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OS estágios da sexualidade para Freud


O segundo e terceiro ensaio de Freud sobre o desenvolvimento psicossexual humano No episódio 43, Daniel nos falou sobre a Teoria Sexual de Freud e nos apresentou aspectos do primeiro ensaio do livro Três Ensaios para uma Teoria Sexual, onde são abordadas as questões da pulsão e da perversão. Agora neste episódio #44 ele vai nos guiar pelos os estágios da sexualidade para Freud, junto com seus outros dois ensaios da teoria da sexualidade na psicanálise.

 
SEGUNDO ENSAIO – A SEXUALIDADE INFANTIL

No segundo ensaio, Freud escreve que a primeira e mais vital atividade da criança é o aleitamento materno, seja no seio, seja no substituto do seio.

A amamentação não só nutre a criança, mas também a sensibiliza, a excita, erotiza seus lábios da criança. Assim, a boca se constitui como lugar de nutrição, ao mesmo tempo que se caracteriza como zona erógena e o aleitamento materno não só nutre como também satisfaz a excitação que originou.

Esse fenômeno, de acordo com Freud, não se restringe a boca. Pode acontecer que qualquer parte do corpo seja, de algum modo excitada, estimulada e que essa excitação, esse estímulo, venha querer encontrar um apaziguamento, ou seja, uma satisfação.

Além da zona oral, Freud vai mencionar a zona anal e o prazer obtido na retenção e expulsão das fezes, operações ligadas ao funcionamento intestinal. Aqui - nos intestinos, no esfíncter - outra vez teríamos uma função biológica ligada a um funcionamento psíquico e uma necessidade biológica, o defecar, ligada a uma satisfação.

Nessa ordem, o terceiro caso seria o da genitália: atividades uretrais ligadas a satisfação que a micção provoca.

“Todos estes casos se realizam tanto na menina quanto no menino, convencionalmente, binariamente determinados pela convenção social.” – nos aponta Daniel reforçando que assim Freud entende que na criança existe uma pré-disposição perversa polimorfa.

“E esse é um elemento bem interessante.” – completa o professor. – “Então há uma predisposição universal à bissexualidade – este é um ponto de origem da psicanálise – e há uma predisposição polimorfa. Quer dizer, a satisfação sexual pode ser dada por qualquer uma das zonas excitadas, das zonas erógenas.”

No início da vida, a satisfação se encontra indistintamente, do ponto de vista do gênero socialmente estabelecido, em todas as zonas erógenas. Em seu desenvolvimento, a criança vai então encontrar a unificação sexual na genitália e essa unificação organiza, de algum modo, os escoamentos pulsionais das outras zonas erógenas.

Este é o tema do segundo ensaio.


Terceiro Ensaio – A sexualidade infantil

O terceiro ensaio será o lugar onde Freud abordará a passagem do autoerotismo infantil à escolha de objeto na adolescência. Ele vai afirmar que a imagem da criança que suga o seio da mãe, ou substituto, acaba sendo o modelo de toda relação amorosa e que essa seria a primeira relação sexual. Não somente a primeira, mas a mais importante, porque se trataria do grande momento de excitação e satisfação.

O modelo da oralidade, portanto, é o que vai determinar a repetição dos comportamentos deste sujeito em sua vida adolescente e adulta. Na fase da adolescência, portanto, ocorreria uma integração das pulsões e essa integração culminaria na escolha de objeto. Assim se manifestariam, significativamente, os afetos de amor e ódio e de corrente terna e corrente sensual do encaminhamento da energia libidinal. “Aí, então, encontramos o amor da ternura e o amor sexualizado” – conclui Daniel.

Para Freud – e para os psicanalistas do início do século XX – o desenvolvimento psicossexual dos seres humanos se realizaria por estágios, sendo eles:

· Estágio Oral

· Estágio Anal

· Estágio Fálico

· Estágio de Latência

· Estágio Genital

Essa é uma teoria que aparece no início do século XX. Algumas correntes da psicanálise continuam entendendo esse desenvolvimento genético de estágios. Outros entendem que a constituição do sujeito a partir desses estágios e a partir da pulsão escópica e da pulsão invocante – como vai introduzir Lacan – deixa de ser um movimento evolutivo e passa a ser um movimento de escoamento pulsional dentro de uma estrutura.

“Então aqui o que nós vamos ver é como, no início do século XX, para Freud, e para alguns psicanalistas, havia cinco momentos, cinco fases, que constituem o desenvolvimento dessa criança em um sujeito.” – nos aponta Daniel.



ESTÁGIO ORAL

O estágio oral estaria fundado na necessidade da nutrição pela boca. A sucção que o bebê realiza para poder se nutrir, para poder se alimentar, essa relação da boca do bebê com o bico do peito da mãe, essa relação da boca - ou de quem a nutre do bico do substituto do peito para poder se nutrir - produz uma zona de excitação erógena. Essa excitação encontra seu repouso na satisfação da oralidade. Desse modo, temos uma dupla satisfação: a fome e também o prazer sexual. O fato de sugar o peito ou sugar o substituto do peito, nesse momento satisfaz a fome, mas também satisfaz um prazer sexual, a excitação do corpo. E vamos destacar aqui que para Freud, o termo sexual não se restringe à genitália. Sexual se refere, de alguma forma, a satisfação da excitação de uma zona erógena do corpo.


A oralidade, de acordo com Freud, teria como propósito a incorporação do objeto e por isso essa fase também se denomina como fase canibal ou pulsão canibal. Vários psicanalistas – e os mais destacados nesse ponto seriam Karl Abrahan e Melanie Klein – consideram que a oralidade determinaria primeiro o caráter da pessoa e segundo a relação com o objeto. Há toda uma teoria do caráter definida por Abraham a partir da oralidade e da analidade, por exemplo.


“A ansiedade de separação, a tolerância à frustração, a compulsão com o consumo de bebida, comida ou drogas podem estar relacionados com a experiência infantil do bebê em relação com a sucção.” – explica o professor Daniel.



Estágio Anal

Estágio fundado na necessidade de regular os esfíncteres. A criança aprende a controlar a expulsão das fezes pelo ânus e essa experiência - de reter e soltar as fezes - ao mesmo tempo que satisfaz uma necessidade biológica, acaba criando uma zona de excitação erógena. Assim, quando a criança faz cocô – em uma linguagem coloquial – ela experimenta, de alguma forma, uma experiência de um prazer sexual - no sentido psicanalítico, como explicado anteriormente – ou seja, ela obtém uma satisfação para uma excitação de uma zona erógena.

Como no caso anterior, alguns psicanalistas entendem que alguns traços de personalidade seriam definidos nesta fase também. “Pessoas com características de rigidez em seus hábitos, intolerantes com a mínima desordem, impossibilitados de se entregar em uma relação amorosa, impossibilitados de receber amor, etc. Também pode ser que a relação com as fezes tenha sido de um modo que lhes permite oferecer criativamente aquilo que consideram próprio. Então, para alguns psicanalistas, de início do século XX, entregar ou receber, de algum modo, um comportamento, um mecanismo que se repete em relação àquele originário, fundacional, da relação da criança com as próprias fezes.” – diz Daniel no episódio.


Estágio Fálico

O terceiro estágio – o fálico – tem como zona erógena a genitália e está marcado pela experiência da castração, isto é, pelo medo de perder ou ter perdido o falo. Trata -se do reconhecimento de um órgão que encontra uma diferença entre o pênis e a vagina e que coloca a criança em outra relação com quem faz a função de pai e mãe.

A criança atravessa a experiência nomeada por Freud de “Complexo de Édipo”, onde a princípio o menino se coloca como adversário do pai e a menina como adversário da mãe.



Estágio de Latência

O quarto estágio é o da latência, período no qual haveria uma detenção do desenvolvimento sexual da criança que entra na puberdade e dessexualiza as relações com os objetos.

Explicando:

Depois do Édipo aparece o período de latência. Neste período a criança dessexualiza seus objetos e há uma intensificação dos mecanismos de repressão. “É onde a criança deixa de estar mais ligada aos cuidadores, às cuidadoras, ao papai, à mamãe, àquele grupo pequeno, para entrar em uma ordem social que tenha a ver com outras crianças, primos, irmãos, colegas da escola.” - explica Daniel.

A intensificação dos mecanismos de repressão que se dá neste momento faz com que a criança comece a adquirir os valores morais e estéticos da sociedade em que habita e sentimentos como ternura, modéstia ou apreciações de caráter estético e contemplativo começam a ser alcançados.



Estágio Genital

Este é o quinto e último estágio. Nele reaparece, finalmente, o interesse sexual e ele coincide com o estágio fálico na importância dada para a genitália.

Os interesses sexuais da criança na puberdade, e agora já entrando na adolescência até a sua morte, são para além de quem faz função de pai e mãe, cuidador, cuidadora, etc. A pessoa precisa lidar com seus impulsos sexuais e agressivos para além do círculo familiar e precisa entrar no mundo social. “Aí é que entra na adolescência, não?” – nos pergunta Daniel.

A pessoa tem que se encontrar com o infamiliar, tem que lidar com o estranho, precisa lidar com seu corpo sexuado e com o corpo sexuado do outro, que aparece na convivência. Essa experiência inédita carece de regras a priori que ditem a esse sujeito que está entrando na adolescência o que fazer em cada caso. Por isso, então, o sujeito procura exemplos em ídolos esportivos, da televisão, artísticos, políticos e por isso também que o sujeito procura exemplos em grupos e se vincula a grupos esportivos, culturais, de gênero, de diversidade sexual, religiosos, dentre outros. Há ainda com as quais ele se identifica tentando encontrar respostas para lidar com os impulsos do corpo - próprio e alheio - para de algum modo dar direcionamento tanto à sua sexualidade quanto à sua agressividade.

 

CONCLUSÃo

Ao final do episódio, Daniel nos faz um convite para pensarmos as seguintes questões.

· O que acontece com essas identidades das, dos, des diferentes.

· O que acontece com aquelas pessoas que não se encaixam dentro daquilo que poderíamos dizer o nomeado de alguma forma na sociedade?

· O que acontece com aquelas pessoas que não encontram sua identidade nas etiquetas oferecidas no mercado das identificações?

· Como lidam com as, os, outras, outres, outros quando resistem a serem obrigados a assumir um rótulo, um lugar, uma posição, uma crença, um discurso, um conjunto de gestos, uma série de ideias e de opiniões?

· O que sucede com um sujeito que não se reconhece em um grupo que supostamente deveria se reconhecer ou pertencer ou não age como supostamente deveria agir?

E explica:

São singularidades que incomodam a uns e a outros por não assumirem comportamentos, ideias e hábitos sociais, culturais e especialmente morais legitimados, seja dentro de grupos hegemônicos ou seja dentro de grupos alternativos. A identidade das, dos, des diferentes é socialmente intolerável e inadmissível e é identificada como perigosa, criminosa, imoral, isto é, louca.

O sistema de identidades reconhecíveis e aceitáveis da sociedade de produção e de consumo, seja na ordem social oficial, seja em grupos pretensamente alternativos, encarrega -se, sistematicamente, de excluir e encerrar ou diretamente exterminar a diferença. A singularidade do sujeito, que em cada caso somos nós mesmos e que nós habitamos, não fecha em uma identidade oferecida pelo outro.

Essa diferença, essa singularidade são exatamente aquilo que a psicanálise como experiência ética propicia sustentar até às últimas consequências para que outra relação entre a diferença possa vir.

Isso é a ética do desejo como ética da psicanálise.

E assim o professor Daniel encerra o episódio.

Gostaria de assistir o episódio completo de nosso podcast sobre o tema? Confira o vídeo abaixo:









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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio: Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.

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