O que a psicanálise acrescenta ao diagnóstico psiquiátrico
- ESPEcast

- 16 de jul.
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Notas a partir das Conferências Introdutórias à Psicanálise
A relação entre psiquiatria e psicanálise costuma ser apresentada como uma oposição. De um lado, o diagnóstico; de outro, a escuta. No entanto, essa não é a posição defendida por Sigmund Freud nas Conferências Introdutórias à Psicanálise (1916–1917).
Ao discutir os limites e as possibilidades desses dois campos, Freud não propõe que a psicanálise substitua a psiquiatria. Ao contrário, reconhece a importância do diagnóstico psiquiátrico, mas sustenta que ele não encerra a investigação sobre o sofrimento psíquico.
Partindo desse lugar, Freud constrói um percurso argumentativo que, passados mais de cem anos, continua conduzindo percursos em análise.
Ao reconhecer tanto o alcance quanto os limites do diagnóstico psiquiátrico, demonstra, por meio de exemplos clínicos, o que a investigação psicanalítica acrescenta à compreensão do sofrimento quando este não se limita à descrição dos sintomas.
O que o diagnóstico (não) responde
Ao apresentar o caso da “bem conservada senhora” de 53 anos acometida por um intenso delírio de ciúme, Freud dirige uma pergunta à plateia de psiquiatras que o acompanhava:
"Que postura assume o psiquiatra ante um caso patológico dessa natureza?"
Vejamos o caso. A paciente estava convencida de que o marido mantinha um relacionamento amoroso com uma mulher mais jovem. Do ponto de vista da psiquiatria, tratava-se de um delírio de ciúme. “A boa dama sofre, portanto, de um delírio de ciúme. Essa é, por certo, a característica fundamental desse caso patológico,” aponta.
A partir desse diagnóstico, caberia ao psiquiatra investigar sua etiologia, recorrendo, por exemplo, à predisposição hereditária para os transtornos mentais. Freud reconhece a validade desse procedimento, mas observa que ele deixa algumas questões sem resposta.
Afinal, por que justamente um delírio de ciúme? O que, na história daquela mulher, levou à construção desse sintoma?
Segundo Freud, a psiquiatria científica não dispunha de instrumentos para avançar para além dessas questões. "É um maroto aquele que dá mais do que tem", afirma, acrescentando que o psiquiatra precisava contentar-se com o diagnóstico e, quando muito, com um prognóstico sobre o curso da enfermidade.
A crítica, contudo, não é dirigida à psiquiatria. Ele insiste que não existe uma oposição entre os dois campos. O diagnóstico permanece indispensável, mas ele não esgota a investigação clínica.
Um sintoma faz sentido?
O sintoma pode ser considerado o ponto de partida da investigação psicanalítica. O paciente chega ao setting trazendo seus conflitos, e é justamente nas formações sintomáticas que algo de sua vida psíquica se anuncia.
Se, para a psiquiatria, o diagnóstico responde ao que acontece com o paciente, a psicanálise se interessa por outra questão: por que isso acontece dessa maneira com esse sujeito?
Para demonstrar essa diferença de perspectiva, Freud apresenta, nas Conferências, um caso aparentemente banal. Em sua clínica, observa que alguns pacientes, ao entrarem no consultório, deixavam abertas as duas portas que separavam a sala de espera de seu escritório. À primeira vista, tratava-se de um simples descuido, um gesto sem importância. Mas Freud pergunta: seria realmente um acaso?
Ao investigar essas pequenas ações, conclui que elas não são casuais. Longe disso, carregam uma intenção desconhecida, inclusive de quem as realiza. Como afirma nas Conferências Introdutórias:
"Ela não é obra do acaso, mas, pelo contrário, possui uma motivação, um sentido e uma intenção; faz parte de um contexto psíquico especificável (...)."
Para a psicanálise, aquilo que parece insignificante pode revelar um conflito inconsciente. Não raro, o sujeito desconhece o sentido de seu ato, mas isso não significa que ele seja carente de significado. É um não saber que, ainda assim, se manifesta por meio de seus atos.
Do método
É esse mesmo método que Freud aplica ao caso da senhora de 53 anos acometida por um delírio de ciúme. O diagnóstico psiquiátrico descreve corretamente o quadro, mas não explica por que esse delírio se constituiu.
Ao investigar sua história, Freud identifica um desejo inconsciente dirigido ao próprio genro. Incapaz de reconhecê-lo, a paciente desloca esse afeto para o marido, convencendo-se de que é ele quem mantém uma relação amorosa com outra mulher.
Nas palavras de Freud, o delírio se mostra "pleno de sentido", "dotado de boa motivação" e necessário como resposta a um processo psíquico inconsciente. Uma resposta clássica, no que tange o sintoma: uma solução construída pelo sujeito para lidar com um conflito que não pôde alcançar a consciência.
A contribuição da psicanálise
Ao longo das Conferências Introdutórias à Psicanálise, Freud demonstra que a principal contribuição da psicanálise está em investigar aquilo que o diagnóstico, por si só, não é capaz de responder.
Enquanto a psiquiatria descreve e classifica os fenômenos clínicos, a psicanálise pergunta por sua constituição psíquica. Seu interesse volta-se para a maneira como o sintoma se formou, os conflitos que procura resolver e, sobretudo, o lugar que ocupa na história do sujeito.
Freud é categórico ao afirmar que não há contradição entre os dois campos. Para explicar essa relação, propõe uma analogia que se tornaria uma das passagens mais conhecidas das Conferências: "a psicanálise está para a psiquiatria assim como a histologia para a anatomia".
Tal como a anatomia descreve a forma dos órgãos e a histologia investiga sua estrutura microscópica, a psiquiatria organiza e diferencia os quadros clínicos, enquanto a psicanálise busca compreender os mecanismos inconscientes que lhes conferem sentido.
Em uma conversa para o ESPECast, o psiquiatra e psicoterapeuta Dr. Fábio Scarduelli observa que o diagnóstico é indispensável para orientar a clínica, mas não esgota aquilo que pode ser conhecido sobre um paciente. Saber o nome de um transtorno não responde, necessariamente, como esse sofrimento foi vivido, que função desempenha na vida do sujeito ou quais conflitos ele expressa.
Mais de um século depois das Conferências, continuamos próximos da questão levantada por Freud. Nomear um sintoma é fundamental para orientar o tratamento; compreendê-lo, porém, exige uma outra forma de investigação, construída pela escuta e pela palavra.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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