O Trabalho da Psicanálise no Tempo: O Que Construímos no ESPECast!
- ESPEcast

- 5 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de dez. de 2025
Todo verão é decretada a morte da psicanálise. E há algo curioso nesse gesto: a tentativa de anunciar o fim de um saber que, desde seu surgimento, não cessa de provocar estranhamento e resistência.
Em 2026, completaremos 126 anos de seu marco inaugural. É certo que sua morte será novamente anunciada, ao mesmo tempo, em que sua presença retorna à cena, persistindo.
Esse movimento cíclico, aliás, não deixa de simbolizar um dos principais operadores clínicos mapeados por Sigmund Freud e retomado pelos psicanalistas: a repetição, como forma de insistência do desejo e do inconsciente.
O ano de 2025 acompanhou esse mesmo ritmo de pausa e reinvenção. Na plataforma ESPECast, assistimos a uma produção intensa — intelectual, clínica, teórica e cultural — que reafirmou seu compromisso com a transmissão da psicanálise em sua ética. A plataforma atravessou seus próprios percursos de transformação, encontros e novos diálogos, renovando sua função no campo da formação e da circulação do saber.
Diante disso, a retrospectiva deste ano pode ser compreendida a partir de quatro grandes movimentos, que organizaram nossa produção e deram forma a um ano de intenso trabalho, reflexão e troca.
O primeiro trimestre
O foco esteve na clínica e nos fundamentos. Em fevereiro, o percurso Toxicomania na Clínica Psicanalítica, com Júlia Reis, abriu discussões sobre o uso de substâncias, cultura e diagnóstico diferencial nas toxicomanias.
Em março, Daniel Omar Perez deu continuidade à série Ditos e Escritos de Lacan, dedicando-se à leitura minuciosa do pensamento lacaniano. Abril trouxe Francis Juliana com Borderline: Psicoses Não Desencadeadas, aprofundando o entendimento desses quadros clínicos e suas direções de tratamento.
Esse início de ano caracterizou-se por conteúdos estruturantes, que recolocam bases importantes da teoria e prática psicanalíticas.
O segundo trimestre
A plataforma voltou-se à articulação entre psicanálise e outros campos do saber. Em maio, Vladimir Safatle conduziu o curso Psicanálise e o Sofrimento Psíquico, articulando filosofia moderna, neurociência e clínica.
Já em julho, Marco Leite apresentou Psicanálise e a Indústria das Evidências, propondo uma crítica contemporânea às práticas baseadas em evidências e à maneira como a psicanálise é situada no campo da saúde mental.
Esse período foi marcado por uma retomada das relações entre psicanálise, ciência e filosofia, sempre com uma perspectiva crítica.
O terceiro trimestre
Aprofundou-se na estrutura psíquica e na dimensão afetiva do sujeito. Em agosto, Antônio Quinet percorreu diferentes faces do inconsciente — do artístico ao trágico, do onírico ao sintomático — num percurso que costura história, clínica e estética.
Em setembro, Mário Eduardo Costa Pereira conduziu o percurso Angústia, Pânico e Desamparo, centrado na importância da angústia na psicopatologia e na prática clínica, analisando desde situações de angústia crônica até fenômenos como terror noturno e fobias.
Essa fase do ano foi atravessada pelas questões fundamentais do psiquismo.
O último trimestre
A plataforma voltou-se à formação, à infância e à transmissão do saber. Outubro trouxe Rosa Maria Marini com O Manejo Clínico com Crianças, destacando os novos modos de subjetividade e os desafios da clínica infantil diante das mudanças contemporâneas.
Em novembro, o período acadêmico reuniu grandes nomes da psicanálise, como Colette Soler, Jean-Michel Vives, Coutinho Jorge e Marcelo Veras, reforçando o compromisso com o rigor, o debate e o avanço da pesquisa psicanalítica.
Além dos percursos, o ano também foi marcado por produções originais da plataforma. O programa Análise Pessoal trouxe conversas entre Ferdinando Zapparoli, Marco Leite e Daniel Perez sobre o percurso do analisante, a formação do analista e os fins possíveis de uma análise.
Café com Leite retomou o formato leve e dinâmico de entrevistas com convidados de diferentes áreas, ampliando o diálogo da psicanálise com diversas áreas do saber. Já o Podcast Filosofia & Psicanálise ganhou novo formato, no segundo semestre, para celebrar seus quatro anos, unindo rigor conceitual e conversa aberta.
Notas Conclusivas
Assim como a psicanálise, a plataforma é viva e pulsante. Diante de tantos percursos novos, somados a tantos outros já disponíveis, ainda resta a pergunta: o que mais podemos criar com a psicanálise, esse campo plural e cheio de atravessamentos?
O olhar “a posteriori”, como nos ensina Freud, deixa claro a diversidade dos conteúdos produzidos, assim como o movimento constante da psicanálise em direção ao pensamento crítico, à clínica aprofundada e ao diálogo com a cultura contemporânea.
Se a cada verão se decreta a morte da psicanálise, o que se vê neste ano é justamente o oposto: sua vitalidade, sua capacidade de transformação e sua persistência em dizer algo sobre o sujeito, o sofrimento e a experiência humana.
Ao longo dos últimos meses, consolidou-se a força conjugada do portal de ensino do Instituto ESPE e da plataforma de streaming ESPECast, que hoje reúne mais de 300 horas de cursos, seminários, conferências e percursos científicos.
A assinatura anual permitiu que estudantes, psicanalistas, profissionais da saúde, filósofos e demais interessados pudessem acessar conteúdos profundos e acompanhar produções inéditas que dialogam tanto com a clínica contemporânea quanto com questões sociais e com a própria história da psicanálise.
No fim, permanece aquilo que talvez seja o mais fiel ao espírito psicanalítico: a aposta contínua na transmissão, na pesquisa e na abertura ao novo. Aquilo que ainda pode ser dito, reinventado, descoberto.
Texto:
Renata Suhett é jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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