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O que significam os sonhos para a psicanálise?

Atualizado: 16 de abr.


O que é um sonho? Quais são os elementos do sonho? Como se organiza o sonho?

Na noite de 24 de julho de 1895, em um quarto do hotel perto de Vienna, Freud sonha com uma mulher, Irma, e uma injeção que ele aplicaria à paciente. Esse sonho ficou registrado como "O Sonho da Injeção de Irma" e foi a partir dele que Freud começou a desvendar sua teoria da interpretação dos sonhos.


Na primavera de 1896, o pai de Freud, Jacob Freud, teve graves problemas de saúde, e sua família se preparava para seu falecimento, o que veio a ocorrer muito em breve. Este fato foi decisivo para fortalecer o vínculo de Freud com Wilhelm Flieβ e aprofundar seu processo de análise por meio de encontros, cartas e manuscritos. Foi neste momento que Freud, pensando em seus próprios sonhos, elabora uma técnica propriamente psicanalítica para interpretá-los.


“A Interpretação dos Sonhos” é um volume que foi concluído em novembro de 1899, mas o autor quis que fosse publicado com data de 1900. Contêm quase 200 sonhos. 47 destes são do próprio Freud.

Os sonhos são objetos de diferentes culturas, em diferentes lugares do planeta e em diferentes tempos. A Psicanálise, de algum modo, retoma essa tradição. “O sonho é a realização de um desejo”, disse Freud.


Vejamos o que o professor Daniel Omar Perez tem a nos dizer a esse respeito no #episódio 41 de nosso podcast. Neste texto você encontrará a transcrição dos pontos abordados no episódio. Caso queria assistir o vídeo, ele estará disponível ao final dessa matéria, ou acompanhe o podcast pelo canal do ESPECast no YouTube ou escute pelo Spotify. Vamos a ele!



 

Para abordar a questão do inconsciente, e do desejo realizado através dos sonhos, neste episódio, somos apresentados a um trecho do livro “A Interpretação dos Sonhos”, onde temos este sonho e sua análise: “Eu queria oferecer uma ceia, mas não tinha nada em casa além de um pequeno salmão defumado. Pensei em sair e comprar alguma coisa, mas então me lembrei que era domingo à tarde e que todas as lojas estariam fechadas. Em seguida, tentei telefonar para alguns fornecedores, mas o telefone estava com defeito. Assim, tive de abandonar meu desejo de oferecer uma ceia.”


Mas, o que é um sonho? Quais são os elementos do sonho? Como se organiza o sonho? O que significam os sonhos para a psicanálise?



O QUE É UM SONHO?


“O sonho é uma atividade psíquica humana organizada segundo leis que lhe são próprias. A produção do sonho tem um conteúdo manifesto e um conteúdo latente e por meio da análise tenta-se decodificar o sentido do sonho. Esse é o trabalho do sonho, de acordo com a teoria de Sigmund Freud em “A Interpretação dos Sonhos”, aquele texto fundacional, do ano de 1900” – nos ensina o Professor Daniel neste episódio.


Os recursos através dos quais o trabalho dos sonhos permite fazer aparecer o seu sentido são:


  • A condensação

  • O descolocamento

  • A elaboração onírica primária - imagens

  • A elaboração secundária - narrativa

  • Dramatização.

A condensação é uma imagem que aparece no sonho onde se condensam, se mesclam diferentes pessoas, fragmentos de pessoas, situações, fragmentos de situações, coisas e fragmentos de coisas em uma única imagem. Exemplo: a cara do pai com a barba do tio.


No deslocamento temos as várias imagens de um sonho onde podemos encontrar vários traços de uma mesma pessoa ou situação, substituídos por imagens opostas ou de menor importância. Diferentes traços dessas pessoas ou situações aparecem espalhados em diversas partes deste sonho.


O procedimento de representação, ou elaboração onírica primária, é a etapa do sonho onde pensamentos são transformados em imagens. É onde frases, ou fragmentos de frases são substituídos por imagens, por desenhos.


Na elaboração secundária o sonho se apresenta com um cenário, com uma narrativa mais ou menos coerente, mas nem sempre, onde algo pode ser relatado. Nesta fase encontrarmos o conteúdo onírico em forma de uma história.


Na dramatização existe a representação cênica do sonho, onde ele passa a constituir um certo drama. No nosso fragmento, vimos que Freud destrincha essas fases do sonho e vai decifrando-o, o interpretando.



A QUESTÃO DA TRANSFERÊNCIA


Também a noção de transferência é diferente em Freud e em Lacan. Para ambos ela é condição sine qua non da clínica psicanalítica. Em Freud, a transferência, a relação transferencial, ou seja, o vínculo afetivo entre o médico e o paciente – como diz Freud – se dá a partir da imagem paterna, da imagem materna, da imagem do irmão maior, etc. Isso que dizer que, de alguma forma, quando o paciente está falando para o analista, ele está falando, de acordo com Freud, para a imagem do pai, da mãe, do irmão, etc e então tende a repetir aquilo que, de algum modo, executou com sua relação parental.


Em Lacan a transferência não se dá com uma imagem materna, paterna ou fraternal, e sim com um sujeito suposto saber, ou seja, a relação transferencial se dá com um sujeito ao qual se supõe um saber sobre algo. A relação transferencial em Lacan é com o saber. Saber este que alguns entendem encarnado na figura, na imagem, do analista. A partir disso temos vários desdobramentos do que poderia vir a ser essa relação transferencial. Eu estabeleço com meu analista um vínculo a partir do que eu suponho que ele sabe de mim e que eu ainda não sei.


Esta maneira de se entender a transferência é, obviamente, bem distinta da diferença freudiana, mas cabe destacar novamente que, para os dois, ela é condição para que o processo analítico ocorra. Sem ela, não tem análise.

QUAIS SÃO OS MATERIAIS DOS SONHOS?

Os materiais dos sonhos são:


  • restos ou reminiscências diurnos

  • a censura

  • os símbolos

Freud vai nos ensinar que os sonhos são motivados por coisas que aconteceram na véspera do sonho, as chamadas reminiscências diurnas. Essas reminiscências são restos da memória diurna de algo, ou de alguém, de uma situação, que se apresentou no dia anterior que de algum modo volta a aparecer no sonho. Estes são elementos da vida cotidiana de um passado recente.

A deformação do sonho, realizada através dos processos de condensação, deslocamento, e das elaborações primárias e secundárias são efeitos do processo de censura. Vemos que, apesar do sonho ser a manifestação inconsciente do desejo, onde aparece, de certa forma, uma desinibição, os mecanismos de repressão tendem a ficar mais tênues, mas não deixam de operar. Os desejos não reprimidos no sonho podem fazer acordar o sonhador. Alguém, diante da realização do desejo no sonho, pode acabar acordando. O desejo no sonho também pode ser o de seguir dormindo. Exemplo: sonhamos que estamos no banheiro urinando por exemplo e na manhã seguinte nos encontramos deitados em um colchão molhado de urina.

Outro material dos sonhos são os símbolos. De acordo com Freud não existe uma simbologia universal do sonho que nos permita decifrar o seu sentido. As imagens podem ter uma conotação ou uma denotação no interior de uma cultura ou de uma tradição, mas seu sentido não depende de uma classificação feita a priori, e sim das associações do paciente.



O SENTIDO DOS SONHOS


O sentido dos sonhos será revelado no trabalho da análise. É a palavra que sustenta o próprio paciente que está em jogo quando se decifram os sonhos. O sentido dos sonhos será dado então, em resumo, pelas associações livres feitas por ele em um processo analítico, a partir de uma dor, de um sofrimento, de um mal-estar. A interpretação que se faz do sonho na experiência deste encontro entre o analista e o analisante provoca, de algum modo um material.


Essa experiência permite que o paciente fale tudo aquilo que considere que precise ser dito e assim fazer a associação entre o que é falado e o que aparece associado àquilo que se disse no falar, considerando-se também aquilo que surge por exemplo num lapso.


Interpretar um sonho, um lapso, um esquecimento, um ato repetitivo, um relato de uma fantasia é uma operação de intervenção do analista sobre o discurso do paciente, operação essa que se faz a partir do próprio analisando. Uma interpretação psicanalítica pode ser uma pergunta, uma repetição de algo enunciado pelo próprio analisante, uma finalização de sessão, a pontuação de uma frase ou de uma palavra, um gesto. Todos e qualquer um desses elementos podem fazer parte da técnica de interpretação psicanalítica sobre o sonho contado pelo analisante, que tem como objetivo uma mudança de posição com relação a aquilo que ele fala.


Quando o analista interpreta ele não sabe o que diz, pois o saber está do lado do analisando. É ele quem elabora sua posição a partir da interpretação. E assim transcorre a sessão de análise: o analisante fala, conta sua dor, associa e vai se deslocando na medida em que fala na posição em que ocupa enquanto sujeito. O analista intervém pontuando, ecoando, perguntando, fazendo silêncio, marcando algum segmento da fala do paciente e aí o analisante se implica na cena que relata, escuta aquilo que fala. Ele pode rir disso. Pode se angustiar por não se encontrar mais onde ele achava que estava. Pode ficar em silêncio. Pode reencontrar aquilo que já sabia.


O analista não sabe o que diz, desde que saiba o que faz, nos disse Lacan em algum momento. Interpretar, na experiência analítica, é fazer este tipo de intervenção.



 


CONCLUSÃO Desde criança Freud costumava anotar seus sonhos em um caderno, que levou durante anos, mas seu interesse científico pelo funcionamento e sentido dos sonhos ocorreu depois de utilizar o método de associação livre nas pacientes histéricas.


“Muitas vezes sabemos que sonhamos, sem saber o que sonhamos; e estamos tão familiarizados com o fato de os sonhos serem passíveis de ser esquecidos que não vemos nenhum absurdo na possibilidade de alguém ter tido um sonho à noite e, pela manhã, não saber o que sonhou, nem sequer o fato de ter sonhado. Por outro lado, ocorre às vezes que os sonhos mostram extraordinária persistência na memória. Tenho analisado sonhos de pacientes meus, ocorridos há vinte e cinco anos ou mais, e lembro-me ainda de um sonho que eu próprio tive há mais de trinta e sete anos e que, no entanto, está mais nítido que nunca em minha memória. Tudo isso é muito notável e não é inteligível de imediato.” (FREUD – A Interpretação dos Sonhos)



Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:





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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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