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Manejo Psicanalítico das Festas de Fim de Ano: Repetições, Conflitos e Intervenções

  • Foto do escritor: ESPEcast
    ESPEcast
  • 19 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

As festas de fim de ano estão chegando, e com elas se reacendem as dinâmicas familiares que frequentemente reatualizam afetos antigos. Trata-se, talvez, da época mais ambígua do calendário. Entre a alegria das celebrações e a raiva silenciosa das repetições, transitam sentimentos que dificilmente deixam alguém indiferente.


Essa mistura de afetos, esperança e medo, entusiasmo e melancolia, marca intensamente a experiência subjetiva e, não por acaso, reverbera na clínica.


O divã costuma receber antecipadamente aquilo que ainda não encontrou palavras, mas já se presentifica no sujeito como pressentimento: tensões, fantasias, expectativas e conflitos que os encontros de Natal e Ano Novo inevitavelmente mobilizam.


Os reencontros funcionam como um dispositivo que convoca algo para além das comemorações, colocando em movimento aquilo que, durante o ano, permaneceu adormecido ou cuidadosamente evitado. O que se transforma quando o ano chega ao fim? É essa a interrogação que este artigo pretende investigar junto com seus leitores.


Boa leitura!


Esperança e Medo: uma análise filosófica dos afetos


Ao tentar compreender por que o período das festas desperta tamanha ambivalência, vale recuperar a leitura de Spinoza sobre a relação entre esperança e medo. Para o filósofo, esses dois afetos não se opõem; ao contrário, caminham em correspondência. Esperar algo é, simultaneamente, temer que isso não aconteça. Temer uma perda é, por sua vez, desejar que ela não se realize.


Nas festas, há a esperança de reencontros harmoniosos, de conversas reparadoras, de uma espécie de “começo novo” que o calendário simboliza. Mas junto dela se insinua o medo: medo de que tudo se repita mais uma vez, medo de que o afeto não corresponda, medo de que as expectativas — sempre tão altas nesse período — se dissolvam diante da realidade familiar.


A ambiguidade típica do final de ano toca esse lugar onde esperança e medo caminham “par e passo”. Aqui o terreno está preparado para que o inconsciente ganhe voz, muitas vezes, através da repetição.


Repetições de Fim de Ano: Do Recalque ao Gozo


Quando a tensão entre esperança e medo se instala, abre-se espaço para que o inconsciente comece a operar com mais força. O professor e psicanalista Christian Dunker observa que, no Natal, “as antigas querelas infantis reacendem e reaparecem”, revelando um retorno do recalcado que dificilmente se manifesta com tanta intensidade em outras épocas do ano.


São memórias que voltam e reativam posições subjetivas, fantasias e significantes familiares que retornam justamente no encontro com aqueles que participaram de nossa constituição psíquica.


Os rituais natalinos, a mesa posta, os pratos tradicionais, os comentários repetidos, os papéis que cada membro ocupa, funcionam como gatilhos da vida fantasmática. É como se o cenário das festas reorganizasse silenciosamente o teatro interno de cada sujeito, permitindo que fantasmas antigos encontrem novamente um lugar para se apresentar.


Essa movimentação inconsciente convoca um segundo fenômeno típico do final do ano: a regressão. A dinâmica familiar, por sua própria estrutura, favorece esse movimento. Para Dunker, ali, onde fomos crianças, tendemos a nos comportar como tal.


Mas há ainda um terceiro elemento que compõe essa cena psíquica: o mandato de gozo. “Nada te obriga a gozar a não ser o supereu”, lembra Dunker. Nas festas, essa exigência se expressa em excessos. Comer mais, beber mais, confraternizar mais, presentear mais.


Nessa mistura entre recalcado, regressão e excesso, desenha-se a experiência emocional de boa parte das festas de fim de ano. Um campo fértil de repetições que, inevitavelmente, deixam marcas no sujeito.


Intervenções Clínicas no Tempo das Festas


Durante o período das festas, sobretudo antecipadamente, o manejo clínico demanda recolocar o sujeito diante do que realmente deseja. Como propõe Christian Dunker, trata-se de sustentar um rigor na revisão dos próprios sonhos e expectativas.


Clinicamente, acompanhar atravessamentos festivos implica acolher a ambivalência própria dessa época. Em sua escuta, o analista não exige nada do sujeito, mas pode eticamente favorecer a construção de um espaço onde ele possa suportar a coexistência entre esperança e melancolia.


A função do analista é a de sustentar a possibilidade de elaboração, permitindo que o sujeito nomeie o desconforto em vez de sucumbir às defesas ou aos imperativos super-egóicos característicos do período.


Se há uma travessia possível, ela não reside no ideal de harmonia, mas na disponibilidade para o real da experiência, menos idealizado, mais singular, e por isso mesmo mais verdadeiro.


Conclusão


As festas funcionam como uma espécie de condensador afetivo, no qual esperança e medo coexistem sem se anular, preparando o terreno para o retorno do recalcado, a regressão e o mandato de gozo que marcam esse período.


O cenário natalino reabre cenas, reposiciona sujeitos e reinstaura papéis que, embora conhecidos, surgem novamente carregados de força psíquica.


Portanto, o manejo psicanalítico das festas de fim de ano implica reconhecer esse aumento de circulação fantasmática e, ao mesmo tempo, não se deixar capturar pelo ideal de conciliação que costuma marcar o imaginário desse período.


Intervir, aqui, não é orientar o sujeito sobre “como agir” nas comemorações, mas sustentá-lo na tarefa de interpretar o que se repete. E, sobretudo, permitir que se pergunte o que deseja, para além das expectativas familiares e dos imperativos culturais de felicidade.



Referência bibliográfica

Dunker, Christian. Como encarar sua família no Natal. Falando nIsso, YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZFBwPnfc-YA. Acesso em: 24 nov. 2025.


Spinoza, Bento (Baruch). Ética (passagem citada). In: Safatle, Vladimir (Prof.). Curso integral: Dialética hegeliana, dialética marxista, dialética adorniana. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, 1º sem. 2015.





 

Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.




 
 
 

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