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Melanie Klein: vida, obra e construção teórica

Quando iniciamos uma pesquisa em psicanálise — assim como neste texto sobre a vida e a obra de Melanie Klein —, podemos ser conduzidos pelo movimento recorrente de ler uma autora a partir das lentes de quem a antecedeu, sobretudo no registro da comparação teórica.


No campo psicanalítico, esse “quem” é Sigmund Freud. Por óbvio, Freud antecipa, à sua maneira, muitos dos temas que atravessam a psicanálise, mas não todos. Em contraste com essa particularidade do campo, este texto propõe lançar a autora e sua obra em perspectiva, a partir de seu próprio eixo.


Vamos a Melanie Klein.


A vida como material de investigação


Melanie Reizes, futura Klein, nasceu na Viena de 1882, então parte do Império Austro-Húngaro, no seio de uma família judia. Quarta filha do médico Moriz Reizes e de Libussa Deutsch, oriunda de família ligada ao comércio, viveu no contexto das transformações políticas e culturais do final do Império.


Sua infância e juventude foram atravessadas por lutos. Perdeu o pai e dois irmãos e, mais à frente, também um filho, morto em um acidente de montanhismo. Seu texto “Luto e suas Relações com os Estados Maníaco-Depressivos”, de 1940, costuma ser citado como referência para a compreensão dos afetos da perda e do luto.


Suas obras dialogam, em certa medida, com experiências marcantes de sua vida afetiva. A relação conflituosa com a filha e a morte de um de seus filhos coexistem com o desenvolvimento de sua elaboração teórica.


O casamento ocorreu em 1903, com o engenheiro Arthur Klein, com quem teve seus três filhos: Melitta, Hans e Erich. O matrimônio, pouco harmonioso, durou até meados de 1925, época em que o divórcio era frequentemente visto como um fracasso moral atribuído à mulher. Esse contexto, somado à sua origem judaica e à ausência de diploma acadêmico, contribuiu para que enfrentasse preconceitos.


O encontro com a psicanálise


Melanie Klein aproximou-se da psicanálise em pleno cenário da Primeira Guerra Mundial. Encantada com o novo campo, teve sua formação clínica conduzida por dois dos interlocutores mais próximos de Freud.


Primeiro, com Sándor Ferenczi, em Budapeste, realizou sua primeira análise, iniciada em 1914 e retomada posteriormente, totalizando alguns anos de percurso analítico. Ferenczi teve papel relevante na consolidação de seu interesse pela análise de crianças e pela noção de introjeção, que posteriormente ganharia desenvolvimento próprio em sua obra.


Em seguida, já em Berlim, estabeleceu contato com Karl Abraham, com quem iniciou sua segunda análise. Abraham teve presença importante na sistematização da psicopatologia psicanalítica e influenciou Klein a pensar o desenvolvimento psíquico a partir das fases pré-genitais da libido e de suas articulações com as organizações pulsionais, fundamento sobre o qual ela aprofundaria posteriormente a teoria das relações de objeto.


A psicanálise kleiniana


Melanie Klein introduziu no campo um importante conceito: o de posição. A vida psíquica, em sua formulação, não se organiza em fases que são superadas e deixadas para trás, como etapas concluídas do desenvolvimento. Ao contrário, trata-se de modos de funcionamento que podem ser reativados ao longo de toda a existência.


Como observa Christian Dunker, para Klein a mente não “atravessa” fases para abandoná-las definitivamente; ela oscila. Há um movimento constante entre desintegração e integração, entre fragmentação e recomposição, entre destrutividade e reparação.


A organização inaugural dessa dinâmica é a chamada posição esquizo-paranoide.


A posição esquizo-paranoide

Nos primeiros meses de vida, diante de angústias muito primitivas, o bebê recorre a defesas igualmente primitivas. A principal delas é a clivagem (splitting), mecanismo pelo qual o objeto é dividido em “totalmente bom” ou “totalmente mau”. O exemplo clássico é o do seio: quando satisfaz, é vivido como inteiramente bom; quando frustra, como inteiramente mau.


Nesse estado, o objeto ainda não é percebido como uma pessoa inteira, com qualidades boas e más ao mesmo tempo. Ele é experimentado de forma parcial, conforme a vivência de satisfação ou frustração.


A posição depressiva

Melanie Klein mostra que uma transformação ocorre quando o sujeito consegue integrar essas partes. Ele reconhece que o objeto amado e o objeto odiado são o mesmo. O seio bom e o seio mau pertencem à mesma mãe.


Essa integração inaugura a posição depressiva. Surge então a angústia depressiva: o medo de ter danificado, em fantasia, o objeto que se ama e do qual se depende. A culpa deixa de ser apenas persecutória e torna-se preocupação pelo outro. O objeto passa a ser reconhecido como total — portador de aspectos bons e maus — e não mais como objeto parcial.


A reparação como destino psíquico

A resposta à culpa depressiva é a reparação: assumir a presença da própria destrutividade e reconstruir psiquicamente o objeto interno. Restaurar, simbolicamente, aquilo que foi “atacado” na fantasia.


A oscilação entre posição esquizo-paranoide e posição depressiva não desaparece na vida adulta. Ao contrário, permanece como matriz estrutural do funcionamento psíquico.


Klein e seus conceitos fundamentais


Para além da teoria das posições, o pensamento kleiniano amplia o campo psicanalítico ao investigar as camadas mais primitivas da vida mental. Seu modelo abandona a ideia de um desenvolvimento linear e enfatiza a dinâmica constante entre amor e destrutividade, integração e fragmentação.


Entre suas principais formulações está a consolidação da análise de crianças, com a técnica do brincar como equivalente à associação livre. O brincar torna-se via privilegiada de acesso às fantasias inconscientes e às angústias precoces.


A teoria dos objetos internos, por sua vez, descreve um mundo interno povoado por figuras introjetadas, com as quais o sujeito mantém vínculos de amor e ódio.


Sua concepção de um superego precoce e severo também alterou profundamente a compreensão da formação moral. Em resumo, esses conceitos sustentam uma clínica orientada pela capacidade de integrar — e não suprimir — os conflitos psíquicos.


A inscrição de uma autora na história


Nos últimos anos de sua vida, já reconhecida como uma das principais figuras da psicanálise britânica, Melanie Klein aprofundou temas reunidos no volume "Inveja e Gratidão", que congrega textos produzidos entre 1946 e 1963.


Em 1959, um ano antes de sua morte, escreveu uma breve autobiografia, na qual faz um balanço de seu percurso intelectual e clínico. Melanie Klein faleceu em 1960, deixando um vasto conjunto de estudos, escritos e relatos clínicos que continuaram a ser organizados e publicados postumamente.



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Referência Bibliográfica:


DUNKER, Christian. Melanie Klein – Conceitos introdutórios. YouTube, 2023. Disponível em: https://youtu.be/dMyIiV2K-OM?list=TLGGcejUE7APh7gyNjAyMjAyNg . Acesso em: 22 fev. 2026.


ROCHA BARROS, Alberto et al. Seminário Obras completas de Melanie Klein. YouTube, 2025. Disponível em: https://youtu.be/7t2be9iMDg8?si=cyVwbRyDMrHIH5ix . Acesso em: 22 fev. 2026.


Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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