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O Cenário da Psicanálise Brasileira em 2025:Ética, IA e Clínica

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    ESPEcast
  • 12 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

O título deste artigo já indica o que está em jogo: a tentativa de localizar os pontos de tensão que marcaram o discurso psicanalítico no Brasil ao longo de 2025.


É verdade que, em diferentes momentos do ano, anunciou-se novamente a “morte” da psicanálise, seja por pressões regulatórias, disputas institucionais ou pela ascensão de discursos tecnocientíficos que prometem, com entusiasmo ingênuo, substituir o trabalho clínico pela eficiência dos algoritmos.


No entanto, como lembra o professor e psicanalista Daniel Omar Perez, se a psicanálise “morre” a cada verão, ela também renasce logo em seguida.


Ao observarmos os debates deste ano, vemos que eles gravitaram em torno de uma tensão produtiva: de um lado, a insistência ética nos fundamentos que definem a psicanálise desde Freud; de outro, a urgência de se posicionar diante do impacto da tecnociência, da transformação dos laços sociais e do agravamento dos sofrimentos contemporâneos.


Nesta retrospectiva, propomos uma leitura do cenário psicanalítico brasileiro organizada em três eixos:


  • A Luta Ética e Institucional: a questão da formação e da regulamentação.

  • O fundamento ético ameaçado pela tecnociência: o impacto da inteligência artificial e da cultura digital sobre a subjetividade e a prática analítica.

  • Manifestações do Sofrimento e Algoritmos: o novo cenário sintomático, a redução do sujeito a dados, padrões e previsões comportamentais.


Este texto não pretende esgotar esses temas. Nosso objetivo é delinear as tensões que atravessaram o campo ao longo de 2025 e oferecer possíveis caminhos de leitura para quem está na formação em psicanálise ou deseja compreender seu lugar no Brasil contemporâneo.


Acompanhe a análise e, ao final, sinta-se à vontade para compartilhar suas reflexões. A psicanálise cresce quando circula, e, sobretudo, quando é interrogada.


A Questão da Regulamentação: O Embate entre Estado e Singularidade


O ano de 2025 reacendeu um debate que nunca deixou de ser incômodo no campo psicanalítico: afinal, o que significa “formar um psicanalista” no Brasil?


A tentativa de expansão dos cursos de graduação em psicanálise, e sua possível regulamentação pelo Estado, recolocou em cena uma tensão estrutural: de um lado, a lógica universitária, curricular e certificadora; de outro, a tradição psicanalítica, que desde Freud se pauta pela singularidade da experiência e não por títulos formais.


É fato que a discussão sobre formação se tornou um dos pontos mais sensíveis do ano. Sigmund Freud, na sua defesa da “análise leiga”, em 1926, afirmava justamente que a formação de um analista não deriva de um diploma, mas de um percurso subjetivo. Ele demonstrava isso ao criticar tanto a medicalização da psicanálise quanto a ideia de que ela pudesse ser reduzida a um método aplicável.


Em 2025, essa questão retornou. As instituições psicanalíticas reafirmaram que cursos não habilitam alguém a exercer a psicanálise. A habilitação não seria um ato burocrático; e sim, um efeito da experiência. Essa posição ecoa tanto o aforismo de Lacan (1967), segundo o qual “o analista só se autoriza de si mesmo”, quanto leituras contemporâneas que reforçam que a formação é necessariamente longa, híbrida, atravessada pela análise pessoal, pela supervisão e por um estudo contínuo.


A fala pública do professor e psicanalista Christian Dunker nesse período também teve impacto no debate. Ao diferenciar formação acadêmica, formação habilitante e “pseudoformações”, ele enfatizou que o termo formação — Bildung — funciona como linha divisória: usá-lo implica responsabilidade, transmissão e ética.


Segundo Dunker, cursos que prometem “formar analistas” em curto prazo, ou que tratam a psicanálise como técnica aplicável e rapidamente ensinável, tornam-se sintoma de um mal-estar maior: a mercantilização do desejo de saber e a transformação da psicanálise em produto de mercado.


Entre as falas de instituições sérias, como o Instituto ESPE, e de analistas de referência, um ponto se repetiu ao longo do ano: a formação não é um protocolo. É um percurso vivido em comunidade, sustentado no tripé clássico — análise, supervisão e estudo continuado — mas também em laço, transmissão e responsabilidade com o campo.


Daí a crítica recorrente às pseudoformações que, ao reduzir a experiência a uma lista de requisitos formais, esvaziam o sentido ético da formação e alimentam a lógica de “autorizações” instantâneas.


Em síntese, o debate de 2025 mostrou que a questão da formação funciona como um espelho do mal-estar contemporâneo: diante da aceleração, da busca por títulos e da proliferação de ofertas de formação rápida, a psicanálise reafirma sua temporalidade própria e sua ética da experiência, defendendo a singularidade da formação como condição de possibilidade da prática clínica.



O Rigor da Transferência


Se há um ponto em que a psicanálise precisou se afirmar com mais força em 2025, esse ponto foi o da transferência. Em meio a discursos tecnocientíficos que prometem substituir a escuta clínica por aconselhamentos, protocolos padronizados e ferramentas digitais, a psicanálise encontrou no reforço da transferência seu principal operador ético.


A transferência não é um vínculo afetivo nem uma relação pessoal entre analista e analisando. Desde Freud, e sobretudo com Lacan, aprendemos que a transferência é um efeito da fala endereçada a um lugar de saber suposto, que o analista encarna apenas na medida em que se desidentifica dele.


Em termos simples: quando alguém fala ao analista, fala a partir de um saber inconsciente que supõe existir, e essa suposição é o motor do trabalho analítico.


Em 2025, esse ponto se tornou especialmente evidente diante das intervenções orientadas por algoritmos. Tais modelos, ainda que úteis em outros campos, produzem um efeito claro quando aplicados à psicanálise: eles destituem a transferência de sua função.


O que se perde quando a transferência é substituída por protocolos?

  1. Perde-se a dimensão do inconsciente.

    Protocolos trabalham com previsões e condutas esperadas. O inconsciente, ao contrário, opera pelo equívoco, pelo lapso, pelo inesperado. Ao protocolarizar a escuta, perde-se o que nela é singular.


  2. Perde-se a posição ética do analista.

    Quando o “analista” aconselha, instrui ou prescreve caminhos de vida, ele ocupa o lugar do saber consciente, e bloqueia justamente aquilo que permite ao sujeito produzir seu próprio saber inconsciente.


  3. Perde-se a possibilidade do ato analítico.

    Sem transferência, não há elaboração subjetiva, apenas adaptação. A análise se reduz a técnica de bem-estar, perdendo sua dimensão ética e seu alcance transformador.


Transferência como ponto de apoio em um ano marcado pela tecnociência

A retrospectiva de 2025 mostra que, em um cenário no qual: algoritmos prometem mapear emoções; apps oferecem respostas imediatas ao sofrimento; plataformas transformam escuta em serviço “on demand” e a própria clínica se vê pressionada por demandas de eficiência, rapidez e mensurabilidade, a transferência se reafirma como conceito clínico e como princípio ético, sustentando a ideia de que o sujeito não é mensurável, não é estável, e não se deixa traduzir inteiramente em padrões de comportamento.


A Desumanização Algorítmica — A Inteligência Artificial no campo da saúde mental


Se 2025 marcou o auge do debate sobre formação e ética, também foi o ano em que a inteligência artificial entrou definitivamente no imaginário clínico brasileiro. A presença de sistemas generativos acendeu um alerta importante: o risco de confundir processamento de dados com escuta clínica.


Ao tentar reduzir o sujeito a padrões, perfis e curvas de comportamento, as ferramentas algorítmicas reforçam um ideal de normatividade que contraria a própria operação analítica, cujo trabalho se sustenta justamente no saber singular que escapa ao cálculo.


Em 2025, com a multiplicação de plataformas que prometiam “simulações de fala terapêutica”, a comunidade psicanalítica foi ética: a IA pode ser ferramenta útil, mas não ocupa o lugar de escuta, nem o de sujeito, e tampouco o de analista.


O debate mostrou que a questão não é “usar ou não usar IA”, mas preservar a diferença entre cálculo e desejo. A psicanálise entrou nesse debate para lembrar seus limites. E, ao fazê-lo, recolocou em evidência sua aposta no humano que não se deixa reduzir a algoritmo.


Sobre o futuro da psicanálise


Apoiados no conceito freudiano de a posteriori, olhando o que se produziu, aquilo que retorna e aquilo que insiste, que se torna possível antecipar o que precisará ser sustentado: os fundamentos éticos que fazem da psicanálise uma prática singular.


Ao longo de 2025 percebemos que a psicanálise permanece atravessada por tensões que renovam sua vitalidade.


O debate sobre a regulamentação mostrou que a formação de um analista não pode ser reduzida a protocolos ou certificações: ela exige tempo, experiência e responsabilidade ética.


A discussão em torno da transferência reafirmou que a clínica psicanalítica só se sustenta quando preserva o lugar do inconsciente — e que qualquer tentativa de substituir essa operação por aconselhamentos, scripts terapêuticos ou técnicas de adaptação empobrece profundamente o trabalho.


Por fim, o avanço da inteligência artificial expôs o risco crescente de transformar sofrimento humano em dado mensurável, lembrando que o sujeito só aparece quando escapa ao cálculo.


A retrospectiva de 2025 aponta, assim, um lugar central: a psicanálise continua necessária justamente porque insiste no que não se deixa regular, antecipar ou normatizar.


Que 2026 nos permita seguir interrogando, transmitindo e reinventando essa prática que, mesmo quando “morre”, renasce no instante seguinte.



Referência bibliográfica

FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga (1926). In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


LACAN, Jacques. “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: ______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


DUNKER, Christian Ingo Lenz. Pseudoformação em psicanálise: O que realmente forma um analista? Canal Falando nIsso, YouTube, 22 out. 2025.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RV-NsqKyYWE&t=3s.

Acesso em: 23/11/2025.





 

Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.




 
 
 

2 comentários


paulo-pan
13 de dez. de 2025

Um dos melhores textos do ano aqui do blog. Poder de síntese que faz um balanço muito importante pra todos nós!

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Renata Suhett
Renata Suhett
19 de dez. de 2025
Respondendo a

Que bom que gostou, Paulo! Sua avaliação é bastante importante para escrevermos novos artigos.

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