Por uma arqueologia da psicanálise:leitura, memória e transmissão no contemporâneo
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Há um paradoxo na tentativa de descentralizar a psicanálise de Sigmund Freud: ainda assim, recorremos a Sigmund Freud.
No texto de 1930, O mal-estar na civilização, trabalhando o tema da conservação do primitivo no psíquico e dos esquecimentos mnemônicos, Freud recorre a um “símile” com a evolução da Cidade Eterna que, segundo historiadores, teve como forma mais antiga a Roma Quadrata.
“Perguntemo-nos agora o que um visitante da Roma atual, munido dos mais completos conhecimentos históricos e topográficos, ainda encontraria desses velhos estágios”. Nada muito além de vestígios, diz Freud, apesar de coisas antigas permanecerem enterradas no solo da cidade moderna.
E se Roma fosse uma entidade psíquica? Essa é a proposta do símile freudiano. Depois de levar adiante essa “fantástica e fantasiosa suposição”, o autor afirma que “o que se passou pode ficar conservado na vida psíquica, não tem necessariamente que ser destruído” [Freud, 1930].
A conservação do passado na vida psíquica, escreve Freud, é antes a regra do que exceção. Se estivermos dispostos a contar e recontar a história das mulheres na psicanálise a partir de uma perspectiva que poderíamos chamar de geoarqueológica, podemos então construir nosso próprio símile: tomar aquilo que a história da psicanálise deixou nos porões e trazê-lo à luz do contemporâneo.
Nosso interesse é, portanto, percorrer a história da psicanálise a partir da ótica daquelas que ficaram à margem do reconhecimento teórico-clínico, em um gesto arqueológico.
Pois, enquanto objeto de investigação e presença nos circuitos afetivos e intelectuais masculinos, as mulheres sempre ocuparam um lugar — a tal ponto que não haveria psicanálise sem esse movimento fundador, conforme indica a intervenção da Sra. Emmy von N., paciente de Freud, ao adverti-lo de que, em análise, quem fala é a própria paciente.
O que permanece: conceitos fundamentais em circulação
Se tomamos a hipótese freudiana de que nada do que se inscreve no psíquico se perde por completo, mas antes se mantém sob diferentes formas, então os conceitos formulados por essas autoras podem ser lidos como operadores que continuam a trabalhar a psicanálise.
Ao recuperar Anna Freud, Renata Wirthmann destaca os mecanismos de defesa do eu como um verdadeiro trabalho do aparelho psíquico: evitar, deslocar, transformar, conter, reorganizar.
Nas palavras de Wirthmann, trata-se de um conceito que ganha espessura sobretudo na clínica com crianças, “uma vez que essas defesas podem ser lidas também em relação aos desafios do desenvolvimento, ao vínculo com os pais e à fragilidade própria da constituição psíquica durante a infância”.
Em outra direção, a leitura de Sabina Spielrein apresentada por Renata Cromberg recoloca em circulação um conceito que, durante muito tempo, ficou soterrado: a destrutividade como condição do devir.
Afirmando a destruição não apenas como negatividade, mas como força implicada na transformação e na criação, Spielrein antecipa uma problemática que seria posteriormente reformulada por Freud em outros termos.
“É um conceito (destrutividade) que tem um valor de transformação ou estagnação e de criação também”, argumenta Cromberg.
Do mesmo modo, em Lou Andreas-Salomé, conforme destaca Débora Damasceno, encontramos o narcisismo como estrutura permanente, capaz de sustentar tanto a vida psíquica quanto a produção cultural.
É uma formulação que ganha ainda outra dimensão quando situada a partir da posição de uma mulher. “Ela considera que o narcisismo não é uma fase a ser superada, mas uma estrutura permanente que promove, por exemplo, a nossa expressão artística”, diz Damasceno.
Por fim, acompanhando a análise de Françoise Dolto proposta por Cibele Scarpelin, vemos emergir um conceito que nasce diretamente da clínica: a imagem inconsciente do corpo, uma ferramenta que permite escutar a criança para além da linguagem constituída, considerando sua subjetividade.
“O que é interessante, para além dos conceitos, é que Dolto também era muito criativa para inventar palavras para dar conta de transmitir sua clínica”, explica Scarpelin, exemplificando a palavra mamaïse, em francês, que diz respeito à aquisição da capacidade da criança de se cuidar, de se automaternar.
O que esses estudos evidenciam é que tais conceitos, além de pertencerem à história da psicanálise, seguem operando como pontos de apoio para a clínica e para a teoria.
A leitura em transformação: deslocamentos ao longo do tempo
Se os conceitos permanecem, as leituras, por sua vez, não são as mesmas. Retornar a uma autora implica, muitas vezes, deslocar a própria posição de leitura — seja pela ampliação do percurso teórico, seja pela incidência de novas questões clínicas e históricas que reconfiguram aquilo que antes parecia dado.
Renata Wirthmann situa sua interpretação de Anna Freud como um percurso de transformação. Inicialmente marcada pelas críticas dirigidas à psicologia do ego, sua leitura acabava por restringir a complexidade da autora.
Com o tempo, retornando aos textos, às correspondências e, especialmente, ao trabalho clínico com crianças, Anna Freud surge sob outra perspectiva: “fui percebendo uma autora muito mais interessante, do ponto de vista clínico e histórico, do que eu me autorizava a ler durante anos de percurso pela psicanálise”, diz Wirthmann.
Um movimento semelhante pode ser observado em Sabina Spielrein, apresentada por Renata Cromberg. Aqui, a mudança acompanha o próprio processo de acesso à obra: à medida que novos textos vão sendo conhecidos, emergem tanto a formulação da destrutividade quanto a reflexão sobre a origem do pensamento e da linguagem.
“Um conceito fundamental que é a primeira forma, a primeira maneira como Spielrein consegue pensar a origem do pensamento e da linguagem. Ela é uma pioneira desse pensamento nos estágios da linguagem, do pensamento na criança”, afirma Cromberg.
Também em Lou Andreas-Salomé, conforme indica Débora Damasceno, essa inflexão está diretamente ligada a uma mudança de posição subjetiva.
“Passei a lê-la como uma mulher que fala e pensa como mulher, se relacionando, evidentemente, com outros autores, mas não respondendo a eles ou preocupando-se em ser compreensível a eles”, relata Damasceno.
Já a análise de Françoise Dolto, apresentada por Cibele Scarpelin, passa também pela língua e pelas condições de acesso aos textos. “Primeiramente fiz a leitura dos livros em português e, quando fui para Paris, comprei os livros dela em francês e ainda estou na tarefa de lê-los na língua materna de Dolto, o que faz bastante diferença para conhecer seu estilo de escrita”, relata Scarpelin.
O retorno aos primeiros textos, às versões iniciais e às reescritas revela o caráter processual da construção teórica, afastando a ideia de um conceito fixo e acabado.
Formação do analista: transmissão e prática no presente
Porque os conceitos perduram e as leituras se transformam, a transmissão se torna possível na formação do analista. Vimos até aqui com Wirthmann, Cromberg, Damasceno, e Scarpelin, que existe um deslocamento no modo de ler, de escutar e de se posicionar diante da clínica e de seu tempo.
Anna Freud aparece, na visão de Wirthmann, de modo incontornável para aqueles que trabalham com a infância, sobretudo em contextos de vulnerabilidade. Suas formulações autorizam pensar a criança em sua especificidade, levando em conta os vínculos, o ambiente, o desenvolvimento e os efeitos das rupturas de cuidado.
No caso de Sabina Spielrein, aponta Cromberg, sua inserção na formação se dá ainda de forma progressiva, à medida que sua obra vem sendo retomada. A presença de seus textos em seminários e cursos, bem como no debate em torno de Além do princípio do prazer, de Freud, evidencia seu pioneirismo e a possibilidade de tensionar conceitos psicanalíticos fundamentais.
Já em Lou Andreas-Salomé, conforme sugere Damasceno, a contribuição à formação se apresenta como um convite a pensar a psicanálise como prática clínica e não como um sistema fechado. Sua obra, profundamente atravessada pela experiência da intimidade, indica que a produção teórica não se separa da vida, mas pode emergir justamente dessa articulação.
Por sua vez, Françoise Dolto, na interpretação de Scarpelin, recoloca em questão a própria ideia de formação. Acompanhar Dolto possibilita recolocar a pergunta sobre o que é ser um psicanalista hoje.
Menos acúmulo de conhecimentos, mais sustentação de uma posição marcada pela curiosidade, abertura e atenção ao tempo presente.
Quem transmite hoje: posições contemporâneas no campo
A presença dessas autoras na psicanálise contemporânea não se sustenta de forma espontânea. É necessária uma implicação, e, por que não, um desejo de transmitir suas ideias.
As pesquisadoras e psicanalistas entrevistadas — Renata Wirthmann, psicanalista e professora associada do curso de Psicologia da UFCAT, pós-doutora em Teoria Psicanalítica pela UFRJ e doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela UnB;
Renata Cromberg, psicanalista, doutora e pós-doutora pelo IP-USP, professora convidada do COGEAE/PUC-SP e membro de grupos internacionais de pesquisa sobre Sabina Spielrein;
Débora Damasceno, psicanalista com formação em Filosofia pela USP e especialização em Teoria Psicanalítica pela Sorbonne;
e Cibele Scarpelin, psicanalista com formação em Filosofia e atuação na articulação entre clínica e transmissão — ocupam posições que articulam universidade, clínica e produção teórica, tornando possível a circulação e a reavaliação dessas obras.
Seus percursos indicam que a transmissão da psicanálise hoje envolve a continuidade da leitura dos textos clássicos, e, sobretudo, um trabalho ativo de reintrodução, interpretação e ensino dessas autoras, que aparecem como parte de um movimento mais amplo de renovação do campo, sustentado por práticas de pesquisa e formação.
História, apagamento e reescrita
Se, ao longo deste artigo, acompanhamos como conceitos se conservam, leituras se transformam e a transmissão se atualiza na formação do analista, a contribuição de Fátima Caropreso permite situar esse movimento em uma escala mais ampla: a da própria escrita da história da psicanálise.
Ao destacar que, durante muito tempo, a psicanálise foi narrada como uma disciplina constituída majoritariamente por “homens e médicos”, Caropreso destaca que o apagamento das mulheres se deu por condições de reconhecimento e legitimação.
As mulheres, aponta a professora, “foram chegando aos poucos, discretamente”, enfrentando não só barreiras institucionais, mas também posições explicitamente misóginas que colocavam em dúvida sua aptidão intelectual e clínica.
Essa perspectiva coincide com o movimento deste artigo: torna-se fundamental deslocar o modo como lemos, transmitimos e organizamos a tradição psicanalítica. Caropreso afirma: “há na psicanálise uma tendência ao dogmatismo, à fixação em poucos referenciais, o que limita a abertura a outras formulações e experiências.”
Resgatar essas mulheres hoje, portanto, responde a uma necessidade teórica e clínica. Ao reinscrever suas contribuições, atualiza-se o passado da psicanálise, ao mesmo tempo em que se abrem suas possibilidades no presente.
Assim, a arqueologia proposta na introdução encontra aqui sua dobra: o que ficou soterrado retorna como atividade de leitura, transmissão e prática.
Texto escrito por:
Renata Suhett, jornalista, especialista em escrita, marketing e mídias sociais. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa - RJ.



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