográfico baseado principalmente em seus conflitos com a fé.


Durante seu casamento, que era acordado como não havendo envolvimento sexual, Salomé se envolveu com outros homens, mas nenhum deles ela reconheceu como amante, e sim como amigos especiais.


Com uma exceção: ela, aos 36 anos, encontra o poeta Rainer Maria Rilke, de 22. Ele, sim, ela reconhece como “seu homem”. Foi um momento conturbado e, talvez por isso, a biografia de Lou tenha ficado presa nesse tom de encantamento dos homens.


Nada era simples para a intensidade dessa mulher, que vivia tudo ao mesmo tempo.


O relacionamento com Rilke, de início, foi o melhor dos mundos. Porém, com ele cada vez mais dependente dela, Lou começa a se afastar, até que rompe de vez, contra a vontade do poeta.


A Psicanálise de Lou Andreas-Salomé


Os temas tratados por Salomé em seus escritos eram com base na sua experiência com a vida e o amor.


Isso fica claro nas correspondências trocadas com Rilke e com o próprio Sigmund Freud, que ela conheceu no Congresso de 1911, aos 50 anos. Na ocasião, Lou pede a Freud para fazer parte da reunião das quartas e ele permite.


O modo como Salomé atravessa a psicanálise se dá com o mesmo apaixonamento que ela tinha pela vida. Antes de destacar seu texto de 1921, Narcisismo como dupla direção, vale lembrar que no texto O erotismo, de 1910, Salomé se refere a dois tipos de feminilidade: a maternidade e a virgem. A última com negação da sexualidade, submetida ao que a religião aprova e santifica, e a primeira submetida à cultura. (Stetina Trani de Meneses e Dacorso, 2017).


Percebemos que mesmo antes de conhecer a teoria freudiana, Salomé coaduna esse pensamento, sobretudo com relação ao feminino, que foi desenvolvido posteriormente em textos como o que vamos falar agora.


Narcisismo como dupla direção (1921)


Em Narcisismo como dupla direção (1921), Lou Andreas-Salomé propõe uma leitura do narcisismo que dialoga com a formulação freudiana, embora deslocada de seu eixo interpretativo.


Se, em Sigmund Freud, o narcisismo aparece como etapa do desenvolvimento libidinal e como condição estrutural da economia psíquica, em Salomé ele ganha uma dimensão mais complexa. Trata-se de uma concepção de narcisismo mais dialética, na qual interior e exterior, eu e outro, conservação e expansão coexistem permanentemente.


A ideia central do texto é que o narcisismo não opera em sentido único, como simples retorno da libido sobre o eu, mas em dupla direção: há um movimento de recolhimento e, simultaneamente, um impulso que projeta o sujeito em direção ao mundo e ao outro.


Nas palavras de Salomé:

“O narcisismo é uma dupla consumação da afirmação de si e do gozo naquilo que ainda é ilimitado originalmente”.


Salomé também articula o narcisismo à questão do amor. Para ela, amar implica um jogo constante entre perder-se no outro e preservar-se enquanto sujeito. É um texto em diálogo permanente com Freud, ora para ampliar as ideias freudianas, ora para confirmá-las.


Lou Andreas-Salomé precisa ser lida com uma chave própria, como uma personagem que sustentou até o fim uma ética do desejo, pioneiramente, porque vivia aquilo em que acreditava para si.


Para fechar, Lou:

“A ética é risco, a ousadia extrema do narcisismo, sua sublime insolência, sua aventura exemplar, a eclosão última de sua coragem e exuberância na vida”.





Referência Bibliográfica:


DACORSO, Stetina Trani de Meneses e. Lou Andreas-Salomé: o que você tem a nos dizer? Estudos de Psicanálise, n. 48, 2017. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372017000200018


LOU ANDREAS-SALOMÉ. Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Lou-Andreas-Salome


CANTINHO, Maria João. Lou Andreas-Salomé. Digestivo Cultural, 3 jul. 2002. Disponível em: https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=617&titulo=Lou_Andreas-Salome



Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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