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Desamparo e Angústia: leitura psicanalítica do Caso Angélica

há 5 minutos
4 min de leitura

Nós chegamos ao mundo sob a tutela do desamparo. Esse, aliás, é um tema bem trabalhado na psicanálise. Acontece que o desamparo não se apresenta isoladamente: a ele está ligado o componente da angústia.


Já tratamos aqui no Blog, em outros textos, dessa temática. Destacamos recentemente o centenário do texto freudiano Inibição, Sintoma e Angústia (1926) e explicamos em detalhes a definição do “afeto que não mente”.


O Conceito


É importante ressaltar que a angústia é, entre os afetos, a mais enigmática, pois interrompe a fala do sujeito, impedindo-o de expressar o que sente sobre si mesmo. Ao mesmo tempo, é um dos elementos mais reais em um percurso de análise, sinalizando o surgimento de algo que ainda está encoberto.


E o que acontece quando o desamparo retorna diante de uma perda?


Com o caso clínico de Angélica, vamos acompanhar, de maneira concreta, a relação entre desamparo, perda, proteção e angústia. Além disso, a apresentação de casos clínicos é uma forma importante de investigação e pesquisa em psicanálise.


Caso Angélica


O caso clínico foi registrado pelo professor Mário Eduardo Pereira em seu livro Pânico e Desamparo, publicado em 2024.


Aos 50 anos, Angélica era casada, havia concluído o ensino médio, não tinha profissão e cuidava de dois netos. Procurou atendimento para ter um outro ponto de vista sobre as crises de ansiedade que enfrentava. Elas vinham acompanhadas por uma aflição que subia pelo peito, um aperto no abdome até o pescoço, mãos suadas, tremores e falta de ar.


Angélica é descrita no texto como muito falante e vivaz, mas uma tristeza permanecia escondida. Em determinado momento, afirma: “Sinto-me cansada de lutar, em 1992 tive uma série de problemas, tive que arcar com muitas coisas.”


Ela perdera a filha abruptamente e, apesar de não conseguir explicar a origem do pavor que sentia, reconhecia sua relação com a morte da filha. Um tempo depois ela relata o medo de perder também o filho, e isso passa a ocupar um lugar central em seu relato:


“Depois que perdi minha filha, fiquei com pavor de perder ele também. No dia que ele disse que ia viajar e passar alguns dias fora, tive uma crise de pavor, só pensava que poderia acontecer algo que ele nunca mais voltasse.”


Essa experiência faz surgir outras lembranças. Angélica volta à infância, à adolescência e, sobretudo, à relação com o pai. Aos 18 anos, dizia sentir-se muito mais velha:


“Quando tinha 18 anos, parecia que eu tinha uns 100. Eu queria fazer coisas que os outros da minha idade também faziam, mas eu era muito reservada. Eu sempre fui como um pintinho dentro do ovo, com medo de tudo.”


O Dr. Mario Eduardo argumenta que a imagem do pintinho dentro do ovo aparece junto à lembrança da separação dos pais e ao vazio que ela associa ao evento:


“Eu perdi o meu pai muito cedo. Ele não morreu, se separaram 5 anos, vazio imenso, família desmanchou, vazio tão grande que só Deus pode preencher”, relata Angélica.


As memórias, o medo e a necessidade de proteção relatadas por ela apontam para outra dimensão de suas crises de angústia.


A proteção diante do desamparo


Até aqui temos uma mulher que perde a filha de modo traumático, por conseguinte, tem medo de perder o filho que lhe resta, e mais a frente relata um passado onde se sentiu abandonada pelo pai. São três eventos que se complementam, e que, por óbvio, só poderiam ser analisados por ela a posteriori.


Quando Angélica fala sobre o pai, ela enuncia uma palavra que ajuda a compreender a posição que parece atravessar sua história: proteção. “Quando eu era menina, queria casar com médico, para me proteger.”


A frase aparece ao lado de outras lembranças que ajudam a dimensionar o lugar ocupado pela figura paterna. Angélica diz que sente medo do futuro, ao mesmo tempo em que procura relativizar a ausência do pai: “Não foi tanto a falta do meu pai, ele era um estranho para mim.”


Mas uma lembrança da adolescência parece contradizer, ou ao menos tensionar, essa afirmação. Um dia, quando roubaram todos os seus documentos, seu pai precisou assinar uma autorização para fazer a segunda via. Naquele momento, Angélica ficou feliz porque ele precisaria tomar conta dela.


A lembrança mostra que, mesmo sendo descrito como um estranho, o pai aparece associado à possibilidade de cuidado e proteção. O professor Mário Eduardo conta que, com o trabalho de análise, ficava mais evidente que seus ataques de pânico a colocavam no papel de uma mãe frágil, dessexualizada, que precisava da proteção e da presença do filho. E por quê?


A cena mostrava que o filho de Angélica ocupara um lugar relacionado à falta do pai. Suas expectativas de reencontrar, no outro, a presença e a proteção paternas eram transferidas para o filho.


A perda, por si só traumática, reatualizava a experiência de desamparo e colocava o filho no lugar daquele que poderia oferecer a presença e a proteção que antes estavam associadas ao pai. O medo de perdê-lo aparece, então, como possibilidade de uma nova perda, e também como ameaça àquilo que sustentava sua relação com o desamparo.


Mário Eduardo escreve: “Havia, inconscientemente, uma ameaça dela lançar-se sob seu filho numa ânsia desesperada por seu amor, agora que a filha não estava mais ali como barreira simbólica a essa aspiração incestuosa”.


O medo da perda


A clínica dos sujeitos com ataques de pânico mostra que essa questão da proteção está vinculada à presença concreta de algo ou alguém. Nessa experiência, explica o professor Mário Eduardo, metáforas e símbolos não parecem suficientes para garantir ou substituir essa presença. É o que ele chama de um “fiador que garanta a estabilidade no mundo”.


O desamparo coloca o sujeito diante da impossibilidade de uma garantia absoluta. Para Angélica, a presença do outro parecia responder a essa condição: primeiro na figura paterna, depois na relação com o filho.


A morte da filha, entretanto, reabre a experiência da perda e revela que nenhuma presença pode oferecer uma proteção definitiva contra a contingência. Na clínica, a angústia pode indicar, então, novas possibilidades de elaboração.


No percurso Angústia, pânico e desamparo, com Dr. Mário Eduardo Pereira, essas questões são abordadas e aprofundadas a partir de situações clínicas concretas. Assine a plataforma ESPEcast para acessar o percurso e estudar conosco.





Texto escrito por:

Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.

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