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O método psicanalítico

Atualizado: 16 de fev.


Qual é o método da psicanálise? Existe um método? Existe mais de um método? Qual é o modo de proceder do trabalho clínico, do trabalho de investigação?


Certamente, em seus 130 anos, a psicanálise mudou, e mudou bastante. Podemos pensar que há um método da psicanálise enquanto prática clínica. Esse método Freud enuncia claramente a partir da associação livre especificamente. Mas a psicanálise também pode ser entendida como um campo de investigação científica, desenvolvida a partir da hipótese do inconsciente, da constituição do aparelho psíquico na primeira tópica e na segunda tópica, de elementos como a questão da repressão, do princípio do prazer, do princípio da realidade, dentre outros.

Então, para começarmos, podemos dizer que existe um método do trabalho clínico, que é a prática clínica, e que existe um método “do pesquisador Freud” – como frisa Daniel Omar Perez no episódio #46 de nosso podcast, disponível no Youtube, Spotify e ao final dessa matéria – “na medida em que ele utiliza elementos da própria análise para dar conta dos fenômenos culturais, ou também, ao contrário, utiliza a análise de fenômenos culturais, relatos etnográficos, as histórias, a própria literatura para, de algum modo, desenvolver elementos do dispositivo analítico.  

Enquanto ao método psicanalítico de Freud que diz respeito à prática clínica, podemos dizer que ele é o método da associação livre, da escuta flutuante, como vão dizer mais tarde aqueles que vão trabalhar a partir do ensino de Lacan, especialmente. Ele é um método de interpretação, do tempo da sessão e do tratamento. 

Em 1904, Freud publicou um texto chamado O Método Psicanalítico de Freud  [1] que é a exposição de um método. Freud o escreveu como se fosse uma outra pessoa porque este texto foi escrito para uma publicação dirigida justamente para a questão da metodologia. Para nos remetermos mais objetivamente a questão do método psicanalítico de Freud, Daniel nos convida a ler algumas passagens dele, passagens aqui transcritas como lidas no vídeo.

[1] Publicado no volume VII da Edição Standard Brasileira e no Volume 6 das Obras Completas pela Companhia das Letras sob o título O Método Psicanalítico de Freud; e no volume Fundamentos da Clínica Psicanalítica da Editora Autêntica sob o título “O Método Psicanalítico Freudiano. A transcrição que se dá no corpo do texto segue o que foi lido pelo professor Daniel no vídeo.



MÉTODO CATÁRTICO X MÉTODO PSICANALÍTICO

O singular método psicoterápico praticado por Freud, e conhecido como o nome de psicanálise, tem seu ponto de partida no procedimento catártico, cuja descrição foi feita por Joseph Breuer e pelo mesmo Freud em uma obra publicada por eles sob o título Estudos sobre a Histeria. O procedimento catártico tinha como premissa que o paciente fosse hipnotizável e descansava também na ampliação do campo de consciência.


O método catártico é um método que aplica a hipnose e supõe que, com isso, o paciente permita, através do seu relato, ampliar-se, em hipnose, o campo da consciência. Sigmund Freud, escrevendo como se fosse outra pessoa, diferencia o método catártico do método psicanalítico, ou seja, ele explicita que o método de Sigmund Freud nasce do método catártico, mas não é o método catártico em si. Vamos ao trecho, como lido por Daniel no episódio:

"O método catártico tem uma característica principal, que o diferencia de outros métodos psicoterápicos e está na eficácia terapêutica que não depende da sugestão proibitiva do médico. Muito pelo contrário, espera que os sintomas desapareçam espontaneamente, enquanto a intervenção médica, baseada em certas hipóteses sobre o mecanismo psíquico, tenha conseguido dar aos processos um curso distinto daquele que vinha seguindo e que conduzia a produção de sintomas."

Explicando: o método catártico propõe a ideia de que, através da hipnose, se alcança um campo de consciência maior que, de algum modo, revelaria os mecanismos que viriam a produzir os sintomas. A revelação desses mecanismos teria, como consequência, a dissolução deles. Isso se diferenciaria da sugestão proibitiva do médico. Segue Freud, lido pelo Professor Daniel:


"Se o método catártico tinha renunciado à sugestão, Freud avançou mais um passo e renunciou à própria hipnose. O analista não pede também que fechem os olhos e evita qualquer tipo de contato ou outro tipo de manejo que de algum modo pudesse lembrar aquilo que representava a hipnose."

O método psicanalítico de Sigmund Freud então começa com a renúncia à hipnose.   A ASSOCIAÇÃO LIVRE E A ARTE DA INTERPRETAÇÃO A seguir, no texto de Freud, temos a introdução da associação livre:

"Freud convida seus pacientes a lhe comunicar tudo aquilo que aparece em seu pensamento, mesmo aquilo que julgam secundário ou impertinente ou incoerente."

Freud então convida o paciente não a ser hipnotizado, sugestionado, mas a falar tudo aquilo que vem em seu pensamento, mesmo o que diz que lhe possa parecer irracional em um primeiro momento. Esse é um ponto fundamental, onde se introduz a associação livre. Este método Freud havia aprendido de duas pacientes, cujos casos estão relatados no livro Estudos sobre a histeria, a saber: Anna O. e Emmy von N.

Ao convidar o paciente a falar tudo que vier a seu pensamento sem nenhum tipo de distinção ou censura, o método psicanalítico de Freud faz com que apareçam as lacunas de memória, ou seja, os momentos de esquecimento de fatos. Aparecem também a confusão das circunstâncias de tempo e das relações causais, aparecem formas de amnésia de períodos muito grandes da vida, como se estes períodos tivessem sido apagados da memória do paciente.

"Quando de algum modo o sujeito é convidado a preencher essas lacunas de memória se observa que ele tenta rejeitar, com todo tipo de críticas, as associações que emergem dessa tentativa, e assim ele começa a sentir um desconforto, uma inquietação direta, quando por fim surge a lembrança esquecida."

Então, esse convite a pensar e a falar o que vem ao pensamento traz, como consequência, elementos do esquecimento. Quando se trabalha em cima desses esquecimentos, o que aparecem são lembranças que são rejeitadas. Dessa forma, como escreve Freud, as amnésias são o resultado de um processo que ele chamará de repressão. Alguns pensamentos são reprimidos e em seu lugar aparecem os esquecimentos.

"A resistência que se opõe a reconstituição da lembrança, de algum modo parece vislumbrar as forças psíquicas que produzem a repressão."

Neste ponto está o mecanismo que se pretende colocar em pauta: a resistência. Quanto maior a resistência, de acordo com Freud, maior é a deformação dessas lembranças e desses pensamentos. Freud então insere, em seu método, o que chama de a arte da interpretação. É como se a fala do paciente fosse um texto a ser interpretado pelo analista, como bem coloca o Professor Daniel, voltando a ler Freud:

"O objeto desta interpretação não são apenas os pensamentos do paciente, mas também seus sonhos, que facilitam um acesso direto ao conhecimento do inconsciente, seus atos involuntários e casuais (atos sintomáticos) e os equívocos da vida cotidiana (equívocos orais, extravios de objetos, etc.). Os detalhes desta arte de interpretação ou tradução não tem sido publicados por Freud (...) salvo na Interpretação dos Sonhos, publicado em 1900."

Freud então, no texto O Método Psicanalítico de Sigmund Freud, coloca seu volume de 1900, A Interpretação dos Sonhos, como uma teoria da interpretação psicanalítica. Aqui, para nos localizarmos temporalmente, estamos em 1903-1904, e Freud já vai se referir também a tudo que vai mencionar em textos posteriores como Psicopatologia da Vida Cotidiana e O Chiste e sua relação com o Inconsciente.

O método de Freud, então, é o método da associação livre do paciente, acolhida na sessão da análise pela escuta do analista para que, a partir daí, uma tentativa de interpretação ocorra. Tentativa esta que não é mais do que uma elaboração, ou seja, a interpretação não é somente do analista, ela é produto da própria elaboração do processo analítico. A interpretação que vale, como nos coloca Freud, é a interpretação que é aceita pelo analisante, porque de algum modo, do que se trata aqui é da elaboração que ele vai fazer durante o processo analítico. Seguindo com Freud.

"A técnica do método psicanalítico consiste primeiro em ter abandonado o procedimento hipnótico. A hipnose, de algum modo, oculta a resistência e o funcionamento das forças psíquicas permanece. Isso não nos permite vencer a resistência e o que acontece é que o sintoma se desloca."

Ou seja, no método hipnótico, uma vez que o paciente revela de algum modo as causas de seu sintoma ele acorda e o médico comunica a ele o que foi revelado. Podemos dizer assim que o sintoma se dissolve, mas que ele se desloca, aparecendo de outra forma, em outro local. Por essa falta de eficácia, Freud abandona o método da hipnose e adota o da associação livre, já descrito aqui. Este método de associação livre requer uma interpretação, que não é outra coisa que não a elaboração da fala do paciente, em um movimento próprio da prática psicanalítica.

“Há um elemento também importante que nós devemos destacar dessa reflexão freudiana sobre o método psicanalítico, onde ele esclarece que não há uma fronteira absolutamente inquestionável entre o que é da ordem da doença e o que é da ordem da saúde. É explícito: Freud diz que entre a saúde e a doença não existe uma fronteira definida, pelo menos nos casos dos conflitos psíquicos produzidos pelos mecanismos da repressão, que são o objeto do tratamento clínico proposto por Freud nesse momento.” – nos diz Professor Daniel neste episódio, levantando a seguir um questionamento: - “então se não há uma fronteira definida como se define então o processo de cura, como se define então o resultado do tratamento e Freud não demora muito para dizer que o processo de cura do paciente não é outra coisa que o restabelecimento da capacidade de trabalho e de amor. ” Uma pessoa saudável, portanto, seria aquela pessoa capaz de trabalhar e de amar. Aqui, aponta o professor, há uma questão de tradução que vale ser verificada.

“Quando nós vemos os termos alemães que Freud utilizou: leistung e genus, podemos ver que leistung pode ser trabalho, desempenho. Então poderíamos pensar em um desempenho, em uma habilidade de poder, na capacidade de poder se desempenhar, o que implicaria que não é o trabalho no sentido de ser capaz de trabalhar 8 horas por dia em uma fábrica, em uma indústria, etc. Não seria um trabalho assalariado necessariamente, se trata da capacidade de desempenho. O outro termo é genus. Às vezes traduzido por amor, genus é gozo, é usufruto. Então podemos dizer que em um processo analítico onde se aplica um método analítico se alcança um resultado satisfatório quando o sujeito consegue reestabelecer suas capacidades de se desempenhar na vida cotidiana e de usufruto, de gozo, de amor.” – nos explica o professor no episódio.

Quando o tratamento é suficientemente prolongado e somente se produz um alívio importante no estado psíquico geral do paciente, mesmo que os sintomas persistam e fiquem de forma apaziguada, para o sujeito fica diminuída sua importância e dessa forma ele não se percebe como alguém doente. Neste ponto poderíamos pensar que a aplicação do método psicanalítico pode alcançar sua finalidade que, pelo menos no que apresenta Freud neste texto, seria reestabelecer as capacidades do sujeito de desempenho e de usufruto, quando não se chega a isso, o tratamento diminui, produz um alívio, e aqueles pequenos dramas da vida que nos atormentam se transformam em pequenas histórias, que não nos obstaculizam no nosso desempenho e na nossa capacidade de usufruto mínimo.

Para concluir, Freud nos alerta em seu texto que para o tratamento poder ter boas possibilidades de êxito, o sujeito que vai se submeter a análise deve estar sob determinadas condições, deve estar em um estado psíquico estável e explica, por exemplo, que em casos de melancolia muito profunda se torna difícil aplicar o método psicanalítico. Nesse caso seria preciso primeiro estabelecer uma melhora do paciente para que ele então possa entrar em um processo analítico.

Daniel nos enfatiza dizendo que “não é em qualquer momento que o método psicanalítico de Sigmund Freud pode ser aplicado. Não é sob qualquer condição. Se um sujeito acaba de sofrer um acidente, está com as duas pernas quebradas e três costelas expostas, é muito difícil fazer uma análise. Então, é preciso que de algum modo se tenham condições mínimas.”




CONCLUSÃO Assim nós podemos dizer que o método psicanalítico de Sigmund Freud:

a)      é o método da escuta flutuante, da associação livre do paciente, da interpretação;

b)      é o método que Freud utilizou para desenvolver a psicanálise como campo de investigação, onde são encontrados recursos como os da literatura, da história, da psicologia das massas, das religiões, os textos bíblicos, os relatos etnográficos.


Para quem quiser avançar mais em seus estudos sobre o método da psicanálise, a dica é acessar a plataforma do ESPEcast e acompanhar os resultados das pesquisas publicadas de outros psicanalistas e de outros praticantes teóricos da psicanálise.


Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:




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Nota:

As citações presentes nesta transcrição foram feitas conforme lidas pelo professor Daniel Omar Perez no vídeo e as explicações que se seguem são as suas explicações. Para efeitos de citações exatas, consultar o texto O Método Psicanalítico de Sigmund Freud, publicado em diferentes traduções e versões.

Transcrição e adaptação: Gustavo Espeschit: Psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


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