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O (im)possível da psicologia no campo da psicanálise

O chamado “campo psi” não é um campo unificado. Embora psicologia e psicanálise compartilhem conexões profundas e um solo comum situado na filosofia, na antropologia, na psicopatologia e na educação, suas origens históricas e epistemológicas são distintas.


A psicologia se constituiu como campo universitário e experimental na Alemanha, sob a herança da filosofia da consciência. A psicanálise, por sua vez, nasceu com Sigmund Freud, em Viena, a partir da experiência clínica e do tratamento dos sintomas, inicialmente em estreita relação com a medicina e a psiquiatria.


Essa proximidade e, ao mesmo tempo, esse distanciamento colocam em questão a relação entre os dois campos. Se, no Brasil, a psicanálise encontrou forte inserção nas faculdades de psicologia e passou a integrar sua formação, isso não significa que a psicologia constitua a origem ou o fundamento da psicanálise.


Compreender o que aproxima e o que distingue esses campos é também interrogar o que se torna possível — e impossível — quando a psicologia encontra a psicanálise.


O que é e qual a origem da Psicologia


A psicologia se constitui como disciplina científica no século XIX, na Alemanha, tendo como marco clássico a criação do laboratório de psicologia experimental por Wilhelm Wundt, em Leipzig, em 1879.


Antes dele, autores como Gustav Theodor Fechner e Hermann von Helmholtz já desenvolviam investigações que contribuíram para a constituição de um modelo experimental de psicologia.

Esse movimento buscava constituir a psicologia como um campo de investigação científica e universitária, voltado inicialmente para fenômenos como a percepção e a consciência.


A psicologia não trabalha com um único método ou uma única forma de delimitar seu objeto. Desde sua constituição, diferentes recortes da experiência humana deram origem a teorias, métodos e formas de atuação diversas, muitas vezes conflitantes entre si.


Inicialmente, foi marcada pela investigação dos processos mentais por meio da introspecção e de estudos experimentais de laboratório. Historicamente, também se dividiu entre o estudo de fenômenos como associação, memória e pensamento e aquilo que Wundt denominava Völkerpsychologie (psicologia dos povos), relacionada posteriormente à constituição da psicologia social.


Ao longo de sua história, diferentes matrizes epistemológicas e teóricas passaram a compor esse campo, como a análise experimental do comportamento, o cognitivismo, a psicologia humanista, a psicologia histórico-cultural e as teorias sociais, entre outras.


Como observa o psicanalista Tiago Ravanello, “a pluralidade de sentidos ou recortes possíveis para o seu objeto fez da psicologia, desde o seu nascimento, um campo de possibilidades muito vasto para a constituição de saberes e fazeres que não se unificam num método próprio ao campo”.


O que é e qual a origem da Psicanálise


A psicanálise surge com Sigmund Freud em Viena, a partir de sua experiência clínica e da tentativa de tratar sintomas, principalmente de natureza histérica. Sua constituição prática remonta à atuação de Freud como médico neurologista.


Do ponto de vista de sua fundamentação como encontro prático, ela possui três origens principais: os processos históricos de cuidado de si (cura), o método clínico (estabelecido como parte do método científico a partir do século XVIII) e o campo prático de tratamentos como a fisioterapia e curadores da época.


Freud define a psicanálise sob uma tríplice perspectiva: como um método de tratamento focado no apaziguamento do sofrimento e na compreensão da gênese dos sintomas; como uma forma de investigação e pesquisa de aspectos psíquicos que seriam inalcançáveis por outros métodos; e como uma nova ciência que agrupa, organiza e sistematiza os achados derivados desse método clínico.


Como aponta Ravanello, “a psicanálise tem um ponto de partida que lhe é inerente: o estudo da obra de Sigmund Freud”. Isso não implica uma adesão religiosa ao pensamento de um autor, mas o reconhecimento de um movimento de instauração de um campo: o do inconsciente.


A partir desse ponto de partida, a psicanálise se constitui por diferentes desenvolvimentos teóricos, sem perder de vista determinados conceitos fundamentais, como libido, pulsão, recalcamento e narcisismo, cuja elaboração mais abstrata é denominada metapsicologia.


Psicologia e Psicanálise


A psicologia é uma profissão regulamentada, com curso de graduação, disciplinas definidas, estágios supervisionados e Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).


É, portanto, uma formação institucional. No interior desse campo, estudam-se diferentes objetos e recortes: comportamento, reforço, modelação, entre outros, que vão orientar a escolha de métodos e abordagens terapêuticas. A psicologia social, a psicologia foucaultiana, a sócio-histórica — todas são linhas de dispersão dentro desse grande campo que é a psicologia.


Nesse contexto, a psicanálise pode aparecer como mais uma dessas linhas. No entanto, um psicólogo não é um psicanalista. Seus processos de formação se dão por caminhos diferentes.


Enquanto a psicologia é regulamentada no Brasil e possui diretrizes formais, a psicanálise não é uma profissão regulamentada. Não existe diploma de psicanalista. Sua formação se baseia num tripé: análise pessoal, atendimento supervisionado e estudo teórico.


É justamente na análise pessoal que encontramos um dos pontos fundamentais dessa diferença. O impossível da psicologia na psicanálise está nesse primeiro ponto, que é também um elemento fundante da formação do analista. Como a cena analítica supõe o encontro entre dois inconscientes, esse encontro não se dá sem consequências — como a resistência, por exemplo.


Ravanello sintetiza esse ponto de maneira clara:


“Uma universidade não pode cobrar de seus alunos que eles façam análise pessoal, nem avaliar isso numa disciplina acadêmica. Isso não faz sentido na relação professor-aluno.”


Na contramão da lógica universitária, a psicanálise sabe usar os restos da transferência a favor do processo de análise. A relação analítica não se confunde com a relação pedagógica.


Aqui se situa o (im)possível: não na tentativa de aproximar ou afastar psicologia e psicanálise, mas em reconhecer o que cada campo pode sustentar a partir de sua própria lógica e de sua própria formação.








Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

 
 
 

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